A meteorologia ébria das coisas
À minha frente um aglomerado de olhos pestanejando, entre o entusiasmado e o ansioso.
Vou gritando cada nome, porque a minha própria voz se torna impercetível no tecido.
Os óculos embaciam-se na chamada, mas tento não perder de vista as setas no chão.
A meteorologia no exterior não facilita, mas é melhor do que a da sala de aula. O ar pesa com 28 bocas a soprar abafadas, os procedimentos rigorosos, o cheiro a álcool e desinfetante nas mesas, as janelas semi cerradas para não deixar entrar a chuva, a porta escancarada para a corrente de ar assegurar a circulação livre de partículas aéreas que os corpos não permitem, a distribuição de cartões, códigos, mais máscaras.
Há uma irrefutável sensação de medo e tristeza, não nego.
A escola continua igual, mas todos nós mudámos e, por isso, isto já não é uma escola. Isto é um armazém de pessoas. O sorriso não se propaga abafado pelas máscaras, o vírus inibe o toque.
Sei que a fisionomia despersonalizada vai impor um custo a todos nós.
Não é apenas a doença a rondar, não é somente o medo, é a desproporção de todas estas coisas que se agigantam dentro de cada um: a falta de tempo para preparar o regresso porque urge impor uma normalidade impossível, a falta de recursos tecnológicos para criar oportunidades iguais para os que são diferentes, os minutos precisos que são 5 para respirar entre o agrilhoar do assento e da teoria, a limpeza rigorosa impossível porque faltam mãos, o incomportável peso do horário irrespirável, o inconcebível número de alunos e tamanho das turmas, a descrença, o cansaço de todo este sistema cada vez mais pesado para nós, professores.
Não, não vai ficar tudo bem. Sejamos realistas, a verdade é esta. Não vai ficar tudo bem. Vamos ter despedidas, sofrimento, luto. Vamos sofrer o inferno na terra até descobrirmos a ínfima luz ao fundo do túnel.
Contudo, somos nós que estamos na linha da frente, assegurando que o mundo prossegue para as nossas crianças e jovens. E é deles a infância e adolescência truncadas nos seus direitos tik tok.
Cabe-nos a nós erguer a candeia aos seus olhos, mostrar que existe um caminho. Assegurar a nossa própria resiliência, a nossa capacidade de encontrar respostas, a nossa criatividade profissional. Questionar e ensinar a questionar. Semear a esperança.
A esperança.
Saibamos nós, professores, gentilmente presenteados com máscaras de nível 3, também aprender a morrer de pé.




5 comentários
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Sim, não vejo como este armazém de mascarados inseridos num pseudo-confinamento em bolhas poderá ser benéfico para as crianças. O ensino presencial nestes moldes é de muito má qualidade… só mesmo os profissionais de psicologia comprados pelo governo é que poderão dizer o contrário.
Quando começarmos a cair que nem tordos… já será tarde demais… e o país vai pagar bem caro… quanto aos governantes… esses irão ficar, mais uma vez, impunes.
Morrer de pé é com as árvores.
Prefiro viver firme e hirto.
E é este o “coiso presencial”, pois de ensino não tem nada.
Ninguém tem que “aprender a morrer de pé”…
Se a expressão “morrer de pé” foi aplicada pela autora do texto no sentido de aprender a morrer de forma corajosa e digna, então vale mais aplicá-la no sentido de “aprender a VIVER de pé” e aí sim são necessárias a coragem e a dignidade, implícitas nessa expressão…
Até porque se existir coragem e dignidade talvez se evite a morte… Mas para isso, talvez seja preciso que se consiga não aceitar com resignação, como uma espécie de fatalidade inevitável, tudo o que é imposto por outros…
E, sinceramente, interessa-me lá que “os sinos dobrem” por mim… O importante é evitar que eles dobrem por alguém… A morte nunca é corajosa…
Que salada de pinderiquices, credo!