PEDIDO DE DESCULPA A TODOS OS QUE VÃO CONCORRER… Luís Sottomaior Braga

Caros/as colegas,

Um dia havemos de falar e escalpelizar tudo o que falhou. E talvez ver como não repetir. Esta é a altura de vos pedir desculpa.

O governo aprovou e vai por em vigor o novo diploma de concursos.

Dessa lei vão sair vilanias bastantes, para eu achar que devo pedir-vos desculpas pela parte que tenho nisso.

Não tenho problema em qualquer caso em pedir desculpa. Aí inspiro-me, sem problemas, em Willy Brandt, que abominava o Nazismo, e pediu em Varsóvia desculpa pelos crimes feitos em nome da Alemanha. De joelhos.

Já ouvi alguém dizer que foi a mais orgulhosa humilhação que alguém podia sofrer.

Para os que vão sofrer com a lei, que não conseguimos evitar, aceitem imaginar-me na postura dessa foto.

Schiller terá dito que “a mais alta das vitórias é o perdão”. Ao fazer este pedido de desculpas estou a dar-vos a mais alta das vitórias sobre mim e sobre o fracasso em que colaborei.

Ainda me lembro do que é a angústia de contratado e QZP em horizonte de vida anual.

O período de luta foi luminoso e a luz foi-se, no que aos concursos diz respeito. Mas a luz que houve deve ser lembrada como tempo feliz e inspiração.

Mas consigo ver o que vai resultar para muitos do fracasso a que também ajudei.

E também tenho amigos e amigas que estimo e por quem tenho carinho e respeito, e cuja felicidade prezo, no grupo dos que estas normas vão prejudicar. E o mal maior é a infelicidade que vão causar.

MESMO PERDENDO, O REMÉDIO É LUTAR SEMPRE

Pedir perdão não vai melhorar a vossa vida, senão porque como terá dito Martin Luther King: “O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício.”

Ao pedir-vos que me perdoem o fracasso em que colaborei estou a reconhecer que podíamos todos fazer melhor. Que podia ter feito melhor.

E não espero que acreditem, mas era bom que dessemos todos outra oportunidade à tentativa. Talvez não volte o espírito leve e otimista que havia pelo Verão, mas vale a pena tentar.

Aqueles que viram estas semanas, desde setembro, sabem que lutei e fiz, com energia e com o pouco talento que tenho, a crítica do que se foi passando.

Dei sugestões e fiz observações. Não é atenuante para o fraco resultado em que ajudei, ter prejudicado bastante a minha vida e coisas importantes para mim, com a luta.

Face ao prejuízo que tive, era melhor ter resultados. Noutras faces da vida também tenho desculpas a pedir.

Talvez protegesse melhor a vida do transtorno, mas faria a luta outra vez e acho que tem de continuar.

Brevemente o Governo vai tentar reverter vitórias nossas, convencido que está dos seu dogmas e preconceitos. Hão-de voltar à carga, em pouco tempo, com o fim da graduação, os perfis e obrigações extensas no número de locais a concorrer.

Não atenderam à idade de quem concorre na moderação das obrigações (que fazem que os que envelheceram a concorrer, agora o vão fazer com regras para novos). Não atenderam a casos especiais como a doença e as incapacidades, que estão mais desprotegidas.

E, antes disso se consolidar tudo, há outra fase de negociações de tudo o que está em aberto.

Aceito que alguns não estejam já para me ler ou ouvir mais, face à porcaria que saiu de resultado daquilo em que colaborei. Admito que tenham de ser misericordiosos para ler isto.

Mas lutamos, e mesmo derrotados agora, lutaremos juntos outra vez.

Mesmo não aceitando a critica demolidora de que os “sindicatos não fazem nada”, que não é verdadeira, acho que todos, e eles, podíamos fazer melhor.

Os documentos estavam bons, mas o Governo não quis realmente fazer o seu dever: servir o interesse público, produzindo um acordo que fosse bom para esse interesse.

