Jornal “Público”: estranha maneira de servir a liberdade de opinião e promover a transparência
Já fui sócio de três sindicatos de professores: SEPLEU, SPGL e, desde junho de 2018, sou sócio do S.TO.P. Sou ideologicamente Social-Democrata e cristão. Sou militante do PSD e, em jovem, quando Freitas do Amaral estava ao leme, pertenci à Juventude Popular. Sou sócio da SEDES, fui sócio do Belenenses e simpatizante do Benfica. E não, caro Leitor, não ensandeci, para estar com estas irrelevantes “confissões” de filiações, que em nada importam ao teor dos artigos de opinião sobre Educação que, desde outubro de 2019, de forma informada e livre, venho publicando no Observador e no Público.
Então, porquê este início de conversa?
Vamos a factos e e-mails e já começarão a entender.
- A 2.2.23, dia seguinte ao da publicação do meu artigo “As minhas linhas vermelhas na negociação com o Governo” o Público interpelou-me assim, via Editor de opinião:
“Caro Alberto Veronesi
Pode dizer-me com urgência se é membro do Stop?”
- À minha natural perplexidade, o Editor insistiu, assim, no mesmo dia:
“Desculpe, Alberto Veronesi, mas, para nós o facto de ser sócio do STOP quando está a escrever sobre este assunto é de referência absolutamente obrigatória, pelos princípios elementares da transparência. Não se é um pouco sócio como não se é um pouco virgem – ou se é ou não.
Em próximas crónicas já o apresentaremos assim, se concordar”.
- No dia seguinte, 3.3.23, enviei ao Editor o e-mail que transcrevo:
“Confesso não perceber a razão pela qual pretende que me passe a identificar como sócio do S.TO.P. Tive o cuidado de a procurar no “Livro de Estilo” do Público e não a encontrei. Tão pouco encontrei nos textos de vários docentes (e são muitos) que assinam prosas no Público, qualquer identificação semelhante. Porquê eu?
A bem da verdade, eu sou o sócio número 282 do S.TO.P, o militante 249010 do PSD e o sócio 2136 da SEDES, entre outras filiações a que sou livre de aderir, num Estado que, por enquanto, ainda é de direito.
Mas também a bem da verdade, nenhuma destas filiações me impediu ou impede de ser livre. Prova disso são os artigos que escrevo, onde procuro sempre fundamentar a opinião que emito. Se algum dia fizesse alguma defesa explícita ao S.TO.P., seria eu próprio que usaria o expediente de iniciar a prosa com a decantada “declaração de interesses”. Aliás, com exceção da SEDES, todas as outras filiações são anteriores ao início da minha colaboração como articulista autoproposto do Público.
Creio que, se de facto considerar a referência a este facto como absolutamente obrigatória, talvez também seja importante referir, não só as outras filiações como as formações académicas.
Ficaria então qualquer coisa como:
Alberto Giovanni Veronesi
Mestre em Ciências da Educação. Professor do 1.º Ciclo. Consultor Pedagógico. Militante do PSD. Sócio da SEDES. Sócio do S.TO.P.
Faria isto algum sentido?”
- 4. A resposta do Editor chegou a 6.3.23:
“Olá, Alberto
Escrevi-lhe no fim-de-semana, mas não enviei porque acho que colocou as coisas (e eu respondi) de uma forma que justificava recurso hierárquico, pelo que alarguei a discussão.
Reenvio-lhe agora que tinha escrito, sem alterar uma vírgula. Falo com espírito construtivo e cordial, que isto da comunicação escrita, por email, sem entoações, torna tudo demasiado ríspido. Se superarmos esta questão da filiação, depois teremos de falar acerca do texto e dos gráficos.
Aí vai, abraço
Caro Alberto Veronesi
Lamento que não compreenda a razão pela qual o PÚBLICO exige que se identifique como militante do STOP quando escreve artigos sobre a actualidade na Educação. Os leitores têm o direito de conhecer essa relação.
Do mesmo modo, se escreve a dizer que que está farto de ouvir culpar o “tempo da troika” pelo congelamento da carreira, quando ele teve início com o Governo PS de Sócrates, e que lamenta que o PSD deixe passar esta ideia, os leitores têm direito a saber que é militante do PSD – nem que seja para conhecerem a sua independência.
