Confinamento mínimo, silêncio máximo!
Todos se recordarão das palavras do Presidente da República quando a pandemia começou. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que “tem de haver verdade”, porque “para ser possível ganhar uma guerra, naturalmente, aqueles que estão a lutar nessa guerra têm de saber exatamente qual é a situação em cada momento, no que há de bom e no que há de mau”. Palavras sentidas, tão ao estilo do nosso Presidente e que foram seguidas pelo Governo na fase inicial da pandemia.
De lá para cá muita coisa mudou e o sentimento de confiança que os portugueses nutrem pelos seus líderes tem vindo a cair a olhos vistos. Não é por acaso, a tentativa de convencer os portugueses de que a economia não pode parar, ao mesmo tempo que se tenta incutir regras sanitárias, tem levado a contradições grotescas, como se as pessoas fossem acéfalas e não percebessem que o critério, o rigor e a coerência deixaram de existir. A DGS tem sido especialmente “feliz” nesse campo, dando uma clara sensação de impreparação e desorientação.
Sou professor, logo um conhecedor da área da educação e da realidade das escolas. Lamento informar-vos que tenho constatado que é impossível, nos moldes atuais, evitar uma escalada exponencial do número de infeções nas escolas.
Recordo-me bem do rigor no regresso do 11º e 12º anos às escolas no final do ano letivo transato. Alunos sentados individualmente, poucos alunos por sala e bolhas claramente definidas. Uma fase que serviu para testar procedimentos, tendo vários até migrado para este ano letivo, como os circuitos de circulação e procedimentos de limpeza. Mas há coisas que não batem certo, tais como a não redução do número de alunos por sala, ou a fusão de diferentes “bolhas” ao longo do dia, como é o caso das áreas curriculares de Línguas, Educação Física, etc.
O contágio é e será inevitável, constato isso todos os dias quando vou para a escola, seja quando vejo os alunos à porta sem máscara, a dar beijinhos, seja dentro da escola, onde, por exemplo, já assisti a alunos a beber da garrafa de água dos colegas. É um trabalho inglório, pois falta responsabilidade a crianças e jovens que não levam esta pandemia com o rigor que deveriam levar, por eles e pelos seus familiares.
Por isso defendi no passado, que o regresso às escolas nunca poderia passar por um regime 100% presencial. O sistema misto teria sido o mais adequado e, posteriormente, se os números fossem favoráveis, voltaríamos a um sistema de ensino presencial.
A Educação é o reflexo do discurso político, passámos do “ai, ai, ai, fiquem casa”, para o “é sempre a andar, ninguém para, fé em Deus e depois logo se vê”. Sinto que ter ou não Covid-19, já não depende apenas da prevenção, depende também da sorte… E é terrível sentir isso!
Mas para não considerarem que estou apenas a escrever por escrever, partilho convosco o que tenho recebido no meu espaço virtual nos últimos dias:
- Pode ser que me possa ajudar. Tive hoje conhecimento formal da existência de um caso positivo na escola da minha filha, embora noutra turma do mesmo ano (10º ano). Corria o boato na escola, a minha filha questionou a professora de biologia (que é o focal point de saúde escolar) que lhe confirmou que uma aluna da outra turma estava em casa infetada. A questão é que o resto da turma continua a ter aulas normalmente, sem qualquer isolamento nem comunicação à comunidade escolar. Isto é mesmo assim? Não têm os restantes pais direito a ser informados? Posso decidir que a minha filha não frequenta a escola enquanto não forem implementadas medidas de isolamento da turma em questão?
- Na escola da minha filha houve casos e (apesar de muitos pais serem) eu nunca fui informada nem pelo diretor de turma, nem pela escola e na escola do meu filho também houve, ontem mesmo houve turmas que ficaram em casa por falta de professores que estão em casa em isolamento e até agora ainda não recebi nenhuma informação relativa ao caso!
- A minha filha ontem foi informada pela DT da turma que o Professor de matemática e um aluno de outra turma, estão com Covid-19, mas só metade da turma da minha filha tem aulas com o Professor, mas foi dito aos miúdos e nada mais. Ninguém fica em casa e a vida continua. Palpita-me que isto não fica por aqui, nem pensar…
- Nem covid nem outras coisas, ainda dizem que é sigilo, na turma da minha filha da pré, uma criança teve 38,5 de febre, esteve na sala de isolamento como eles dizem, e depois infetou os restantes. A educadora queria avisar os pais mas a direcção não deixou.
- Na escola da minha filha uma professora foi diagnosticada covid positiva, fui informada uma semana depois. Trabalhando eu com idosos não devia ter sido avisada mais cedo?
- Venho relatar-vos a situação numa das turmas da minha escola: uma aluna tem ambos os pais infetados, estando em isolamento profilático desde que estes apresentaram sintomas. No entanto, a própria aluna acabou por apresentar sintomas um dia depois de se ausentar das aulas. Como ainda não foi testada, os alunos da turma estão a ter aulas normalmente e foi pedido (direção) à diretora de turma que não informasse o CT nem os EE.