A NOVA LEI É UM CASTIGO

O diploma que sai serve mal o interesse público e é carrasco para todos os que forem concorrer.

Peço desculpa por não ter ajudado a uma vitória, mas tão só a um ato de resistência em que tudo acaba imposto. Mas lutamos.

Não tenho problema em pedir perdão. Acho comovente ver a tal imagem de Willy Brandt (que deixo em anexo). E conseguiu o perdão que queria para o seu povo.

Quem pede perdão e explica porquê sai mais justo do exercício, mesmo ajoelhado face à dimensão do mal que leva a ajoelhar.

Mesmo que quem pode perdoar ignore o pedido ou possa mandar recado de que não quer saber de desculpas e nos reduza à nossa insignificância de derrotados.

Mas não gosto que me guardem rancores ou indiferença pela falta de coragem em dizer que falhei. Posso falhar, até por falta de mais coragem, inabilidade ou má perceção, mas assumo.

E, neste caso, podem todos os outros não o fazer, mas eu assumo a minha parte. Não nos correu tão bem como justificaria a energia gasta. Não foi por medo ou cobardia. Foi azar e talvez má organização.

Não tenho problema em pedir desculpa seja a quem for na vida privada ou em público. Uma das imagens da minha infância é Egas Moniz de corda ao pescoço a pedir desculpa. Em criança nunca achei que estaria nessa posição tantas vezes, em privado ou em público.

Mesmo sofrendo grave humilhação, como a que sofremos todos, terei muita felicidade em ser perdoado pelo mal que ajudei a deixar passar.

Mas isso não vos adianta de nada.

É só um tipo chato que escrevia uns textos, e que até leram pontualmente com algum gosto, que se tenta desculpar. Mas andei estes meses de boa fé e pedir desculpa é parte disso.

Fui derrotado convosco na luta contra as maldades do diploma. Para penitência já ofereci a muitos, que conheço, ajuda para o processo de concorrer. Tenho obrigação de ficar a perceber algo da lei quando sair. Vou aplicá-la como dirigente.

Este pedido de desculpas nem é o mais difícil. Pior vai ser encarar
os colegas que vão ficar longe ou prejudicados e ter de assumir que queria ter ajudado a que fosse feito o melhor e só deu para aquele desastre.

Se for perdoado, sorrirei e, mesmo desgostoso, e sabendo que não voltará o clima feliz, ligeiro e animado de setembro, em que tudo eram possibilidades e projeto de luta, acho que isso dará energia para as lutas que ainda falta fazer.

Porque, como dizia Salgado Zenha, só é derrotado quem desiste de lutar.

Já me tem acontecido na vida fugir à luta, merecer castigo e sofrer os maus efeitos por isso. Mas não foi esse o caso.

Lutamos. E agora, com o vosso perdão pelo fracasso que o governo nos impõe, só resta iniciar nova fase. E lutar mais.

 

