Silêncio – Luis Sottomaior Braga

Aos 14 anos quis ser, uns meses, missionário. Acho que hoje, agnóstico, ainda se nota demasiado essa mentalidade em mim.

Tenho de aprender as virtudes do silêncio.

Desde 2018, que tenho dedicado muito tempo e energia à luta dos professores.

A ILC consumiu-me meses e, desde Setembro, que, entre vigílias e manifestações, a erosão pessoal é muita.

Na sofreguidão, em perda, com prejuízos e desgosto talvez até irreparáveis, questiono-me para quê consumir energia?

Em Setembro, a luta incluiu, no princípio, umas vigílias com uns gatos pingados e hoje é rotina ter 50 mil pessoas.

Nada carismático (um chato, me chamaram há dias) nada tenho a ver com isso.

Para tristeza de muitos que me quereriam ver calado, não irei fazê-lo, mas vou moderar muito a minha presença no debate.

Porque tenho de ouvir insultos e perder tempo a responder a gente parva, com quem não falaria ao vivo, e desleixar quem gosta de mim e eu gosto?

Nós vamos ganhar isto e eu sempre estarei em vigílias e manifestações, como indivíduo ativo que sou. Mas conclui que esta alegada pulsão narcisica (que é realmente solidária) de mostrar e explicar a minha opinião e o meu olhar é inútil.

E ando estes dias cada vez mais a duvidar da força das palavras para convencer os outros.

E tenho saudades de não ter este cansaço e de ter paz. A última vez foi em Julho e Agosto e estava a trabalhar na escola e sem ter férias.

Acho que esta semana completei o que podia fazer.

E falhei. Avisei sobre os perigos do Stop e tentei uma assembleia geral para discutir as negociações, mas os sócios não quiseram mexer-se.

Agradeço aos que o fizeram, mas o esforço não foi suficiente.

Haverá uma ordinária em Março, onde irei para me demitir de sócio, consagrado que está o domínio pelos radicais do Mas e assumido que não é apartidário.

O sindicato não está realmente a negociar, mas dizem que “não é oportuno discutir negociações”.

Quando elas se desgraçarem vamos fazer uma linda autópsia.

Analisei os documentos dos 3 sindicatos e são aceitáveis para base de negociação.

Fiz propostas de luta e acabei insultado.

Não quero ser sindicalista, nem influencer. Nem negociador, nem comentador.

E aparecer na televisão não é meu objetivo de vida, até porque já estive nessa onda há muitos anos e me cansei.

O meu horizonte, nas próximas semanas, é a minha escola e as pessoas que gosto. Talvez aí tenha mais efeito exercer a minha alegada lucidez que anda a falhar aí.

Sempre acreditei na aurea mediocritas e vou voltar a pensar nisso.

Andei estes meses a exprimir opiniões aqui e em grupos e blogues.mas concluo que normalmente estou desligado da maioria e me devia dedicar a coisas com mais impacto real na minha própria vida, porque talvez não aguente mais as perdas.

Quando saírem propostas de negociação irei comentar e divulgar, como qualquer interessado, mas nada mais.

A luta não precisa das minhas opiniões, porque entre messianismo e tradição, já está tudo dito. E a luta está bem servida.

Uns hão-de fazer um acordo e outros contestar. Na altura, pensarei o que vou pensar. E talvez partilhe.

De vez em quando, muito irregularmente, voltarei aqui para dar opinião sobre o que se passar, que hei-de difundir em grupos.

Para ser solidário, não preciso de fazer varios posts por dia e ter os meus amigos e as pessoas que gosto, a dizer que sou um chato que não fala de outra coisa.

Há, entre outras coisas, livros, cinema, música e uma cidade à beira mar para caminhar.

Agora que o foco é manter protestos crónicos e negociação, quem não se senta lá, interessa pouco e deve calar-se.

Eu, como sou um democrata: perco e calo-me.

Há muita gente a falar e bem.

Vou tratar da vida que tem muito que tratar.

 

Luis Sottomaior Braga

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7 comentários

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    • Lua e Sol on 7 de Março de 2023 at 19:09
    • Responder

    Silêncio?
    É melhor não, digo eu (nem em ditadura).
    A sua perspicácia é necessária…

    • Filipe on 7 de Março de 2023 at 19:29
    • Responder

    Então Luís Braga, quantos comissários políticos aceitaram o desafio de se demitirem?
    Nem um.😂😂😂😂
    Comportam-se como algozes dos professores há anos, por que iriam agora demitir-se?!
    Estão é a tratar do tacho e do aumento do suplemento.

    • Repense on 7 de Março de 2023 at 21:05
    • Responder

    Nem pense nisso, caro Luis Sottomaior Braga. Numa altura em que é mais que evidente que as negociações vão falhar, precisamos mais que nunca da sua perspicácia e palavras certeiras. A nossa luta não pode perder um guerreiro do seu nível.

