Regresso à Escola, qual?
Não tenho simpatia por discursos anti-sindicais contra professores, ou contra seja quem for, soa-me sempre a um certo perfume de elitismo e ditadura. A resistência, cheia de acertos e muitos erros, é sempre pouco apreciada pelo poder em geral. E tenho muito respeito pelos docentes, que trabalham em péssimas condições. O que (ainda) existe de bom nas escolas deve-se sobretudo a eles. Mas a sinceridade exige a crítica, construtiva porque a escola e os docentes são centrais à sociedade.
Vejo agora uma determinação dos sindicatos com greves e protestos a regressar às escolas que nunca vi contra o ensino online que colocou em causa a saúde mental (e física) de centenas de milhares de crianças e jovens. Foi uma fraude, que levou ao sofrimento ético (sensação de fazer parte de uma mentira), hoje reconhecida até pelas mais liberais instituições, como a OCDE. Falhou em toda a linha. Estou em crer que a razão dos docentes é sobretudo uma – há milhares de professores em burnout que se sentiram menos mal em casa, com o ensino online, do que nas escolas, onde estavam sujeitos a condições adversas de trabalho, que os levam ao burnout. O risco do vírus- muito baixo, mas existente -, é na verdade usado para ocultar outro risco, alto e existente em todas as escolas – o mal estar laboral. O medo do vírus é muito mais longínquo do que o medo da burocracia, relatórios esquizofrénicos, avaliação e assédio, aulas inúteis, programas desinteressantes, indisciplina, directores.
Os professores não estão, na minha opinião, só nem sobretudo com medo do vírus. Estão com medo da escola. E isso não é novo – já tinham, na sua maioria, quase 80% declarava estar em exaustão emocional no trabalho quando conduzimos o estudo do brunout. E a verdade é que os sindicatos em geral lutaram muito mais contra o ensino presencial do que, de facto e com sucesso, contra as condições reais e diárias das escolas, que estavam muito mal, e adoeciam os professores, muito antes da pandemia.
Ora, só por pensamento mágico podem pensar que a recusa em voltar às escolas os retira do burnout. Na verdade todas as formas de teletrabalho não transformam o nosso trabalho na nossa casa confortável. É precisamente o contrário – a curto prazo a casa confortável será transformada no inferno do trabalho. Não é a casa que vai ao trabalho, é o trabalho que vai para casa.
Pensar que o retorno à esfera privada (casa) resolve os problemas da esfera pública (trabalho e sociedade em geral) é um crença, que durará – não creio – mais do que poucos meses a ruir. Como tantas outras.




13 comentários
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“O medo do vírus é muito mais longínquo do que o medo da burocracia, relatórios esquizofrénicos, avaliação e assédio, aulas inúteis, programas desinteressantes, indisciplina, directores.”
Perfeito. No caso dos diretores, são a talidomida das escolas…
Os diretores são agentes tóxicos, São piores que a talidomida, são mais do grupo novichok.
A Raquel Varela devia durante um mês dar aulas em salas que eu conheço.
Depois começava a opinar.
Estar em gabinetes no ensino superior é muito lindo. Estar numa sala velha sem ventilação tudo uns em cima dos outros já não é muito lindo.
É só teóricos da erda.
Sim, Raquel é isso tudo o que escreveu. Mas falta qualquer coisa no modo como vê a questão.
Para além das condições laborais existentes, junta-se agora isso tudo em contexto de vírus .
A preocupação é, como aguentar 90m a seguir a 90m, ou seja o que fôr, com máscaras e as salas com 28 a 30 alunos.
Como já foi mencionado, um bom investigador integra-se na situação e analisa in loco.
Só assim, depois de estar 1 trimestre ou 1 ano inteiro numa escola, confiarei no que escreve no conforto da sua sala.
E precisamente isso Raquel…o medo da escola..que ainda vai ficar mais assustadora com a exigência de regras que não servirão para grande coisa se temos as salas cheias de alunos,se não houver intervalos para podermos respirar ar puro…enfim…
E obsessão da burocracia que tende a crescer…uff!!
E precisamente isso Raquel…o medo da escola..que ainda vai ficar mais assustadora com a exigência de regras que não servirão para grande coisa se temos as salas cheias de alunos,se não houver intervalos para podermos respirar ar puro…enfim…
E a obsessão da burocracia que tende a crescer…uff!!
Lá está a sua iliteracia com a informática a manifestar-se!
