A escola aos retalhos, uma nova realidade que a pandemia nos trouxe…

 

Escola em tempos de pandemia é como um puzzle que pode perder uma peça a qualquer momento

À primeira vista, a escola parece viver um dia como tantos outros, antes da pandemia. O porteiro no seu posto, a telefonista atrás do balcão, alunos, professores e auxiliares nos corredores e nas salas de aula.
Mas o que parece não é. A escola Secundária Gonçalves Zarco, em Matosinhos, como tantas outras, está desfalcada. A Covid-19 já levou e trouxe parte da comunidade escolar, que foi obrigada a recolher-se em casa. As aulas decorrem como é possível.

No fundo de uma sala, com chão de madeira, uma parede forrada a espelho e pequenas janelas abertas, o professor Manuel Romão está junto dos alunos, mas não está próximo.

Pousou a mochila está no chão, colocou o tablet em cima da secretária e, sozinho, fala para a frente do monitor.

Do outro lado estão os alunos de uma turma que está em quarentena, há quatro dias, depois de uma aluna testar positivo à Covid-19. Mas o longe nem sempre se faz perto, porque há barreiras intransponíveis.

“O contacto direto com os alunos é sempre melhor. E nem todos têm as melhores condições, alguns assistem à aula no telemóvel”.

José Ramos conduz a visita pela escola que conhece como ninguém. É diretor há 26 anos. Nunca viu, nem imaginou ver o que está à vista: “Foi um mês muito complicado, de muita adaptação e de muitos receios. Felizmente não temos muitos alunos e professores infetados”.

A escola Gonçalves Zarco, em Matosinhos, registou, no primeiro mês de aulas, três alunos infetados pelo novo coronavírus. Professores ainda não houve nenhum, mas já foi necessário o recolhimento de alguns, por contacto com casos positivos. A substituição tem sido tranquila, porque “os professores que dão destacados para dar aulas nas cadeias ainda não têm autorização para isso, por isso ficam aqui a colmatar falhas”.

Mil e trezentos alunos em horário diurno, trezentos em horário noturno, 180 professores e trinta e cinco auxiliares, são estes os números de quem todos os dias percorre os corredores desta escola.
A manhã vai correndo sem sobressaltos. No primeiro andar, os docentes trocam impressões na sala que é deles.

Teresa Ramalheira chega, pousa a carteira, tira a máscara e vai para a varanda. Professora de português, tem um aluno do 12º ano em casa, com quem faz a ponte através de um computador: “Estamos ligados e eu vou dando a aula e ele vai assistindo, porém não lhe posso fazer perguntas, porque ele não tem como responder, não conseguimos escutá-lo.”

Durante a primeira fase da pandemia, a escola emprestou duzentos e cinquenta computadores, que agora são necessários para o dia-a-dia. O direto, José Ramos, tem alguns para emprestar a alunos e professores: “Neste momento temos um emprestado a uma professora que está de quarentena. Neste caso, os alunos estão na sala de aula e ela está em casa e dá a aula online no respetivo horário”.

O dia de Cristina Reis ainda agora começou e já teve trabalho extra. Na véspera soube que terá menos um aluno na sala, por causa da Covid-19: “Estive agora mesmo a avisar os professores que ele não está e a preparar material”.

A turma passou a ser um puzzle, que pode perder uma peça a qualquer momento, “é mais trabalhoso, mais complicado ter alunos em casa e alunos na sala de aula. Se forem muitos, em simultâneo, teremos de rever a estratégia”.

Dentro da escola, as regras de segurança têm sido respeitadas. Fora não é bem assim. Os professores queixam-se que os alunos não usam máscara e não se distanciam como deviam, arriscando gestos que podem custar uma quarentena forçada.

Entretanto, o professor Manuel Romão é interrompido. Não é uma questão. É uma notícia.
Uma aluna acaba de receber o resultado do teste à Covid-19, “deu negativo”, escuta o professor, ao que responde, “ainda bem, ficamos todos muito contentes!”

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