  1. Precisamos de pessoas que pensem e que exprimem aquilo que pensam. Aprecio a forma como o faz. Espero sinceramente que reconsidere a sua posição. Não se desgaste com o “bota abaixo” gratuito e que parece estar a atingir os objetivos ao conseguir calar a sua voz.

    • Carlos Moreira on 8 de Março de 2023 at 17:14
    • Responder

    Um testemunho meu, que não consigo deixar passar em branco:

    O “colégio público” de Mafra…
    Sou professor do grupo 500 – Matemática, com cerca de 15 anos de atividade letiva a dar aulas pelo país, a primeira vez por Mangualde – Viseu (o melhor ano da minha vida a nível profissional) depois Lourinhã, Amadora, margem sul e finalmente Mafra. Pensando que já tinha visto de tudo ou sentido tudo, deparo-me com uma escola básica de Mafra, onde afinal ainda havia mais para ver! Pude experienciar realmente esta escola no ano letivo de 2020/2021.
    Com uma gentalhazinha de encarregados de educação que por lá habitam, uma diretora e uma coordenadora do departamento de matemática que é uma espécie de testa de ferro completam o molhe.
    Nesta escola é tradição, que são os EE que mandam, enviando sistematicamente para a sra. diretora queixas dos professores, exercendo uma espécie de “bullying” sobre estes e transformando-os numa espécie de fantoches. Queixas estas em que é dado o devido seguimento pela dra. diretora (digo dra porque como disse alguém “…trata-me por Sr, que atualmente Drs há muitos Srs há poucos…”). Queixas mesquinhas e de má fé, em que os professores são obrigados a justifica-las por escrito pela dra diretora. Queixas como e passo a citar “…este professor passa as a aulas com as mãos nos bolsos…” ou “…esta professora passa as aulas a mexer nos elásticos do soutien…”, ou ainda, e agora estas foram dirigidas à minha pessoa, “ este professor dá a matéria sempre a abrir…” ou ainda”…os alunos aprendem mais em 10 minutos com a professora coadjuvante do que com o professor em duas semanas”, ou ainda “…aconselho a diretora a não colocar o professor a dar seguimento à turma do 8º no próximo ano, no 9º”. Ora gentinha desta, que se calhar nem profissão tem, não faz ideia do que é dar uma aula, nunca assistiu a uma aula minha, não me conhece de lado nenhum, faz-me queixas e comentários deste género! Passam a vida a enxovalhar os professores e depois, o que ainda é pior, e aqui vê-se a classe e categoria de quem anda nos cargos de gestão nas escolas é dado seguimento pela dra diretora, fazendo chegar este tipo de queixas aos professores e obrigando-os a justificar (provavelmente terá um certo gozo neste tipo de situações, o “rabo preso” pelos encarregados de educação para se manter no cargo mais quatro anos ou então é simplesmente falta de categoria. Sim, porque no início da minha atividade letiva eram os professores e os funcionários que elegiam o/a presidente do então conselho diretivo, agora não, e ainda não consegui perceber quem é que elege.
    Como no meu caso me recusei a dar justificações deste tipo de situações (era o cumulo, era o que faltava, estamos aonde?!) fui convocado para uma espécie de interrogatório da “PIDE”, por umas pidezecas, a dra diretora e a coordenadora do departamento de matemática, outra pessoa com muita classe e categoria, que nem capacidade tiveram para ver se me encontravam alguma falha ou erro por onde pudessem pegar. É que eu, modéstia à parte considero-me um bom professor, não um muito bom ou excelente nesta escala brilhante, das mentes brilhantes que têm andado a governar a educação, mas um bom professor e competente.
    Para compor o ano letivo, numa turma do 9ºano, após ter sido chamado “preguiçoso” em boa voz à frente da turma” por uma espécie de aluno, e o ter posto fora da sala de aula, e lhe ter dito que fosse chamar preguiçoso ao paizinho, quem foi castigado e perseguido acabei por ser eu, continuando o aluno a ir normalmente às minhas aulas.
    E ainda se deve ter rido da minha cara! Acabei por ser eu interrogado e questionado pela dra. diretora do que teria chamado cão ao aluno, e fui informado da carta do respetivo advogado da encarregada de educação, sim, porque metem advogados nestas coisinhas pequeninas, a dizer e passo a citar” … preguiçoso é uma palavra que consta do dicionário…” ou seja, se o aluno chamou preguiçoso ao professor qual é o problema, vem no dicionário!! É o cumulo. É deste tipo de gentalha, nomeadamente encarregados de educação e respetivos advogados que se passeiam por aí.
    Tenho 50 anos e este tipo de procedimentos deixa-me exasperado, daí a necessidade de o ter que relatar e não deixar passar em branco, agitando as águas deste pântano.

    Carlos Manuel Moreira
    Professor de Matemática, 3º ciclo e Secundário

      • Lua e Sol on 9 de Março de 2023 at 2:42
      • Responder

      Sindicato (Gabinetes Jurídicos).

  2. Parabéns pela lucidez. Há dois princípios que nunca devemos perder de vista: liberdade e democracia. Há muito pessoal “anti sistema” que, no calor da luta, já os perdeu…

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