Carta de Ano Novo a um@ Director@ imaginári@

 

 

Car@ Director@:

Escrevo esta carta ciente de que, e como frequentemente afirmas, os teus afazeres são muitos e complexos e que, por isso, talvez te falte algum tempo para te dedicares aos aspectos mais simples do teu cargo, como escutar os teus subordinados… E escutar não é o mesmo que ouvir, como tu bem sabes… Muitas vezes ouves, mas não escutas, não prestas atenção ao que te está a ser dito, nem valorizas o conteúdo da mensagem…

Sobretudo se a mensagem não estiver de acordo com as tuas convicções sobre determinado assunto, é comum mostrares a tua postura mais “persuasiva”, inevitável eufemismo de uma atitude autoritária e prepotente…

Nessas situações é habitual observar-se a tua irritação, com fins previsivelmente intimidatórios, acompanhada, quase sempre, de uma intensidade sonora bastante superior à expectável e desejável… Mas os decibéis não são sinónimo de que tenhas razão, são apenas uma manifestação da tua vontade, muitas vezes, obstinada e irredutível… Na verdade, car@ Director@, não precisas de gritar e também não precisas de humilhar ninguém, muito menos na presença de outras pessoas… Apontar defeitos ou falhas é algo que só deveria acontecer em privado, como tu bem sabes, mas talvez já tenhas esquecido… Além disso, deves aos teus subordinados a mesma lealdade institucional que, legitimamente, esperas deles…

Talvez, ainda, não o tenhas percebido, mas, e ao contrário do que talvez pretendesses, esse comportamento exacerbado não é compatível com a elevação do cargo que desempenhas, nem honra as tuas funções. Pelo contrário, fragiliza-te perante os teus subordinados, tornando-te num alvo facilmente ridicularizável. Os excessos originam, quase sempre, algum tipo de caricatura…

E, sim, todos sabemos, há muito tempo, que és tu @ Director@, não precisas de o continuar a apregoar sempre que te sentes contrariad@ ou como forma de justificares algumas decisões… Todos conhecemos e respeitamos as hierarquias existentes na escola…

Car@ Director@, a comunicação entre ti e os teus subordinados costuma decorrer, mais ou menos, desta forma: a maioria diz-te apenas aquilo que sabe que tu queres ouvir; outros nunca ousam dizer-te sequer o que pensam e outros, poucos, dizem-te o que realmente pensam e são, muitas vezes, considerados como uma espécie de “proscritos” ou como indesejáveis, sobretudo se as suas opiniões forem contrárias às tuas ou diferentes das mesmas…

Car@ Directo@, também já se percebeu que te rodeaste de uma espécie de “rede de informadores” e que, por vezes, te vanglorias de saber tudo o que se passa na “tua” escola…

Mas a informação que te é veiculada por essa via pode estar deturpada, pode não corresponder à realidade e impossibilita, se for o caso, o exercício do contraditório; e o poder informal que concedes a esses “informadores” gera revolta, repúdio e incompreensão nos restantes subordinados… O incentivo à delação é algo pernicioso, indigno e vergonhoso… Além do mais, há outras formas muito mais justas, transparentes, leais e fidedignas de recolher informação, seja ela de que natureza for…

E, lembra-te, que a maior parte dos teus subordinados, como profissionais responsáveis, competentes e diligentes, não precisa de ninguém para os “vigiar”… Ser facilmente influenciável por intrigas ou mexericos é algo que não se espera de um líder…

Car@ Director@, um líder deve suscitar o respeito dos seus subordinados e não aspirar a impô-lo; o reconhecimento da autoridade e do respeito por parte dos subordinados em relação ao líder não se faz por via da imposição, mas através da confiança recíproca, assente na negociação e no comprometimento mútuo; um líder escuta os seus subordinados; admite, perante os mesmos, os seus erros quando os comete; delega, não centraliza o poder em si próprio e não toma decisões unilateralmente; um líder não instiga jogos de poder nem cria pequenos grupos “confiáveis”, constituídos apenas por subordinados que jamais assumirão qualquer divergência ou desacordo consigo; um líder (re)conhece as dificuldades e as especificidades profissionais dos seus subordinados…