Estes são apenas alguns exemplos, mas já li muitos mais, como também já li casos onde tudo está a ser bem feito e também devemos louvar quem está à frente dessas escolas e respetivos delegados de Saúde. Para mim, não restam dúvidas que os procedimentos não estão a ser uniformes e, pior, que existe uma clara tentativa de silenciamento dos casos que surgem nas escolas. Para quê? Para não alarmar? Acham mesmo que ficamos todos mais descansados ao sabermos que a verdade está a ser omitida?
E depois temos la crème de la crème, onde os dados da DGS não batem certo com os dados do principal sindicato dos professores (FENPROF). A DGS fala em duas dezenas de casos e a lista da FENPROF já vai em 198 escolas com casos de Covid-19. Mesmo que exista a diferença entre um caso isolado e um surto, depois de tudo o que leram em cima, a dúvida é legítima sobre se a DGS está efetivamente a falar a verdade, ou se conhece a real dimensão dos contágios?
Os portugueses merecem saber a verdade, merecem ter a certeza de que um boato é um boato, para que este morra rapidamente. Um boato só perde credibilidade quando existe uma informação oficial, credível e regular, algo que infelizmente não parece existir. Estamos a falar de algo demasiado grave para que a dúvida persista, não pode acontecer, mesmo que os anéis se vão, mesmo que a doença surja, há algo que nunca pode desaparecer: a verdade dos factos!




5 comentários
Passar directamente para o formulário dos comentários,
“Lamento informar-vos que tenho constatado que é impossível, nos moldes atuais, evitar uma escalada exponencial do número de infeções nas escolas.”
Totalmente de acordo, como venho a dizer desde que me deparei com as condições de funcionamento das escolas.
Nenhuma destas 8 novas medidas terá algum efeito.
O crescimento continuará a ser exponencial, isto foi só o começo.
Fazer de conta que nas escolas está tudo a decorrer com normalidade recorrendo à lei da rolha e vendendo a retórica de que a culpa deste crescimento é das famílias, não funciona no controle de disseminação do vírus.
As famílias estão e receber os seus filhos vindo das escolas contaminados, e sem sintomas.
Só se analisa a situação quando alguém mais velho da família contaminado pelo jovem/criança, tem sintomas.
Mas continuem a regurgitar a retórica de que a culpa é dos convívios familiares. Que começaram a ocorrer intensamente depois do ano letivo começar. Espetacular coincidência.
Ontem, finalmente, vi uma noticia na televisão , reportando o número de novos casos de infetados em indivíduos com idades compreendidas entre 0 e 19 anos nos últimos 30 dias. Porém, nessa notícia, não confrontaram esses números (que devem ter sido retirados do Boletim da DGS) com os números que a própria diretora da DGS revela. Chama-se a isto, um péssimo trabalho da comunicação social, e até diria, de muita incompetência.
Caro colega, Alexandre Henriques, desde já, congratulo-o esta sua publicação aqui no blog, porque foca de uma forma bastante concreta o fundamental do que se está a passar na realidade… e acrescento, de forma bastante fidedigna, porque vale muito mais a palavra de alguém que vive o seu dia a dia no terreno, que sabe verdadeiramente o que se está a passar e que não compactua com lei da rolha, da mentira e da omissão.
No final, diz e muito bem:
“Um boato só perde credibilidade quando existe uma informação oficial, credível e regular, algo que infelizmente não parece existir.”
Caro colega, lamento informá-lo, será de todo improvável esperar que as entidades oficiais reportem a verdade, já que têm andado a reportar apenas 10% do número de casos de infetados que frequentam os estabelecimentos de ensino. As pessoas responsáveis pelas entidades oficiais terão o seu fim anunciado, quando se sentarem no banco dos réus, quando forem acusadas pela morte de milhares de pessoas, devido à sua negligência. Não me parece que o que estão a fazer seja muito diferente daquilo que se passou durante o holocausto, quando enviavam as pessoas para a câmara de gás.
Quanto a esta sua pergunta:
“… a dúvida é legítima sobre se a DGS está efetivamente a falar a verdade, ou se conhece a real dimensão dos contágios?”
Caro colega, Alexandre Henriques, será esta uma pergunta de retórica? Mas se estiver mesmo com dúvidas, eu ajudo-o a responder a esta questão.
Acha que a DGS não confere os seus próprios dados? Claro que confere. E é por essa razão que um bom advogado poderá colocar facilmente esta “gente” na prisão, quando apurarem responsabilidades, alguém terá que chegar à frente. Porém, e infelizmente, isso não recuperará a saúde e a vida daqueles que sucumbirem. Mas esta “gente”.
Caro colega, Alexandre Henriques, deixo-lhe aqui uma estimativa, que poderá comprovar o que aqui referi, que apenas reportaram 10%, ou nem tanto, do número de novos casos de infeção desde o início do ano letivo. Uma estimativa não é um dado concreto. Contudo, uma disparidade de 90% é deveras elucidativa.
