A doença, as escolas e a democracia – Santana Castilho

A doença, as escolas e a democracia

1. A luta contra a doença não pode ser feita suspendendo a luta pela democracia e substituindo o Estado de Direito pelo estado de emergência. Outrossim, só a articulação das duas lutas conquista a confiança dos cidadãos, evita que a coesão social se esboroe e dispensa o mundo que estamos a construir: uma comunidade vigiada por polícias, sob sucessivas limitações de liberdades, direitos e garantias, para combater um vírus que só se debela com organização e conhecimento.
Expurgando-os da retórica, os discursos políticos do presidente da República e do primeiro- ministro têm sido para dizer que a propagação da doença é culpa dos que adoecem, apesar da singularidade de o poder legislativo ter sido entregue ao poder executivo, que dele passou a fazer pau-mandado, via o sempre-em-pé estado de emergência, já oficiosamente admitido até ao outono.
2. Com os mortos cada vez em maior número e a proximidade do caos diariamente anunciada nas televisões, o encerramento das escolas era inevitável, sem tempo nem espaço para discutir os prós e os contra da decisão. Sabendo-se que a adequação de qualquer medida exige a análise das variáveis que a possam justificar, no caso em apreço não eram só os modelos matemáticos dos epidemiologistas que importavam. Deveriam, igualmente, ter sido consideradas evidências de longa data, no domínio da psicologia, social e cognitiva. Mas não puderam ser, pela pressão política que referi. Assim, quem decidiu não considerou que para muitas crianças, do ponto de vista alimentar, físico e mental, a escola é um local onde estão mais seguras do que em casa. Nem considerou as repercussões futuras, graves, no desenvolvimento das crianças e jovens, motivadas pela supressão abrupta da socialização de que tanto necessitam nas idades em que estão. Muito menos tomou a sério o desespero que essas crianças e esses jovens sentem, pelo desespero que importam do desespero vivido pelos seus cuidadores.
3. É evidente que o Governo perdeu o controlo da situação em matéria de Saúde e por aí arrastou as escolas para a capitulação. A impossibilidade de as fechar, repetidamente afirmada por António Costa (as implicações irreversíveis e os custos no desenvolvimento das crianças assim o determinavam, garantia), esvaiu-se, como se esvaiu a última réstia da sua credibilidade quando nos quis tomar por parvos ou distraídos.
“Ninguém proibiu ninguém de ter ensino online”, disse António Costa na Circulatura do Quadrado de 27 de Janeiro. Como se a 21 não tivéssemos ouvido o comunicado com as decisões do Conselho de Ministros desse dia, que o proibia. Como se declarações bem explícitas do ministro da Educação não tivessem reiterado essa proibição. E como se o artigo 31º A do decreto nº 3-C/2021 não tivesse fixado a proibição em forma de lei.
O jurista António Costa achou que o princípio da igualdade lhe dava o direito de prejudicar todos por igual. A proibição que decretou foi, para além de inconstitucional, uma medida escabrosa, porque a protecção da saúde pública seria beneficiada por uma acção que ajudava a manter os jovens ocupados em casa.
4. O que acontecer daqui para a frente não ficará a dever-se à capacidade do Governo para intervir. O seu tempo político foi gasto em mentiras e em bazófias de resultados próximos do zero.
Bem ou mal, todas as escolas desenharam, no início do ano, planos que contemplavam três cenários: o desejável ensino presencial, o ensino de emergência, remoto, por recurso a meios digitais, e o ensino misto, alternando as duas vertentes anteriores. Foi a falta grosseira ao compromisso que António Costa assumiu em 9 de Abril passado (“estou em condições de assumir o compromisso de que, no início do próximo ano letivo, aconteça o que acontecer, teremos assegurado a universalidade do acesso em plataforma digital, rede e equipamento, para todos os alunos do básico e do secundário”) que ditou a total paragem das actividades lectivas. Não fora estar por fazer o que devia estar feito e ter-se-ia passado à solução menos má, isto é, ao ensino remoto.
A experiência do ensino remoto ou de emergência (que não à distância, como impropriamente é por vezes chamado) no ano passado foi má. Foi geradora de desigualdades, que deixou mais para trás os que já estavam mais atrás. Mas é a única possível, graças à incapacidade do Governo.
In “Público” de 3.2.21

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8 comentários

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    • Alexandra Almeida on 3 de Fevereiro de 2021 at 11:12
    • Responder

    Ó Santana Castilho, não é “graças” à incapacidade do governo. É devido à incapacidade do governo!
    Graças é quando uma coisa é boa, mas isto é mau.
    Eu também acho que houve erros… as compras de Natal até às 13h… o Natal em si… e depois o resultado aí está.
    De facto, só deveriam ter fechado as escolas em que houvesse um número de casos que o justificassem. Na minha, em Lisboa, estava a correr bem… E agora?
    E como vamos dar as avaliações do 2ç período se os alunos não voltarem ao ensino presencial a tempo de fazerem 1 teste? Vamos avaliar pelos trabalhos feitos pelos progenitores ou por explicadores? E aqueles que não têm ninguém em casa que os ajude? Pois…

    • Alexandra Almeida on 3 de Fevereiro de 2021 at 11:13
    • Responder

    Corrijo: um número de casos que o justificasse.

    • Sorceress on 3 de Fevereiro de 2021 at 13:18
    • Responder

    teste

    • Alecrom on 3 de Fevereiro de 2021 at 13:55
    • Responder

    Retrato perfeito: mentiras e em bazófias.
    Acrescento: geringonças.
    Ou seja,
    das boas.

    • fernandasobralinho on 3 de Fevereiro de 2021 at 19:59
    • Responder

    Por vezes até considero interessantes o que ele escreve, mas a teimosia nesta questão já chega.
    Então as escolas não deviam ter fechado porque são seguras? E diz aqui uma colega que na dela estava tudo bem?
    Parece que estão fechados numa bolha e esquecem todo o movimento de pessoas no antes e no depois de os alunos irem para as escolas!

    Já agora colega Alexandra, há quantos anos não lê a legislação sobre a avaliação dos alunos?
    Isso de só contar os testes é da idade da pedra!

    • Vira on 3 de Fevereiro de 2021 at 21:55
    • Responder

    Mesmo, mesmo! Basear a avaliação apenas (ou ainda) nos testes é não saber nada de educação. Informe-se numa qualquer universidade, porque é possível e deve ser cada vez mais, avaliar sem testes.
    Doente mesmo, está o ensino!

      • Roberto Paulo on 3 de Fevereiro de 2021 at 23:53
      • Responder

      Exato! O ensino está doente porque AINDA existem testes.

      Admira como o caro sabe escrever.

    • carla on 4 de Fevereiro de 2021 at 14:25
    • Responder

    no secundário como se distingue com justiça e idoneidade um aluno de 14 de um 16 sem testes?

    a média do secundário serve para entrar na Univ.

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