E se escrever sobre um documento que a Sedes acaba de produzir ou sobre uma questão que a Sedes acaba de colocar no espaço público, é claro que deve apresentar como sócio da Sedes.
Estranho que isto não seja pacífico para si, que precise de uma justificação no Livro de Estilo (LE) do PÚBLICO. Até porque quem se torna militante de uma instituição está a assumir o compromisso de a promover e às suas causas, e de angariar outros apoiantes.
Afirma que não deixaria de fazer um “disclaimer” quando ele se impusesse, mas escreveu um artigo sobre quais devem ser as linhas vermelhas na negociação com o Governo, já depois da reunião em Belém e da filiação, no qual o podia ter feito..
Já agora, a ideia da transparência e dos interesses surge de forma difusa no LE, que põe o ónus de revelar os interesses dos actores sociais aos jornalistas e colaboradores, sendo omisso em relação aos deveres dos autores autopropostos.. Estamos justamente a trabalhar num novo LE e prometo-lhe que essa questão será clarificada.
Uma palavra final sobre as várias filiações. É claro para nós que, se escrever sobre política de educação, não tem nada que revelar que é, imaginemos, sócio do Clube Português de Caravanismo, membro da secção portuguesa da Amnistia Internacional, promotor de alojamento local ou que está habilitado com o curso de formação de formadores ou um Phd em Fisiologia Celular. Isto vale para todos os autores autopropostos e não, não temos conhecimento de nenhum outro autor a escrever sobre o conflito do Governo com os sindicatos estando sindicalizado.”
- Face ao anterior, respondi assim ao Editor de opinião do Público:
“Alude a “recurso hierárquico”. Estranha expressão neste contexto, já que ela colheu significância no foro jurídico, quando alguém, depois de reclamar, sem sucesso, de um procedimento administrativo, não desiste e leva o contencioso à decisão do superior hierárquico. Presumo poder concluir que procurou conforto em opinião alheia. Seria interessante que a identificasse.
Não, não compreendo a sua exigência de me querer identificar como sócio de um sindicato. Muito menos pactuo com os argumentos que usa, que, a serem aceites, abririam portas a uma devassa pidesca de todas as minhas filiações, que essas sim, pouco interessam aos leitores. Aos leitores interessa que a opinião expressa num jornal, mesmo que dela discordem, seja fundamentada. Na sua linha de pensamento, se um dia escrevesse sobre o ensino da moral católica, lá o teria a perguntar-me se era da Opus Dei ou da Maçonaria. Ou se era hétero ou homossexual, se abordasse o tema da educação sexual. Não, a isso digo não!
Não vou perder o meu tempo colhendo exemplos “ad nauseam”, que tornam a sua argumentação absolutamente insustentável, raiando mesmo o ridículo. Então “quem se torna militante de uma instituição está a assumir o compromisso de a promover e às suas causas, e de angariar outros apoiantes”? Donde colheu a sentença? Do regulamento de uma madraça?
Então quando digo estar farto de ouvir culpar o “tempo da troika” tenho que me identificar como militante do PSD? Se estendesse o critério a quem disserta no Público sobre política, ficaria a escrever sozinho.
E se abordar a alimentação servida nos refeitórios escolares, sou obrigado a etiquetar-me como seguidor do veganismo nos dias pares e de uma dieta cetogénica nos ímpares?
A pergunta de um milhão de centavos (não de dólares, que valho pouco) é: porquê eu?
A isto, que lhe perguntei, disse nada. Seria mais fácil e bem mais honesto, porque teria toda a legitimidade de o fazer, dizer-me que o Público não aceitava mais as minhas crónicas.
Termino com dois reparos e duas notificações:
– Confunde conceitos. “Disclaimer” (isenção de responsabilidade) é coisa bem diversa de uma “declaração de interesses”.
– Estando pendente de uma conclusão esta nossa divergência, não foi limpo ter alterado, ainda por cima maliciosamente, usando “membro” por “sócio”, uma publicação já feita, sem o meu consentimento.
– O texto pendente já foi enviado para publicação noutro jornal.
– Reservo-me, naturalmente, o direito de dar público conhecimento desta missiva e das razões pelas quais cessa a minha colaboração no Público.”
