O Pacto de Silêncio. Carlos Santos

 

Num momento em que os casos de infetados pela pandemia atingiram números alarmantes, retirando importância ao assunto, o país tem a subtileza de falar sobre tudo e todos, menos das escolas e dos professores.
Ajuntamentos com mais de cinco pessoas são proibidos, exceto nas escolas.
Distanciamento de dois metros entre as pessoas é obrigatório, menos nas escolas.
Nas escolas, onde também se deveria zelar pela segurança de todos, temos salas de aula com perto de trinta pessoas em espaços de trinta metros quadrados, evidenciando as fragilidades escondidas debaixo do tapete durante anos por sucessivos governos e por uma sociedade que só tem visto a escola como um depósito para os filhos.

Todos os que lá estão, sobretudo os adultos, incluindo os professores que, pela idade avançada constituem um grupo de risco, sabem perfeitamente ao que vão, da falta de meios de proteção, mas têm de ir. Estão cientes de que, diariamente no seu local de trabalho, estão a colocar em jogo a própria vida numa lotaria do inferno. Têm a perfeita consciência de que todas essas regras de higiene e segurança se aplicam a todos os cidadãos, menos a eles e aos alunos (embora estes, na esmagadora maioria, assintomáticos).

Mas, perante esta situação, o que se diz diariamente sobre isso nas ruas e nos noticiários?
Nada.
Quando se discutem os riscos e a situação que existe em todo o lado, menos nas escolas, não me parece que o silêncio sobre o assunto seja inocente. De facto, não é preciso grande esforço para nos apercebermos de que ninguém fala nem quer falar do que efetivamente se passa nas escolas para não causar alarido nem pânico, indo ao encontro de um único interesse – o proveito próprio. Ninguém quer admiti-lo, pois é conveniente para todos que aquele – mais do que nunca – reservatório de crianças, continue a funcionar. É preciso que esteja de portas abertas a receber os seus filhos para os pais poderem ir trabalhar, para a economia não entrar em crise, para o país não colapsar (bem defendia eu durante anos que uma greve de alguns dias seguidos faria parar o país e, finalmente, a nossa voz seria ouvida).
Desde jornalistas à classe política, passando pelo cidadão em geral, todos eles têm interesse em ter as escolas a funcionar (seja em que condições for, nem que colocando em causa a integridade dos professores). O bem pessoal fala mais alto e nem uma palavra se ouve sobre o perigo daqueles que a frequentam, pois a premissa é fazer de conta que ali, onde se ensina, nada se passa de anormal.

Movidos por um ato de falsa cortesia e impura dose de reconhecimento que visa santificarem-se dos pecados da inveja e da calúnia reinantes noutrora, as pessoas pararam de falar mal dos professores. Num momento em que os docentes estão a arriscar a sua saúde e as suas vidas, a população, agindo em proveito próprio, preferiu calar-se e ignorá-los. Esta é a verdadeira máscara social que esconde uma elevada dose de hipocrisia e de oportunismo. As vozes que difamavam os professores, só se calaram para nada falarem quando estes estão a pôr a sua vida em risco em favor dos nossos jovens, da sociedade e da nação. Sempre foi assim neste cantito da europa… as pessoas só falam bem dos outros quando partem ou quando são recebidas algures na glória do Senhor, pois as suas bocas costumam estar demasiado ocupadas a injuriar e a ofender.
Só é pena que em tempos idos, quando precisavam de estar calados, não faltaram língua viperinas contra os professores e agora que era preciso escutar uma palavra de apreço ou preocupação, reine este doentio pacto de silêncio.

Disse para mim mesmo que não tenho ilusões quanto a uma mudança de mentalidades pois, as poucas vozes que hoje falam dos professores, são apenas para dizer que são uns afortunados por pertencerem à função pública e terem emprego assegurado. Mas sempre foi muito mais fácil odiarem os outros do que assumirem tudo aquilo que os incomoda e a responsabilidade nas falhas parentais que têm na educação dos filhos.
Talvez, por isso, vigore esta paz podre, pois aconteça o que acontecer àqueles que estão a colocar em risco a sua vida para que os filhos dos outros não percam aprendizagens e possam ter um futuro condigno, o que vale e interessa à sociedade, é saber que amanhã o depósito voltará a estar aberto.
A isto se resume o sonho do homem moderno: um carro à porta, um telemóvel na mão, um televisor entupido com novelas e futebol e um armazém a funcionar a tempo inteiro onde possam depositar os filhos e irem levantá-los ao fim do dia, de preferência sem trabalhos de casa, com o banho tomado e de barriga cheia, prontos para irem para a cama.

Carlos Santos

 

 

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13 comentários

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    • Fernando, el peligroso de las verdades. on 18 de Outubro de 2020 at 13:51
    • Responder

    Não, novelas não! Futebol sim!

    • Prof Possível (aka Maria Indignada) on 18 de Outubro de 2020 at 13:58
    • Responder

    Os pais com mais poder económico transferiram os seus filhos para o privado, pois têm mais garantias de que as medidas de segurança lá implementadas sejam eficazes.

    Lá os delegados de saúde não têm a última palavra sobre as medidas a tomar.

    Já há muito que se percebeu que os professores e as suas condições de trabalho são COMPLETAMENTE ignoradas e desprezadas. Por todos.

    Nas escolas públicas vale tudo. Para professores e alunos.

    Mas esta estratégia não tem em linha de conta que implicará necessariamente um disseminação galopante ainda que silenciosa do vírus.

    Por isso todos os protagonistas deste Pacto de Silêncio são uns asnos, que não percebem que esta estratégia resultará inevitavelmente num aumento exponencial dos infetados e da sobrecarga do SNS.

    Aí virão as medidas mais gravosas reativas e tomadas em cima do joelho.

    Bravo Governo, Sindicatos, media e outros. Excelente trabalho, foi o possível, não havia alternativas (sarcasmo profundo).

  1. Cria imunidade de grupo entre os mais jovens.
    Sacrificando professores e funcionários.
    Em especial os mais velhos.
    Perde-se experiência mas com o que se vai poupar em reformas o balanço em termos económicos é positivo.
    Mas devemos louvar os heróis que tombam pelo menos com estátuas e medalhas.

    • Len on 18 de Outubro de 2020 at 14:36
    • Responder

    J és burro ou quê?
    Mas qual imunidade entre os mais novos? Há novos nos cuidados intensivos.
    Os novos vão para casa ao fim do dia infetar mais velhos.
    Mas qual imunidade?

    • Incompreensível on 18 de Outubro de 2020 at 15:25
    • Responder

    Turma inteira vai para casa mas professores continuam com as restantes turmas. Que tal? Está a acontecer…

    • Alecrom on 18 de Outubro de 2020 at 15:29
    • Responder

    Penso que se esqueceu de referir aquelas organizações a que alguns chamam de sindicatos.

    Em Cidadania e Desenvolvimento devemos dar prioridade ao seguinte tema:
    “Censura de esquerda, a mais bela, generosa, altruísta e beatopatriótica autoflagelação ditatorial”.

    Nos termos em que estão a funcionar, as escolas são neste momento o principal e mais produtivo fator de disseminação do vírus.

    • Maria on 18 de Outubro de 2020 at 15:37
    • Responder

    Apoio tudo o que disseram.
    A pandemia está descontrolada porque as escolas estão a funcionar!
    FECHEM AS ESCOLAS!

    • Maria on 18 de Outubro de 2020 at 16:42
    • Responder

    Onde estão os sindicatos quando é preciso denunciar isto?
    Há alunos a infetar os pais que, por sua vez, vão infetar outras pessoas no local de trabalho.
    E a infetar professores!
    É preciso denunciar isto!
    Fechem as escolas!

    • PROFET on 18 de Outubro de 2020 at 17:02
    • Responder

    Muito de acordo com o texto desta publicação. Tendo em consideração os dados e estimativas que tenho colocado aqui no blog, baseados nos números que constam no Boletim da DGS, onde se verifica que as entidades oficiais (cambada de mentirosos) reportam nem sequer 10% dos casos de infeção em crianças e adolescentes registados desde o início do ano letivo, onde se verificam, neste mês, metade do número de casos que se tinham verificado nos anteriores 6 meses desde o início da pandemia. O Sr. Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não era Professor, creio que, de Direito? Ou estou enganado? Devia ser o primeiro a ter consciência do que se está a passar.

    • Alecrom on 18 de Outubro de 2020 at 17:56
    • Responder

    Maria,
    não é necessário, nem devemos fechar as escolas.
    Muita coisa pode e deveria fazer-se. Por exemplo:
    Transparência, clareza e celeridade na informação relativa ao evoluir da disseminação do vírus na nossa escola (salvaguardando a privacidade de cada um);
    Redução de conteúdos programáticos e da carga letiva;
    Desdobramento de turmas no 3.º ciclo e no secundário, nomeadamente das turmas gigantes;
    Essas turmas funcionariam em regime misto, em alternância quinzenal;
    Que não nos tratem com paternalismos, condescendência e como ignorantes.

    • Alecrom on 18 de Outubro de 2020 at 18:01
    • Responder

    Onde estão os ditos testes rápidos da Cruz Vermelha?
    Onde ficou a política do testar, testar, testar?
    A preservação do socialismo justifica tudo?
    Robespierre não faria melhor.

    • Alecrom on 18 de Outubro de 2020 at 18:02
    • Responder

    Para não falar de Lenine, Estaline ou Louçã…

    • Prof Possível (aka Maria Indignada) on 18 de Outubro de 2020 at 18:09
    • Responder

    O meio milhão de testes gratuitos disponibilizados pela Cruz Vermelha, para serem usados em lares e escolas, estão bem acondicionados.

    Não há interesse em usá-los.

    Era inconveniente termos muitos mais infectados identificados nas escolas.

    Devem estar a fazer figas para que a validade dos mesmos expire.

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