O programa é quadrado e os professores quadrados como ele…

 

Os programas continuam imutáveis há anos, continua-se a ensinar o que se ensinava há 30 anos e, como se ensinava há tantos anos, fala-se do olho de Camões, daquele que nunca regressou, de equações que de nada nos servirão, pois nunca mais servirão um qualquer objetivo e estudam-se as flores em vez de se ensinar a adorar a sua beleza.

Continua-se, taxativamente, a seguir o manual que nos impingiram de como era e devia de ser a educação neste retângulo que, agora, também pode ser um quadrado.

Fala-se de flexibilidade, é a moda do agora, mas ninguém entende onde flexibilizar, nem está disponível a flexibilizar por flexibilizar. O programa não é flexível, é obrigatório, tem de se cumprir, daquela forma que há tantos anos nos disseram que era para cumprir, todo.

O programa não muda, continua extenso, não tem em conta os interesses de a quem é transmitido. Sim, transmitido. Não é ensinado. Ninguém está disposto a aprender algo com o qual não se identifica, em que não se revê, que não entende para que lhe servirá.

Fala-se, agora, muito em espirito critico. Por muito que se fale disso, isso não se ensina, adquire-se através da experiência. E é experiência que um futuro programa deverá ter em conta. Qual flexibilização que ninguém quer aplicar e de que todos têm medo…

A fábrica de torneiras que, hoje e ontem, a escola foi e é, tem, um dia, de se tornar num campo de pasto onde as ovelhas deixem de ter a coloração branco sujo e passem a ser ovelhas negras, todas elas livres de abandonar o rebanho quando e como quiserem.

E para quem o definir, para quem o impingir, o tal programa flexível, ou, antes, livre, fica a inspiração que há tantos anos me levou por aí…

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Cântico negro, José Régio

 

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19 comentários

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    • Matilde on 20 de Setembro de 2020 at 11:02
    • Responder

    Esses, e outros, são os paradoxos que fazem da Escola actual uma insanável teia de contradições…

    Qual flexibilização? Qual espírito crítico? Aquilo que se apregoa é exactamente o contrário daquilo que na prática se exige…

    Vive-se na Escola numa espécie de histeria colectiva, quase à laia de uma comédia como “Birdcage”, onde, amiúde, se finge ser aquilo que não se é e se encarnam personagens de acordo com os interesses envolvidos…

    (O que ainda nos vale é ter José Régio ou Fernando Pessoa…) 🙂

    • Maria on 20 de Setembro de 2020 at 11:32
    • Responder

    Pois, mas, no final do ano, não vais citar José Régio nem Pessoa quando a tua Coordenadora de Grupo te perguntar se cumpriste toda a planificação. É por estas e por outras que eu estou desejosa que chegue o final de 2021. Nessa altura, se estiver viva, já poderei pedir a reforma!

    • Francesc Ferrer Y Guárdia Um Bocadinho Manco on 20 de Setembro de 2020 at 11:46
    • Responder

    ”Ninguém está disposto a aprender algo com o qual não se identifica, em que não se revê, que não entende para que lhe servirá.” Claro, claro… É a tese pós-moderna de que todos nascemos uma espécie de pequeninos génios e temos o privilégio da recusa e do caminho da ignorância… Tudo é ligeiro e bom e as instituições , malévolas, estragam… O conhecimento brota das árvores e é tudo escolas livres e campos de morangos prosperam , sempre a escolher, sempre a inchar, sempre a egoistar no facebook, ou noutra tralha de ignorância global…
    Quando vejo certas teorias da treta sobre o conhecimento, e as balelas de uma liberdade sem raciocínio e duro e custoso estudo, releio o Eclesiastes e vem-me sempre à memoria uma frase do ”velho” Torga, muito esquecido e amado por mim, ”Envelhecer não é para covardes.E, morrer, muito menos.” No fundo está aqui tudo e Caronte não dá recompensas…

    • Dora on 20 de Setembro de 2020 at 12:29
    • Responder

    A escola , mais do que nunca, é uma “insanável teia de contradições”, como referiu a Matilde.
    Quero pensar que desta teia de contradições que também é o mundo global de hoje, algo possa surgir de novo, algo mais inteligente e útil para todos.

    Muitos programas são longos e já fora de algum prazo? Talvez. Alterem-nos para melhor. Enquanto isso não é feito, há , felizmente, muitos professores que partem deles e os complementam com informações e conhecimentos mais actualizados. Não serão todos, que os seguem religiosamente, mas são muitos.

    Cair, porém, na visão do texto creio ser de uma grande ingenuidade e , por isso, perigosa, como referiu o Francesc Ferrer no comentário anterior. O ser-se “livre”, “as flores” e mais este zen são uma grande armadilha.

    Fico-me por aqui: “estudam-se as flores em vez de se ensinar a adorar a sua beleza”.

    Então, seguindo o exemplo, não é fundamental estudar-se toda a fauna e flora do planeta? Não é esse estudo e conhecimento que pode ajudar na preservação de toda a vida no planeta ? O ser humano não está, mais do que alguma vez esteve, dependente deste conhecimento?

    Ao reler o texto, a ideia com que se fica é esta: o conhecimento a quem o pode ter e a adoração das flores para a maioria dos outros.

    Ora bolas!

    • Ana on 20 de Setembro de 2020 at 12:52
    • Responder

    Eu acho que os médicos deveriam estudar a adoração e beleza dos corpos e não o seu funcionamento.

