Aposentação, em número crescente, de docentes agravará falta de professores

Aposentação, em número crescente, de docentes agravará falta de professores; no entanto, processos negociais confirmam falta de vontade política para valorizar a profissão docente.

 

Mais de 1300 professores aposentam-se nos primeiros meses do ano em curso, prevendo-se que mais de 3500 se aposentem em 2023. O problema não está na aposentação de tantos docentes, pois esta saída era previsível, tratando-se de professores e educadores que exercem funções há mais de 40 anos. O problema está nas saídas não previstas de jovens da profissão e no facto de os cursos de formação de professores não atraírem quem ingressa no ensino superior. Estes dois factos, associados à aposentação anual de milhares de docentes, expetável no quadro de envelhecimento a que os governos deixaram chegar o corpo docente, está a levar a uma gravíssima crise de falta de professores profissionalizados nas escolas, a qual ainda se agravará até final da década, caso as políticas governativas para o setor não se alterem profundamente.

Só há uma forma de estancar a saída precoce da profissão, recuperar os que já abandonaram e atrair jovens para os cursos de formação: valorizar uma profissão que, de forma crescente, tem perdido atratividade. Não é o que o Ministério da Educação está a fazer. Pelo contrário, nas reuniões negociais em curso, as propostas do ME não vão nesse sentido e só não se concretizam todas as intenções manifestadas pelo ministro porque os professores têm mantido uma luta como há muito não se verificava.

Confirma o que antes se afirma o facto de o ME ter encerrado, sem acordo, o processo de revisão do regime de concursos para recrutamento e colocação de docentes; o mesmo se pode dizer em relação ao processo relativo à carreira, que está agora a decorrer. A proposta do ME não prevê a recuperação de um único dia dos 2393 (6A 6M 23D) que estiveram congelados e ainda não foram recuperados, como também não prevê eliminar as vagas para progressão aos 5.º e 7.º escalões, limitando-se a apresentar uma proposta que, devido aos requisitos que estabelece, exclui mais professores e educadores do que aqueles que abrange.

Os sindicatos de professores não se conformam com esta situação marcada por uma postura ministerial que não respeita quem se encontra em funções, não atrai os jovens para a profissão e, assim, põe em causa o futuro de uma Escola Pública que se quer de qualidade. Por esta razão consideram que:

  • O diploma de concursos que se encontra em apreciação na Presidência da República deverá merecer, de novo, negociação sindical;
  • Se tal vier a acontecer, isso não obstaculizará, no cumprimento da diretiva comunitária 70/CE/1999, a vinculação de 10 700 docentes já em setembro próximo, nem o fim da discriminação salarial de quem está contratado a termo;
  • A proposta apresentada pelo ME sobre a carreira deverá evoluir para o fim das vagas para todos os docentes, isto é, a eliminação daqueles obstáculos à progressão, e para o reposicionamento de todos os docentes na carreira de acordo com a contagem integral do tempo de serviço que cumpriram.

Relativamente a outros problemas que têm estado presentes nas reuniões com o Ministério da Educação, as organizações sindicais continuam a exigir a revisão da Mobilidade por Doença ainda este ano letivo, a eliminação da burocracia e dos abusos e ilegalidades nos horários de trabalho, a alteração do regime de reduções na monodocência, com a definição do conteúdo funcional das componentes letiva e não letiva do horário, ou a majoração da pensão e/ou despenalização da aposentação antecipada, por opção, tendo em conta o tempo de serviço não recuperado.

A agenda do ME e do Governo não passa por resolver estes problemas e só a continuação da luta dos professores a poderá alterar. É por essa razão que já a partir de segunda-feira, dia 17 de abril, se iniciará uma nova ronda de greves distritais, com início às 12:00 horas em cada um dos dias, sem que tenham sido decretados serviços mínimos.

As greves distritais realizadas em janeiro e fevereiro tiveram uma enorme dimensão e nem a forma como os Ministério divulgou os dados a conseguiu esconder. Tendo cada professor feito greve no dia correspondente ao seu distrito, no final dos 18 dias úteis de greve foram na ordem dos 110 000 docentes os que fizeram greve. Este número decorre do facto de, só tendo acesso aos números lançados pelas escolas na plataforma que criou, o ME reconheceu que foram praticamente 86 500 os que fizeram greve em 70 a 90% das escolas e agrupamentos (média de recolha diária), o que significa que no total, terão sido na ordem dos 110 000, confirmando os níveis de adesão divulgados pelas organizações sindicais.

Dia 17 de abril começa nova ronda de greves distritais, desta vez pelo distrito do Porto, sendo indispensável manter os níveis de adesão já verificados em greves anteriores, sob pena de o Governo fazer leituras políticas indesejáveis aos justos objetivos dos professores e dos educadores. Ainda esta semana, prevê-se a realização de uma reunião técnica no ME, sobre as questões relativas à carreira docente.

