E agora ME?

Parece que finalmente o Ministério da Educação abandonou a postura negacionista face à óbvia falta de professores. Foi necessário encomendar um estudo à NOVA SBE, para se constatar aquilo que vem sendo anunciado por aqui, há pelo menos, 3 anos. Acho ridículo, com a quantidade de dados que existem sobre questões demográficas altamente previsíveis, que só agora se “descubra” o problema.

No entanto, analisando os horários que vão saindo, percebe-se que há outras “nuances” que agravam o panorama e que não foi alvo do estudo apresentado: não é só a falta de professores que está em causa… é a inexistência de professores para horários incompletos e temporários. Este é também um padrão que vem sendo amplamente referido: alguns grupos (poucos) ainda têm professores disponíveis para preencher esses horários, mas apenas se forem completos e anuais.

Na tabela abaixo são apresentados os horários disponíveis para os contratados ao longo das reservas de recrutamento (RR’S) no QZP 7.

A inexistência de horários para alguns grupos durante as RR’s, não significa que a necessidade não exista, porque depois os horários acabam por ser disponibilizados para Contratação de Escola. Significa, isso sim, que não houve candidatos disponíveis para os preencher.
Nas colunas a amarelo estão os grupos onde ainda existem candidatos para horários completos (como acontece com alguns grupos do 2.º ciclo, na RR12), enquanto a vermelho, esses candidatos já serão residuais ou inexistentes (praticamente todos os grupos do 3.º ciclo e secundário).

Outro dado interessante a analisar na última coluna é a proporção de horários disponibilizados para Contratação de Escola em comparação com aqueles que vão saindo nas Reservas de Recrutamento: nalguns grupos, a quantidade de horários para Contratação de Escola é dez vezes superior àqueles que saíram nas reservas de recrutamento.

E agora ME?

As medidas apresentadas pelo ME para fazer face a este drama, vão no sentido de rever os mecanismos de profissionalização, escancarando as portas do ensino e não acrescentando absolutamente nada que possa tornar a profissão mais atrativa para quem já se encontra no sistema: e falo de contratados e professores do quadro.

Sejamos claros. Tornar a profissão mais atrativa significa:

  • Aumento de ordenados. Os ordenados dos professores aproximam-se assustadoramente do ordenado mínimo. No início da carreira, com renda de casa e deslocações, o professor paga para trabalhar;
  • Integrar quem está na escola pública há mais de 10 e 15 anos. São necessidades do sistema e acabarão por sair se surgir uma alternativa melhor (o que não é difícil);
  • Acabar com as vagas de acesso ao 5º e 7º escalões. Elas não melhoram a qualidade do ensino, não representam uma significativa poupança e deterioram muito o ambiente escolar.
  • Diminuir a idade da reforma. Professores desgastados, desmotivados e muitas vezes doentes, representam apenas mais baixa médicas. Uma baixa médica significa, na melhor das hipóteses, pagar a 2 professores e na pior… alunos sem aulas.
  • Melhorar as condições dos professores nos horários temporários. Prolongar, até 31 de agosto, o contrato dos professores que asseguram as aulas até ao final de maio parece-me de elementar justiça.
  • Melhorar as condições dos professores que ocupam horários incompletos. Uma das melhorias seria eliminar a vergonhosa contagem realizada para a Segurança Social.

O problema não é apenas desta equipa ministerial, porque a anterior foi ainda pior, mas anunciar que se quer tornar a carreira mais atrativa implica melhorar as condições de quem já está no sistema ou então será apenas demagogia que fragilizará a democracia e reforçará os extremismos. 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2021/11/e-agora-me/

6 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Pedro Silva on 21 de Novembro de 2021 at 16:37
    • Responder

    A questão que faço é:
    – Era preciso gastar o dinheiro dos contribuintes para encomendar um estudo desta matéria? Qual é a dificuldade de perceber que o resultado do estudo seria este? Para quê tanta gente no ME, se ninguém consegue chegar a esta conclusão?

    Podem criar task force, podem inventar estágios, podem contratar (ou tentar) professores com HP ou técnicos. A verdade é que este problema só se resolve com aumentos salariais e revisão da situação de descontos para a SS.
    Mas quem é o nabo que ganha 1150€ se pode ganhar 2000€ numa empresa a trabalhar na área de informática ou de línguas?
    Hoje em dia qualquer empresa paga isso ou pouco menos a um funcionário sem licenciatura….
    Há muitos profissionais do 110 e 100? Para já sim….pois com estas habilitações não é fácil arranjar trabalho noutra área (mas mesmo assim há muitos desistir).

    Já estou a ver o filme. Agora vão encomendar um estudo do impacto dos horários incompletos na questão da SS….
    Qual a dificuldade em perceber que ninguém quer horários incompletos por causa dos descontos?

    A verdade é está: o problema são os salários!!!!! Daqui a pouco mais de mês, o salário mínimo estará ainda mais próximo do salário de um professor ou enfermeiro….705€….daqui a nada passa pelos mil e anda sempre…. aí sim teremos aumentos salariais (acompanhando o salário mínimo).

    • Comentador on 21 de Novembro de 2021 at 16:48
    • Responder

    Penso que uma das soluções em estudo no ME passa pela contratação de professores brasileiros. Assim tem sido feito noutras áreas profissionais, com relativo sucesso. Veja-se o caso dos camionistas.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/06/deficit-de-caminhoneiros-leva-portugal-a-contratar-2000-motoristas-brasileiros.shtml

    • Ana Andrade on 21 de Novembro de 2021 at 17:11
    • Responder

    Para além dessas propostas… Seria também necessário diminuir o tamanho dos Qzp´s, existirem ajudas de custo (deslocações, alojamento e internet), colocar os professores contratados nos dias em que saem as listas. Tem alguma lógica as listas saírem às 6as e o tempo de serviço e remuneração começarem na 3a seguinte?! Dar prioridade regional para que, por exemplo, gente do Porto não tire o lugar aos de Braga e vice-versa. Professores (contratados ou efectivos) com filhos menores deveriam ter direito a uma proximidade à residência.
    Se as condições laborais dos professores não forem melhoradas, serão cada vez mais aqueles que vão mudar de profissão. Em conversa de sala de professores, só na minha Escola, 7 colegas contratados estão a tratar de mudar de vida e no próximo ano lectivo já terão outra atividade laboral. Se isto acontecer nas outras, vai ser bonito… 🙂

    • Margarida on 21 de Novembro de 2021 at 17:52
    • Responder

    Proponho pagar 80ۇ hora por hora extraordinaria.

    Os alunos ficam logo com prof.

    Nas urgencias os medicos tb assim sao pagos.

    • Manuel on 22 de Novembro de 2021 at 11:52
    • Responder

    A integração no quadro de docentes contratados e que estão há mais de 5 anos resolveria muitos dos problemas..

    • Abby Hammes on 9 de Agosto de 2024 at 9:32
    • Responder

    É realmente frustrante ver que a falta de professores foi reconhecida apenas agora, após um estudo da NOVA SBE, quando já sabíamos desse problema há anos. O problema não é apenas a escassez de professores, mas também a dificuldade em preencher horários incompletos e temporários. Essa questão precisa de mais atenção e soluções adequadas, especialmente considerando os dados demográficos disponíveis há muito tempo. Espero que novas medidas sejam adotadas para resolver essas lacunas. Já agora, queria recomendar um site online com slot machines: https://crazycoinflip.com.br/

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading