Só quando virmos a última gota de água sair das torneiras nos daremos conta da falta que ela faz. E assim será com os professores numa terra que atravessa uma severa seca de valores sociais.
O sistema de ensino em Portugal não é mais do que um navio a afundar-se onde os sobreviventes, num salva-vidas à deriva num mar de gente indiferente que não os quer nem vai salvar, em desespero, acabam por cometer canibalismo começando a se comerem uns aos outros por considerarem ser essa a única solução para sobreviverem. Os professores que parem de procurar nos outros explicações para o afundamento da classe, porque ela própria é a maior culpada pelos males que a afligem, pela desunião que a caracteriza e tem prejudicado a todos ao longo dos últimos anos e nos trouxeram até esta situação decadente de instabilidade, precariedade e más condições profissionais.
Não é uma andorinha que faz a primavera; não são alguns casos fraudulentos na mobilidade por doença que podem pôr em causa todos os outros que estão realmente doentes. Foi com essa perigosa mentalidade e tendência em generalizar que se cometeram as maiores atrocidades e crimes ao longo da história da humanidade. É, por isso, com grande preocupação que assisto ao começo de uma campanha difamatória contra os professores em mobilidade por doença, doentes ou com familiares a necessitar de apoio.
Será, porventura, assim tão difícil estabelecer a ligação do envelhecimento da classe, a crescente sobrecarga de trabalho e o prolongamento dos anos de deslocações para escolas longínquas, com o aumento de problemas de saúde dos professores? Será que alguém se pergunta como é que um professor sexagenário aguenta fazer diariamente centenas de quilómetros nas estradas a acumular a todo o imenso trabalho profissional que lhe é exigido? Claro que não, pois é bem mais fácil falar mal dos outros, algo tão característico do nosso povo.
Que, de uma vez por todas, se entenda que isto não é vida que se aguente. Até há uns anos os ciganos eram conhecidos pelo nomadismo que caracterizaram a sua cultura e os fizeram povoar os quatro cantos do mundo; hoje em dia os professores são os ciganos dos tempos modernos – nómadas a percorrer o país durante toda uma vida.
E que se desmitifique que o maior problema dos horários que não são preenchidos são os horários incompletos numa profissão mal paga sem ajudas de custo, que não são aceites por mal darem para pagar uma renda e que nada têm a ver com os professores em mobilidade por doença.
28 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, cirurgias, um joelho que nem sequer me permite correr e me dificulta a condução e mais de 600 mil quilómetros nas estradas em deslocações para a escola, são a explicação para recorrer à mobilidade por doença. Se preferia não ter de recorrer a este género de concurso? Claro que sim, pois seria sinal que teria saúde, algo que não tem preço e só se dá o devido valor quando se perde. Por isso, numa situação destas, colegas serem obrigados a escutar da boca de dirigentes escolares e associativos e da comunicação social, que os professores nestas circunstâncias são fraudulentos e oportunistas!? E, pior, colegas de profissão a alimentarem as redes sociais com um ar carregado de maledicência dos seus pares, é revelador da desunião de uma classe malformada que se maltrata a si mesma.
Se hoje pudesse voltar para trás no tempo, nunca teria enveredado por ser professor. E isso nada tem a ver com a qualidade profissional. Quem me conhece sabe que sou um bom profissional, gosto do meu trabalho (embora hoje menos do que noutros tempos), com excelentes relações com pais, alunos, professores e funcionários, com elevada capacidade pedagógica dentro e fora da sala de aula. Mas não é isso que define uma escolha de vida acertada quando o preço a pagar é elevado numa fatura diária e perpétua, numa terra onde não há reconhecimento profissional nem mesmo no seio da classe onde cada um faz tudo para poder ficar com o quinhão dos outros. Sinto o desalento de quem deu tudo de si ao ensino, incluindo literalmente sangue, suor e lágrimas, e em troca recebeu tão pouco da sociedade.
A minha esposa, com 29 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, mazelas, uma vida na estrada sem fim à vista, nem esperança de algum dia poder vir a ficar colocada perto do domicílio, é o exemplo acabado daquilo que se espera de um professor nos dias de hoje – um missionário que abdica tudo por uma causa sem gratidão social. Um número descartável que, quando estiver esgotado, simplesmente se esquece e se substitui.
Será a qualquer título assim tão difícil entender que o que está verdadeiramente em causa não são os professores, mas as condições de trabalho desumanas a que são sujeitos? Longe vão os anos em que um professor trabalhava meia dúzia ou, quando muito, uma dúzia de anos longe do domicílio até ficar colocado perto da sua residência. Atualmente, espera-lhe toda uma vida a trabalhar longe de casa com a expectativa de, talvez, um dia, quiçá perto da idade da reforma, poder vir a ser colocado perto de sua casa.
E quem paga a despesa de décadas nas estradas e em estadias com famílias a pagarem duas e três rendas? Quem paga o desgaste de centenas de milhar de quilómetros ao volante?
Com condições tão pouco atrativas, não é de admirar que, nos dias de hoje, não se consigam aliciar os jovens para virem a ser professores.