As Organizações Sindicais de Docentes

ASPL, FENPROF, FNE, PRÓ-ORDEM, SEPLEU, SINAPE, SINDEP, SIPE e SPLIU

 

 

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7 comentários

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    • BaH! on 11 de Abril de 2023 at 11:45
    • Responder

    Não chamem Greve “aquela coisa” que estão a planear para começar a 17 de Maio, que “daquilo” a uma Greve, vai um mundo de distância. “Aquilo” é uma ilusão de Luta só para contentar os associados – e o ministro, que deve estar a esfregar as mãos e a dizer que “greves assim, venham elas”. Mas deixem lá, que o STOP de que se diziam maravilhas e que vinha trazer uma lufada de ar fresco, pouco melhor está, agora que se virou para organizar “convívios”, leia-se acampamentos, vigílias, Manifestações e toda a parafernália de “uma mão cheia de nada” em vez de desafiar os serviços mínimos e liderar uma campanha de desobediência civil.

    • The True on 11 de Abril de 2023 at 11:58
    • Responder

    Professor de Informática ganha menos de metade de um técnico superior do Estado em Informática e trabalha, ainda que informalmente, o dobro.
    Acham que assim se vai a lado algum?
    Sabem quanto ganha um destes técnicos no Estado? Cerca de 2400 euros líquidos, após 16 anos de serviço. Um professor com os mesmos anos ganha menos de metade líquidos.
    No privado um destes técnicos ganha cera de 4000.
    Acham que alguém no seu juízo perfeito, com este tipo de conhecimentos e competências, quer ser professor? Mesmo que no privado, onde ganha um pouco mais do que no público?
    E ainda dizem que os professores ganham muito!
    Ganhem juízo!

    • The True on 11 de Abril de 2023 at 12:01
    • Responder

    Quem entrou no ensino em 2005 (leia-se no início do ano letivo 05/06) entrou para ser congelado.
    Mesmo assim, segundo a proposta do governo, como o congelamento começou a 29 de agosto e a entrada se faz, pela lei, a 01 de setembro, e não estando efetivos (apesar de estarem a trabalhar para o Estado), estes professores continuarão com o garrote das vagas nos 5.º e 7.º escalões.
    Ou seja, quem já ganha pouco (ainda menos do que os outros que ganham mal na mesma), porque entrou para levar com os congelamentos e cortes todos, ainda é prejudicado novamente, vendo as suas perspetivas de carreira e o que receberá de reforma reduzidos a 0!
    Acham que isto tem algum sentido?
    Mas que gentalha nojenta está no ministério a vomitar estas ideias nojentas?!
    Se algum sindicato se atrever a aceitar isto, por mim, pode contar com o meu repúdio. Eu imediatamente me desvincularei de algum sindicato que ouse sequer aceitar uma proposta destas!!
    Tem de ser para TODOS!!
    NÃO PARAMOS!!

      • ZucaTuga on 14 de Abril de 2023 at 9:26
      • Responder

      Eu achava que a educação no Brasil era uma bagunça. Mas Portugal está de parabéns. Tivemos mesmo com que aprender. Agora aprendam com os professores do Brasil e metam o pé na porta do ME com uma paralisação geral e fechamento das escolas por uma semana. Vejam o caos acontecer. Enquanto a população não cobrar o ME as greves são inócuas, não servem pra nada além de virar notícias em jornais.

    • Anonimous on 11 de Abril de 2023 at 12:05
    • Responder

    Eu aguardo respostas sobre:
    – A recuperação dos 6 anos 6 meses e 23 dias roubados;
    – O fim das vagas para aceder a certos escalões, que não acontece em mais nenhuma carreira na função pública, nem conheço nada parecido no privado;
    – O fim das quotas para aceder a níveis de avaliação, que não acontece em vários colégios do privado (já que alguns estão sempre com o privado na boca).

    JUSTIÇA!! PAREM DE NOS ROUBAR!!

    • Carlos Moreira on 11 de Abril de 2023 at 13:13
    • Responder

    Nem a saúde quanto mais a educação!!

  1. Vai ser como no meu tempo de estudante do Ciclo. O meu professor de Desporto passava a vida a correr na rua foi convidado a dar aulas; o de Música tocava pífaro na banda da aldeia; o de Matemática era o Zé que fazia bem contas na mercearia;o Manel da adega cooperativa, que sabia transformar água em vinho, foi meu professor de Ciências; em Língua Estrangeira tive uma senhora que era emigrante francesa; no Português o jornalista da aldeia e poeta; em EVT o carpinteiro e o irmão dele, que andava sempre a desenhar, até trazia o lápis na orelha,era muito dedicado; em História tive o melhor contador de anedotas das freguesias vizinhas, dava aulas de História e Expressão Dramática, fazia rir todas as pessoas.Em educação sexual tive uma menina que estava sempre na esquina da minha rua a pedir boleia, a minha mãe e a do Paulo não gostavam que ela fosse para a escola. Dizem que foi o Presidente da Câmara que a colocou lá a dar aulas, eram muito amigos, ela até dormia em casa dele( era o início da municipalização). Aquilo a que foi um ensino de qualidade e ciência! No meu tempo é que era! 😉

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