- E a conversa estendeu-se ao Diretor do Público, de quem recebi este texto:
“Caro Alberto Veronesi
A declaração de interesses, que inclui a menção de filiações partidárias ou sindicais, faz parte do nosso contrato de transparência com os leitores. Não é uma extravagância nossa, é uma exigência do jornalismo. Tem todo o direito em recusá-la, obviamente. Como nós em exigir o seu cumprimento.
Cumprimentos.”
- O “papo” em defesa dos estranhos conceitos de liberdade, equidade e transparência, que o Público aplica a UM e a aos OUTROS não, terminou com a minha resposta ao Director do Público, assim:
“Caro Diretor,
como Egas Moniz, venho de corda ao pescoço pedir-lhe desculpa. Lorpa que sou, ainda não me tinha dado conta de que todos os autores que assinam textos no Público estão assim referenciados.
Que bem chuta para canto!”
Foi longo o texto. Mas era meu dever explicar por que deixei de escrever no Público, que, ironicamente, ainda há pouco promoveu uma grande conferência sobre “Os desafios da Liberdade”.
À Entidade Reguladora para a Comunicação Social e ao Sindicato dos Jornalistas, também chegará esta explicação.




9 comentários
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ahahahahaha a sério.. claro que o tipinho é sócio do estop. Estas ligações de Deus com O diabo são habituais por estas bandas. Faltou dizer que defende os amarelos . Obviamente que esperar-se de uma pessoa que é do piéssedê e do estop com dirigentes trotkistas… qualquer comentário independente seria completamente … irreal… Defende o seu grupo… pronto normal…
Nota : Sou Socialista e católico.. e defensor da escola público contra os ataques da aliança cheganos-comunas. Essa pois isso será uma mistura que se aceita….agora defender o ensino publico … você não defende.
O pior pior é que se acha importante no meu disto tudo….
Às portas dos 50 anos do 25 de abril, o LÁPIS AZUL voltou com toda a força.
Comemorar o quê ?????
“Aos leitores interessa que a opinião expressa num jornal, mesmo que dela discordem, seja fundamentada.”, claro que é assim, fiquei esclarecida quanto a esses que dirigem esse meio de comunicação social! Tristes, demagógicos e subversivos da transparência!
É triste ver um jornal que já foi uma referência afundando-se.
Mais uns pregos no caixão.
Qual a novidade? A democracia acabou desde há vários anos. Pelo menos desde Sócrates. Ou até antes.
Ponto de honra, não conheço o Veronesi. Não sabia das suas filiações. Não sou filiado em qualquer partido, nem simpatizante de PS e PSD, mas gostava de ler as suas crónicas sobre e educação.
O “velho” Público, jornal de referência, do Vicente Jorge Silva, já não existe, desde os tempos do José Manuel Fernandes. Este Sr. Carvalho nunca gostou muitos dos professores e das suas lutas. É com tristeza que me lembro do “lápis azul” de outrora.
Depois dos escritos do Manuel de Carvalho sobre os professores, o jornal Público só me serve para embrulhar peixe …
Esteve muito bem Alberto Veronesi na sua argumentação.
A censura encapotada, pela sua cobardia, é ainda mais desprezível do que a censura assumida.
E aqui parece que estamos na presença de uma tentativa de dissimular a censura.
Lá irão quase 20 anitos, enviei um texto que o mesmo jornal publicou, mesmo junto ao artigo semanal de Eduardo Lourenço. Impedido de o publicar no jornal do labirinto em que trabalhava, que o cortou completamente, arrisquei a publicação. Saiu. Não houve quaisquer perguntas das pessoas que não permitiram a publicação no periódico da escola, mas se as houvesse, apenas perguntaria por que razão gente que nunca publicou uma linha tinha autoridade para proibir a partilha de argumentos sobre a regulação do poder de intervenção dos pais e encarregados de educação na vida escolar, quando já se assistia a um jeito especial de influenciar as decisões pedagógica e cientificamente assumidas pelos docentes. Nada veio do lado de quem sempre andou metido nas sortes das lideranças, porque o gracioso destino que os perpetua nos cargos, avoluma a sombra do que aparentam e diviniza a incompetência que ostentam.
Estranha-se que quem mais diz defender a liberdade sejam os que menos argumentos aduzem em proveito da mesma, ou não estivéssemos a consolidar a tendência de promover o reles.