Um homem que morre em nome da liberdade nunca morre em vão.
1.
Eram 15 horas e o professor Samuel Paty preparava-se para dar uma aula de cidadania. Estava visivelmente cansado, o que alguns colegas terão ligado à polémica em que se envolvera uns dias antes.
O idealista Samuel mostrara a uma das suas turmas de miúdos da Escola Secundária de Saint-Honorine, nas cercanias de Paris, algumas caricaturas de Maomé com o objetivo de fazer pensar os seus miúdos acerca dos limites da liberdade.
Samuel estava cansado e aborrecido com o curso das coisas. O que fora feito para despertar o pensamento crítico e o obscurantismo fora mal compreendido por alguns. Recebera ameaças, nada de muito complicado confessara a colegas, mas ainda assim incómodo.
Eram 15 horas e faltavam duas para a sua hora de saída. Mais 120 minutos e poderia voltar para casa onde o filho de 5 anos o esperava para mais um fim-de-semana em família.
1a.
Um adolescente de 18 anos estacionou no portão da escola às 15 horas em ponto.
Chamava-se Abdouallakh Anzorov e com ele estavam dois miúdos – um com 13 e outr com 14 anos. Uns minutos o jovem dera 500 euros a cada um dos miúdos para o ajudarem a identificar o professor que mostrara cartoons do profeta numa sala de aula.
2.
Samuel Paty usou o seu intervalo para estar um bocadinho consigo próprio.
Pode ter pensado em algum pormenor da aula, no tanto que tinha para fazer, num livro que lhe apetecia escrever sobre os jovens e a liberdade neste tempo de paradoxos e fanatismos ou até, quem sabe, sobre uma carreira de professor que o levara até àquele subúrbio de Paris.
Coisas da vida…
Durante toda a juventude ambicionara fazer uma carreira académica na Sorbonne, a universidade das universidades para quem pensa no ser humano como o centro de todos os paradoxos e oportunidades.
Ou então, naquele curto intervalo, Samuel ter-se-á limitado a comer uma baguete de qualquer coisa ou a beber um café.
Eram 16 horas…
2a.
A mesma hora em que um jovem checheno, no portão da escola, começava a ficar inquieto e a pressionar os seus jovens bufos.
O professor que ele queria não era nenhum dos que tinham saído naquele intervalo. Os seus informadores, menos animados do que no instante em que guardaram os euros, começaram a ver a vida a andar para trás. Será que se o professor não aparecesse teriam de devolver o dinheiro ao maluco?
3.
Samuel Paty arrumou a sua mala e saiu da sala de aula às 17 em ponto. Atravessou o recreio, acenou a um ou a outro colega e parou para responder a uma dúvida de uma aluna mais diligente.
Visivelmente contente pelo fim de uma extenuante semana dirigiu-se por fim ao portão.
3c.
Os dois miúdos, aliviados, informam Anzorov
“É aquele!”
“Está ali”.
4.
Samuel está entretido nos seus pensamentos. Desce a rua, atravessa para um outro passeio, acelera o passo.
Alguém lhe grita.
“Professor”
4d.
O jovem checheno puxa de uma navalha afiada.
Está apenas a uns metros do seu alvo, um homem que ele nunca vira até àquele preciso instante.
Grita…
“Professor”
5.
Samuel Paty vira-se e vê um jovem praticamente colado a si.
Sente a dor de uma faca a espetar-se no seu corpo.
5a.
O jovem fanático esfaqueia o professor.
Agarra-lhe na cabeça e começa a degolar o professor.
Há sangue por todo o lado, mas ele não para.
Vai até ao fim.
Só para quando a cabeça de Samuel se separa do corpo.
Pega então no telemóvel e tira fotografias ou filma. Coloca tudo online.
E desde a rua.
Eram 17 horas e uns minutos.
6.
Samuel Paty não voltou à escola Secundária de Saint-Honorine nos dias que se seguiram à tragédia.
Por isso não sabe…
… mas milhares e milhares de pessoas desceram às ruas francesas para o celebrar.
E o seu corpo pôde, por fim, ser celebrado também na Sorbonne – celebrado como um dos professores mais emblemáticos da história da universidade apesar de nunca lá ter dado aulas.
Um dia, numa qualquer sexta-feira de tarde, daqui a muitos anos, o seu filho hoje com cinco anos, perceberá (estou certo) que a morte do pai não aconteceu em vão. Um homem que morre em nome da liberdade nunca morre em vão.
6a)
O adolescente de 18 anos foi abatido pela polícia.
É provável que não tenha conhecido Deus.
LO




2 comentários
Alguém com um paninho quente?
Todas as homenagens são poucas. E, por cá, têm sido poucas, na minha opinião. Será por ser professor, classe que não convém enaltecer nestes tempos?
Está a decorrer uma iniciativa nalguns blogues de educação, mas só isso.
Assisti a muito mais indignação com a morte de George Floyd. Desta vez, só através da imprensa francesa dou conta de manifestações impressionantes e de uma onda de protesto que une milhares ou milhões de pessoas, um verdadeiro levantamento social.
Por aqui, parece que há muitos paninhos quentes, de facto.