Estimativa de casos de infeção por Covid-19, baseada nos dados oficiais do Boletim da DGS, registados desde o dia 20 de setembro (3 a 6 dias depois do início do ano letivo) até ao dia de ontem, 14 de outubro (em 25 dias):
Indivíduos com idades compreendidas entre (0 e 9 anos):
20 de setembro: 2719 casos
14 de outubro: 3897 casos
Nos últimos 25 dias: 3897 – 2719 = 1178 casos
Indivíduos com idades compreendidas entre (10 e 19 anos):
20 de setembro: 3637 casos
14 de outubro: 5608 casos
Nos últimos 25 dias: 5608 – 3637 = 1971 casos
Indivíduos com idades compreendidas entre (0 e 19 anos):
Nos últimos 25 dias: 1178 + 1971 = 3149 casos
Se retirarmos os indivíduos com idades de (0, 1 e 2 anos) que ainda não frequentam o pré escolar e os indivíduos com idade de (19 anos) que já não se encontram dentro da escolaridade obrigatória e os indivíduos que, eventualmente, poderão estar infetados em contexto de abandono escolar:
(Observação: não esquecendo que uma percentagem significativa de indivíduos com 19 anos ainda frequentam o ensino secundário, e alguns com 18 anos já poderão estar a frequentar o ensino superior, sendo que estas duas situações podem compensar-se e anular-se no cômputo geral desta estimativa)
Sendo 20 os escalões de idades compreendidas entre 0 e 19 anos, podemos aferir uma média de 5% para cada uma destes escalões de idades:
Vamos então retirar os indivíduos com idades de (0, 1 e 2 e 19 anos) (5% x 4 = 20%) e os.
indivíduos em contexto de abandono escolar (5%), ou seja, vamos então retirar 25% do total já calculado:
25% de 3149 = 787 casos
Retirando ao total os 25%:
3149 – 787 = 2362 casos
Estimativa de casos de infeção por Covid-19 em crianças e adolescentes que frequentam as escolas, desde o pré escolar até ao secundário (do ensino público e privado), baseada nos dados oficiais do Boletim da DGS, registados desde o dia 20 de setembro (3 a 6 dias depois do início do ano letivo) até ao dia de ontem, 14 de outubro (em 25 dias):
2362 novos casos
Estimativa de casos de infeção por Covid-19 em professores e funcionários que trabalham nas escolas, desde o pré escolar até ao secundário (do ensino público e privado): Sem dados precisos para fazer uma estimativa, mas devem ser umas poucas centenas, numa perspetiva bastante otimista. Isto porque, neste momento, em Portugal, 1 em cada 300 pessoas estão infetadas com Covid-19, basta dividir o número total de professores e funcionários por 300. Contudo, relembro que ,neste caso, trata-se de uma estimativa sem dados precisos.
Só para concluir, nem sequer será preciso somar a estimativa de casos em professores e funcionários, para constatar que:
Os 2362 novos casos em crianças e adolescentes nos últimos 25 dias é 10 vezes superior ao reportado pela DGS, o qual engloba também professores e funcionários.
Repito: Uma estimativa não é um dado concreto. Contudo, uma disparidade de 90% é deveras elucidativa…
Já para não falar dos assintomáticos que não são testados, que, muito provavelmente, serão muitos mais do que os que se encontram nesta estimativa.
Face a estes dados, ainda tem dúvidas acerca da falsidade das entidades oficiais, nomeadamente, da DGS?
Movimento STAYAWAY COSTA: Pelo urgente encerramento das escolas e regresso ao E@D.
Uma amostra do socialismo em ação.
Só depois de sangrarmos muito, muito, muito conseguiremos ultrapassar os preconceitos e o faz de conta típico da dita esquerda.
O socialismo construído à custa do grande capital financeiro internacional, lol.
Estimativa, desde o início da pandemia, até ao início do ano letivo (de 3 de março a 19 de setembro) em crianças e adolescentes que frequentam a escola:
2699 + 3576 = 6275
6275 – 25 % = 4706 casos em 201 dias
Estimativa, desde o início do ano letivo (de 20 de setembro a 14 de outubro) em crianças e adolescentes que frequentam a escola:
1178 + 1971 = 3149
3149 – 25% = 2362 casos em 25 dias
Em 25 dias de ano letivo verifica-se metade dos casos que se tinham registado em 201 dias. em indivíduos que frequentam as escolas desde o pré escolar ao secundário.
Como é que em 25 dias se conseguem infetar metade do número de indivíduos de que se infetaram em 201 dias?
Foi nas escolas que se infetaram, porque estes 25 dias são os dias de ensino presencial em que o governo promoveu a proximidade social na maior comunidade em Portugal, a educativa. Os surtos estão a funcionar nos dois sentidos, de dentro para fora e de fora para dentro. Não são as confraternizações em família que fizeram isto. É uma vergonha quererem enganar a população com tamanha mentira, dizer isto até roça o hediondo.
Sr. Presidente da República, Sr. Professor Marcelo Rebelo de Sousa, não feche os olhos a esta tremenda irresponsabilidade e negligência do governo. Trata-se da saúde e da vida das pessoas. Muitos mais irão ficar infetados e muitos mais irão sucumbir se não encerrarem já as escolas.