Não me espanta nada que a muito anunciada falta de professores já esteja aí com mais de trinta mil alunos sem professores neste ano letivo, mais de cem mil no próximo e mais de trezentos mil dentro de 2 a 3 anos.
É, para mim, muito natural que sejamos um país sem grande progresso em comparação com os seus pares, com baixos índices de escolarização que se irão agravar enormemente nos próximos anos, fruto do indecente ataque aos profissionais da educação iniciado em 2005 por Maria de Lurdes Rodrigues e o governo Sócrates e habilmente continuado pelos governos que se lhe sucederam.
Um país que, no futuro próximo, apenas irá colher aquilo que semeou; sem futuro, a que está condenado pela postura política e social de perseguição e injúria à classe fundamental para o desenvolvimento e progresso de uma nação. Mais do que um flagelo económico, este é um flagelo social numa terra movida por um monstro corrosivo que turva a razão e ataca com o ódio da cegueira chamado “inveja”. “Os professores ganham muito, trabalham pouco e têm muitas férias”, a isto se reduziu o imenso e importantíssimo trabalho de grande investimento e sacrifício pessoal e profissional desemprenhado pelos professores.
Está a chegar, a passos largos, o dia em que o país irá implorar por professores e não os terá. Depois, irão providenciar-se remendos para tapar a enorme cratera aberta diante de todos, recrutando-se profissionais sem habilitação profissional especializada nem qualificações à altura, recorrendo-se a professores dos PALOP, espanhóis, entre outros, quando se negligenciou e perseguiu excelentes professores que o país formou ao longo de décadas. Alguém deveria responder perante a justiça por este e outros crimes que a nossa classe política tem cometido contra a nação ao longo de décadas.
E quanto ao povo, longe de estar inocente, apenas terá aquilo que merece pagando por ter acreditado nas mentiras disseminadas pela máquina de propaganda política sendo conivente com esta matança profissional que encurralou o ensino neste beco sem saída.
Relativamente a esse clima de suspeição, o que dizer daqueles que, com responsabilidades acrescidas, vêm a público falar mal da classe? Comecem por investigar o obscurantismo por detrás de certas nomeações para cargos públicos, políticos e editoriais de órgãos de comunicação; comecem por averiguar a transparência dúbia na eleição de certos dirigentes escolares; comecem por dar a devida atenção a tantas irregularidades, atropelos à lei, cunhas, corrupção, peculato e crime, antes de se virarem para os professores.
E a ávida língua afiada de alguns docentes, seria muito mais útil se a apontassem na direção do envelhecimento da classe e do elevado desgaste a que está sujeita, com excesso de trabalho e de trabalho burocrático, de instabilidade e baixos salários. Afirmarem que professores em mobilidade por doença não lecionam, só alimentam falsas ideias sobre os professores. Muitos, coitados, mesmo em mobilidade por doença, ainda acabam por ser obrigados a meter baixa médica por não aguentarem, sendo o mais doloroso o azedume e má-língua dos colegas de profissão.
Em vez de exigirem melhores condições de trabalho, maior estabilidade profissional, redução dos quadros de zona, aposentação mais cedo por desgaste profissional, vinculação mais célere, ajudas de custo para alojamento e deslocações, menos burocracia, mais proteção social e judicial, valorização da classe, da carreira e salarial, fim de cotas e de obstáculos à progressão na carreira, devolução do tempo de serviço roubado e a resolução de tantos problemas reais e diários dos docentes, estupidamente, os professores continuam a preferir embarcar nestas ciladas que colocam professores contra professores e mancham a profissão na praça pública optando por dar tiros nos próprios pés. Guarda-se o mal dos outros num cofre longe da nossa consciência e dizem-se as maiores blasfêmias com a mesma facilidade com que se respira.
Que se investiguem os oportunismos de alguns e não se tome a parte pelo todo, apenas isso.
De quando em quando, num país onde quase tudo funciona mal, num exercício de fuga da realidade lá se volta novamente a atenção para os professores como culpados de todos os males… e o pior é que alguns facilmente alinham nisso.
Carlos Santos
Mai 08 2022
Canibalismo Profissional – Carlos Santos
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16 comentários
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É assim, até os comemos, vale tudo menos tirar olhos.
Subscrevo na íntegra este texto. Não há inocentes nesta situação desastrosa a que se chegou. Mas, o pior de tudo, é que os maiores culpados são, de facto, os próprios professores que enveredaram por uma decadente e incompreensível autofagia. Nós, professores caímos em desgraça perante o povo português mas como dizem os miúdos, o karma é lixado e o pior ainda está para vir, desta vez para os portugueses que embarcaram com todo o gosto nesta situação.
É só conversa da treta. Bastava penas dizer que os professores estão mal pagos.