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3 comentários

    • Anónimo on 17 de Março de 2023 at 9:06
    • Responder

    Os políticos, ou pulhíticos, são como são. E as pessoas continuam a votar neles. Não reconheço nenhuma competência a nenhum dos que nos governam desde há 18 anos para cá e não apenas na Educação. Não vejo nenhum que esteja sentado na Assembleia da República, no governo ou nas câmaras municipais mais representativas do país (incluindo vereadores, chefes de gabinetes, diretores, etc.) com um mínimo de competência, hombridade e seriedade.
    No final da monarquia houve quem tentasse resolver problemas de uma certa forma que acabou violentamente. Também no final da 1.ª República, resultando numa longa ditadura de quase 40 anos.
    Neste momento temos os próprios pseudo-democratas a destruir a democracia. Na verdadem pelo menos desde um certo PM que gostava que o motorista lhe levasse “aquilo de que gostava” e desde uma certa “sinistra” nojenta, que a democracia deixou de existir. Nada na Educação neste país é certo ou seguro. Nada é pensado seriamente. Tudo é uma teia de interesses mesquinhos e políticos de um conjunto de pessoas que nada sabe de Educação, das escolas ou dos professores, e que se está mesmo nas tintas para os alunos e famílias. Só se preocupam com votos. Nada é garantido e nada é certo. Sem estabilidade nada se faz e sem seriedade nada do que se faz tem resultados positivos a médio e longo-prazo (na maior parte das vezes nem mesmo a curto-prazo).
    A encruzilhada da Educação é a encruzilhada do país. E como nada de bom vai acontecer nas 2 próximas décadas na Educação em Portugal (principalmente nas grandes cidades), porque os partidos que as governam, da esquerda à direita são um grande rio de interesses mesquinhos, de corrupção e de compadrios, a destruição da Educação será a destruição do país.
    Não pensem que os radicais resolverão isto, porque são tão maus ou piores do que os outros. Os outros são corruptos e vis. Sem gente séria nada se fará e a destruição é inevitável.

    • The getaway on 17 de Março de 2023 at 9:07
    • Responder

    Os que estão no quadro também não estará a salvo. Acreditem!
    Os presidentes das câmaras e os pulhas ministeriais encarregar-se-ão de lhes fazerem a folha.
    O futuro é mais do que negro. É podre!

    • PTC on 17 de Março de 2023 at 17:44
    • Responder

    A desonestidade, desumanidade e incompetência de uma mente doentia não podem de forma incólume afectar de forma porventura irreversível a vida de milhares de professores, e consigo levar à destruição do serviço nacional de educação e da escola pública.

    Nós professores, não podemos permitir esta política ruinosa!

    Nós professores, com a nossa união genuína e a abnegação com que nos temos entregado a manifestar publicamente a nossa repulsa por estas políticas nefastas, não o podemos permitir!

    Sobre a terrível e insultuosa proposta de vinculação dinâmica escreveu Santana Castilho:
    «Posto isto, que bela lição dariam os professores a João Costa se o deixassem a falar sozinho com o diploma que vai levar a Conselho de Ministros e nem um só dos contratados concorresse à pérfida vinculação dinâmica! A que outra artimanha recorreria o criativo ministro, para não ser levado ao Tribunal de Justiça da União Europeia, por incumprimento da correlata Directiva 1999/70/CE?»
    In “Público” de 15.3.23

    Nós professores, não podemos delegar o nosso futuro, a nossa vida, não podemos vender a nossa consciência, demonstremos o nosso carácter perante tanta manipulação, perante tanta insídia, perante tamanho embuste, perante tanta injustiça.

    Temos de ser nós, e tem que ser agora!

    De uma vez por todas, dêmos uma bela lição a quem age de ma-fé num jogo viciado, nos ilude e nos continua a mentir.

    Tem que ser agora! Cada um de nós!

    João Costa e o seu ME precisam de uma bela lição, deixemos nós agora arrastar o processo de incumprimento da Directiva 1999/70/CE, deixemos que o Tribunal de Justiça da União Europeia actue em conformidade.

    Nós professores, não podemos pactuar com tanta iniquidade e falta de seriedade.

    Que nem um só dos contratados concorra a esta miserável artimanha da vinculação dinâmica. Como é possível, num país da União Europeia, no ano 2023, implementar um diploma monstruoso que obriga a escolher entre a profissão e a família!

    QUE NEM UM SÓ DOS CONTRATADOS CONCORRA À VINCULAÇÃO DINÂMICA!

    Organize-se um grupo de acção, implemente-se um movimento de mobilização.

    Atingimos o nosso estado limite. Já perdemos o medo.

    Conservamos a nossa honra de homens e mulheres.

    Executemos uma acção consequente.

    Tem que ser AGORA!

    Gritemos bem alto: BASTA! É DEMAIS!

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