    • Alecrom on 20 de Setembro de 2020 at 12:54
    • Responder

    A esse teu/vosso apelo para seguirmos indecifráveis caminhos de um, tão enigmático quanto escondido, amanhã que canta, respondo:

    “Só vou por onde
    Me levam meus próprios passos…
    Se ao que busco saber nenhum de vós responde
    Por que me repetis: “vem por aqui!”?

    Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
    Redemoinhar aos ventos,
    Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
    A ir por aí…

    Substituiria o “vem por aqui” por “vão por ali”.

    • Felipe Aristimuño on 20 de Setembro de 2020 at 12:55
    • Responder

    O texto é brilhante. Os programas, entretanto, não são para serem cumpridos à risca, mas devem servir como referência, adaptáveis conforme o contexto. O professor e a escola têm sempre autonomia de explorar os currículos de forma adequada aos seus alunos e ao mundo atual. É um erro achar que devemos cumprir tudo o que lá está.

    • Libertário on 20 de Setembro de 2020 at 13:43
    • Responder

    A maior parte dos comentários aqui escritos tiveram em conta uma descodificação do código de escrita português, sem uma interpretação além da taxatividade das palavaras. O texto é aberto, dee ser interpretado à luz do iluminismo e não dos iluminados. Mas a perguiça e a escravidão dos normativos levam a uma sincronia crítica de tudo que os tira da zona de conforto.
    Sejam mais do que aquilo que querem que sejam.

    • Jn on 20 de Setembro de 2020 at 13:51
    • Responder

    Pragmatismo.
    Aprender a fazer.
    Compreender
    As vezes!
    Aprender por Aprender.
    Abre a mente para muitas e novas aprendizagens.
    Quem será alguém.
    Para afirmar
    Na sua arrogância.
    Que solução.
    Que não houve nos últimos cem anos

    • Fernando, el peligroso de las verdades. on 20 de Setembro de 2020 at 14:14
    • Responder

    Muito bons comentários.
    Ao fim e ao cabo, ninguém flexibiliza nada. O João Costa, secretário, está a ser comido de cebolada com esta palhaçada da flexibilização.

    • Alecrom on 20 de Setembro de 2020 at 14:20
    • Responder

    Libertário,
    essa do tirar “da zona de conforto”
    lembra imenso…
    Quem?
    Lol

    • Dora on 20 de Setembro de 2020 at 14:51
    • Responder

    Ao Libertário,

    O artigo de opinião acima é um texto “aberto”? Onde?
    Não estará a confundir com o belo poema de José Régio?

    • Matilde on 20 de Setembro de 2020 at 15:17
    • Responder

    “Pois, mas, no final do ano, não vais citar José Régio nem Pessoa quando a tua Coordenadora de Grupo te perguntar se cumpriste toda a planificação.”

    E como pode a Maria ter tanta certeza disso? Olhe que há “malucos” para tudo… 🙂

    E aquilo que pode parecer uma insanidade para alguns pode muito bem ser a melhor das soluções para outros… Mas talvez seja melhor não irmos por aí, entraríamos numa discussão infindável que não me apetece ter… Tenho o almoço de amanhã para fazer… 🙂

    • Alecrom on 20 de Setembro de 2020 at 15:29
    • Responder

    Não é um texto aberto.
    É um texto ofensivo.

    Não, não somos quadrados.

    • Rui Filipe on 20 de Setembro de 2020 at 15:39
    • Responder

    Eu quando posso, não vou pelo lado dos marretas. Vou pelo outro lado, contrário.
    Quando tenho de ir pelo lado dos marretas, finjo que vou com eles. Mas logo que posso, desapareço ao voltar na primeira esquina.

    • Francesc Ferrer Y Guárdia Um Bocadinho Manco on 20 de Setembro de 2020 at 16:13
    • Responder

    Obrigado, Libertário… Que o seu nome não bata com a sua prosa.. É ignorância ? Explique-me , parece versado, como devo interpretar o texto, à claridade do Iluminismo? É que necessito de me libertar dos grilhões dos normativos e da escravatura da sebenta… Admito, sem jactancia, ter laborado na História das Ideias e nunca se me se assolapou a interpretação de prosa por tal via… Dê-me uma ajuda… como o outro, ”ao ombro dos gigantes”. Obrigado!

    • Libertário on 20 de Setembro de 2020 at 19:49
    • Responder

    “Não me faças caso. Sou de outro planeta. Todavia vejo horizontes onde tu vês fronteiras,”

    • Francesc Ferrer Y Guárdia Um Bocadinho Manco on 20 de Setembro de 2020 at 20:10
    • Responder

    ”A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.”

    • Pirilau on 20 de Setembro de 2020 at 21:59
    • Responder

    Digam ao escriba que a tal escola que, na sua pena, não muda há décadas, foi a mesma que lhe ensinou o aeiou e a gramatica mas não lhe ensinou muito mais porque ele não quis esforçar – se para aprender. Gostava mais de adorar flores e uma santa chamada ignorância. E foi esta santa que lhe soprou ao ouvido a inutilidade das equações (sem as quais nem Internet haveria…).
    Digam ao escriba que uma casa não se faz adorando um desenho naif da mesma. É preciso alguém fazer um projeto, é preciso terraplanar, é preciso carregar areia, cimento, pedra ou tijolo, é preciso colocar as mãos na massa, é preciso fazer calos, enfim, é preciso esforço. Nada se consegue sem esforço e muito menos se aprende sem esforço.
    Digam também ao escriba que não basta citar akguem que, por acaso, aprendeu nessa velha escola bafienta e inútil, para que os seus escritos valham mais do que meio tostão furado.
    É que citar não custa nada, como mostro de seguida: parafraseando uma passagem de “A Palavra Mágica”, de Virgílio Ferreira, quadrado será o escriba.

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