O meu filho mais novo sofre horrivelmente com as alergias (o rapaz é alérgico a tudo e um par de botas), o que acarreta, no outono e primavera em especial, problemas respiratórios. É verdade que, no final do ano passado, nada aprendeu. No entanto, todos os professores cumpriram os programas das disciplinas e essa foi a sua preocupação. Aprendizagem? Os alunos que se desenrasquem. ‘Bota lá explicações em cima do fogo! Porém, o que me deixa verdadeiramente ansioso é tê-lo numa sala com mais 20 e muitos colegas, de janelas hermeticamente fechadas (para não congelar no inverno), encostado ao colega de carteira, todos amontoados porque as salas são à justa…
Entre a reprovação ou as falhas de aprendizagem e a saúde e o bem-estar dele, opto pela segunda via. E isto não é defender o não regresso às aulas, pelo contrário, mas ser confrontado com um amadorismo e um «vamos ver no que dá» que este governo vai implementar nas nossas escolas.
É só para o avisar que se enganou na Matilde… 🙂 🙂 🙂
A Matilde a quem atirou com isto: “Lá está a sua iliteracia com a informática a manifestar-se!” não deve estar a perceber nada do seu comentário e com toda a razão…
Veja lá que eu até o aviso disso, quem é “amiguinha”, quem é?
Lá diz o Povo e com verdade: “Há mais Marias na terra…”
Roberto Paulo, para a próxima, certifique-se a que Matilde se está a dirigir, mas quando se tratar da minha pessoa, e por muito tentador que seja responder-me, não vale a pena incomodar-se e apoquentar-se tanto com tudo o que eu escrevo: “Deslargue”, seja forte e consiga ignorar todos os meus comentários… Vai ver que, afinal, não custa nada… 🙂
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Chamam “ESCOLA” a um espaço que, hoje, não é mais do que um “hospício”, uma “Cantina Social”, um Albergue”. Não, a “escola” hoje não é uma “escola”……o significado de “escola” é o de um espaço onde existe ensino e aprendizagem de um conjunto de conteudos considerados socialmente relevantes.
Hoje a “escola” é um espaço que serve para “dar de comer a quem tem fome” (ou seja, uma Cantina Social), isto é, para dar de comer aos filhos dos casais que auferem o “Rendimento Minimo”, ou aos 25% de Trabalhadores por conta de outrem que auferem o Salario Minimo Nacional (sim, são cerca 25% ) 565,15 Euros/Mês, ou os filhos que não tem pais…..
Hoje aquilo a que chamam “escola” é um espaço para dar apoio a jvens desequilibrados psicologicamente…..
Hoje aquilo a que chamam “escola” é um espaço que funciona como “armazem” onde se colocam as crianças para que os apais alimentem as fábricas com o seu trabalho proletario…..
As “escolas” são hoje uma especie de sucursal de um manicomio em que um professor é colocado como “diretor” a enfernizar a vida dos supostos colegas “professores” com reuniões+reuniões+papeis+relatorios+atas+…….
Tudo isto é um NOJO!…..
A abrilada tem destas coisas…..a escola é hoje um lugar de apoio social a uma sociedade em empobrecimento e degradação….é isto Portugal, onde um pseudo-xuxalismo vigora.
Claro que face a esta realidade os professores mais conscientes só pensam é em fugir de um Lugar Mal Frequentado chamado de “Escola Pública”……
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Nem mais doutora Raquel Varela.
Obrigado e parabéns pelo seu texto.
No longínquo ano de 1993, a professora Maria Helena Cavaco escreveu isto numa tese de Mestrado sobre mal-estar docente (Ser Professor em Portugal):
“à desvalorização social do estatuto do professor, associa-se, nas escolas, o restringir do poder de decisão e o progressivo agravamento das condições de trabalho; por outro lado, a incompreensão generalizada quanto às dificuldades da sua função, e o alheamento do poder em relação às necessidades do ensino, ajusta-se mal à crescente exigência social, quanto à qualidade e à competência na sua profissão”.
E mais acrescenta: “A sua voz (a dos professores) não se ouve. O que os caracteriza é o silêncio.”
Passados 27 anos, o que mudou?
Desculpem a ousadia, mas alguma coisa tem que ser feita pelos sindicatos que representam os professores e pelos próprios professores… Se nada for feito, daqui a outros 27 anos afirmar-se-á, provavelmente o mesmo ou pior…
“Just saying…”
Desprezar um vírus que tanto impacto tem causado no mundo inteiro, pode não fazer muito sentido, E ficar à espera que nos bata à porta para alcançarmos, também poderá não ser muito razoável.
Quanto ao trabalho tem toda a razão. Estes ministros do PS têm um sentido de humor que é qualquer coisa. Nem no ensino à distância conseguiram poupara um bocadinho os professores, pelo contrário – toca a encher os madraços de trabalho, mesmo que não sirva pra nada!
Este ano letivo vai continuar tudo na mesma, i.e, cada vez pior! Os socialistas estão-se a cagg+++ para a saúde dos professores, seja covids, seja burnouts.
Entre um e outro, também não sei … Preferia não ter de escolher nenhum!
Sou só eu que, a partir deste Post, não consegue ver nenhum comentário? Consigo ver o número de comentários em cada post, mas não consigo ler nenhum deles…