“Está a chegar, a passos largos, o dia em que o país irá implorar por professores e não os terá. Depois, irão providenciar-se remendos para tapar a enorme cratera aberta diante de todos, recrutando-se profissionais sem habilitação profissional especializada nem qualificações à altura, recorrendo-se a professores dos PALOP, espanhóis, entre outros”
Professores dos PALOP e espanhóis duvido muito que venham a ser recrutados em número significativo. Penso que o problema vais ser resolvido, sem excessiva dificuldade, por este e por futuros goverrnos, através do recrutamento de brasileiros, aos olhos de quem, em muitos casos, as condições de trabalho oferecidas pela escola pública portuguesa parecem menos más, quando comparadas com a escola pública brasileira. Se juntarmos a isso a oferta, que presumivelmente será feita, de nacionalidade portuguesa (acesso facilitado à UE) a quem aceitar lecionar uns tempos em Portugal, não vão faltar brasileiros dispostos a isso. Pode alegar-se que a qualidade da formação superior de muitos brasileiros deixa bastante a desejar, mas desde que as vagas sejam preenchidas, o resto interessará a pouca gente.
https://www.youtube.com/watch?v=OA_CtyGZBMc
Reportagem datada de 3 de maio de 2022 da TV Band, do Brasil. O futuro da escola pública portuguesa vai parcialmente passar por aqui.
“Cada vez mais brasileiros estão atrás da cidadania portuguesa.”
Como ser professor em Portugal? Reconhecimento da qualificação profissional para a docência.
Neste vídeo explico que o professor brasileiro não precisa de mestrado para conseguir lecionar em Portugal, no entanto precisa da profissionalização. Assista a este vídeo e não perca nenhum detalhe.
Cada palavra deste texto vale ouro.
Uma excelente resposta às “marias”, “professores Karamba”, “Morgados” e quejandos que passam a vida a cortar na casaca dos desgraçados que têm de meter baixar médica ou pedir MpD.
ESCREVI TODA ESSA COUSA EM COMENTÁRIO AO PIST DAS INVENCOES DA MPD.
PARA QUE ACABEM AS DUVIDAS É FAZER COMO EM 2005 IR PRIMEIRO JUNTA MEDICA E DEPOIS É QUE SE PODE CONCORRER .
FODASSE ESTOU FARTO DESTA CONVERSA.
DOS QUE ANDAM A MAMAR NAO SE FALA.
PECULATO ? O SANTOS ESSA É A MAIS GRAVE .
CRIME DE PECULATO ..UIIII
SE TEBS PROVAS ENVIA PARA O MEU EMAIL PF
VOU ADORAR ACUSAR.
VOU VOU
CARLOS SANTOS
ESCREVESTE ALGO GRAVE
PRECISO DE DADOS
EU APRESENTO QUEIXA NO MP
SE ESCREVES ISSO E NADA FAZES ES CUMPLICIDADE DE CRIME CONTRA ESTADO.
SE NAO QUERES DAR PROVAS APRESENTA .
PECULATO???? TENS A CERTEZA,
Os governantes PS sobretudo desde a MLR têm como tática atiçarem os docentes uns contra os outros. Concordo com o Carlos Santos em quase tudo, excepto quando refere que os docentes “preferem embarcar”. Acredito piamente que alguns são cúmplices e servidores dos governantes nestas táticas de diversão e que cumprem os seus papeis com militância.
Que monte de tretas e choradinhos… como se toda a gente não soubesse que há montes de mobilizados por doença fraudulentos. Por favor, desde que eu comecei a trabalhar nos idos de 1988, que já havia os míticos atestados da coluna – toda a gente sabia que a maior parte eram fraudulentos. Só que agora o nível de pouca vergonha é incomensuravelmente maior, mas alguma vez é normal haver em cada agrupamento cento e muitos mobilizados por doença? E a maior parte não faz mesmo nada ou quase nada… E os que metem MPD para cuidar de pais e outros familiares idosos e os metem no asilo? Tenha mas é vergonha na cara!
E os que estão há anos e anos de atestado? Vão lá passar 15 dias na sala de estudo e depois mais três anos de atestado? E depois vão ter uma reforma igual à minha, que trabalho há 34 anos ininterruptamente. Isto é justo?? Não podem trabalhar, reforma! Mais nada…
Se alguma coisa a vida me ensinou foi que quem tem mais telhados de vidro mais apedradas atira. Por isso, desconfio sempre daqueles que se exibem como exemplos de grande probidade, que exigem aos outros tudo e mais um par de botas e depois quando olhamos para eles ficamos de queixo caído com falta de “vergonha na cara”.
Exemplo: a maneira como famigerada Lurditas Rodrigues – que tanto apregoava a meritocracia – arranjou o seu tachito na ISCTE. E mais não digo…
Se alguma coisa a vida me ensinou, foi que quem tem mais telhados de vidro mais pedradas atira. Por isso, desconfio sempre daqueles que se exibem como exemplos de grande probidade, que exigem aos outros tudo e mais um par de botas e depois quando olhamos para eles ficamos de queixo caído ao ver tamanha falta de “vergonha na cara”.
Exemplo: a maneira como famigerada Lurditas Rodrigues – que tanto apregoava a meritocracia – arranjou o seu tachito na ISCTE. E mais não digo…
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