Car@ Director@, tu não nasceste Director@, tu quiseste tornar-te Director@. E isso foi uma opção e uma escolha pessoal, de vida e de carreira, apenas imputável a ti própri@ e, sendo assim, não é legítimo impor as respectivas consequências a terceiros. E se considerares que tal é inaceitável, podes sempre renunciar ao exercício do cargo. Não és nenhum “mártir”, como às vezes pretendes insinuar…

Car@ Director@, o conformismo de alguns subordinados não significa concordância com as tuas decisões. Significa, quase sempre, evitamento do conflito directo contigo. O agastamento e o desassossego que um conflito pode provocar, sobretudo numa relação de poder desigual, fá-los, muitas vezes, remeter-se ao silêncio. Mas não te iludas, car@ Director@, esse silêncio também é imposto pela tua, não rara, censura ou arrogância e oculta descontentamento e mal-estar… Também é possível comunicar pelo silêncio. O silêncio, às vezes, também “fala”, assim se procure ou se queira compreender o seu significado…

Na “tua” escola, lamenta-se, mas reinam as aparências, a paz simulada e o “faz-de-conta”. A Democracia participativa parece ter ficado no lado exterior do portão da escola, impedida de entrar… E uma tão visível, reiterada e incondicional subserviência ao Ministério da Educação também não abona em teu favor e é frequentemente geradora de desdém e de desconfiança…

E, por favor, não compliques, nem mandes complicar, aquilo que é simples. Tornar tudo mais difícil não é sinónimo de competência nem de eficácia…

A “tua” escola é gerida à tua imagem, é o teu “espelho” e parece estar ao serviço dos teus interesses. Mas essa não é a nossa escola. Uma Escola Pública não pode ser isso e tem que ser muito mais do que isso…

Car@ Director@, termino com uma frase comummente atribuída a Luís de Camões e que merecerá, por certo, a tua melhor atenção e reflexão: “Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos”.

 

Car@ Director@, à parte tudo o anterior, desejo-te um (sentido) Feliz Ano Novo!

 

P.S.: Car@ Director@, espero, convictamente, que o retrato apresentado seja apenas o resultado de um inusitado devaneio, a que todos, de vez em quando, têm direito…

 

(Matilde)

 

 

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21 comentários

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    • gin on 30 de Dezembro de 2020 at 13:56
    • Responder

    Lindo!

    • Alves on 30 de Dezembro de 2020 at 14:03
    • Responder

    Já a mandaste ao Arlindo?

      • Alecrom on 30 de Dezembro de 2020 at 22:43
      • Responder

      Subscrevi a Matilde, não o Zeca.

    • cag on 30 de Dezembro de 2020 at 16:35
    • Responder

    Touché!

    • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 30 de Dezembro de 2020 at 16:37
    • Responder

    Muito bem Matilde, parabéns!

    Século IV a. C.:
    Em Antígona, de Sófocles, um dos seus Guardas responde ao Rei de Tebas, Creonte, “O que não agrada, a gente hesita em dizer.” Mais à frente, Creonte, que condenara Antígona à pena de morte por desobedecer à sua lei, diz-lhe, “Em Tebas só tu assim consideras as coisas”, a qual responde, “Eles pensam como eu; mas, para te agradar, silenciam…”

    Que falta fazem já os Clássicos. Com a flexibilização e afins nunca mais… A regressão civilizacional é hoje uma realidade.

      • António Jaquim on 30 de Dezembro de 2020 at 20:42
      • Responder

      Gostei do seu comentário – não muito da carta. [os diretor@s estão lá porque nós o permitimos. Enfim, balelas…].
      Bom Ano!

    • Carlos on 30 de Dezembro de 2020 at 18:06
    • Responder

    Grande texto. Parabéns.

    Já agora, no segundo período não temos direito a máscaras?

      • Zeco com orgulho e sem preconceito. on 30 de Dezembro de 2020 at 18:39
      • Responder

      Pela minha parte, há mais de 30 anos na mesma escola, é-me indiferente quem seja no momento o Diretor. Faço o meu trabalho e cumpro-o religiosamente. A partir daí nunca tive problemas com as direções e sempre houve um respeito mútuo.
      Todos nós sabemos que ,tal como os alunos, há colegas menos cumpridores e estes ,obviamente, deverão ser chamados à razão para nque não se tome a parte pelo todo.
      Festas Felizes a todos os colegas, diretores ou não.

    • Alecrom on 30 de Dezembro de 2020 at 18:37
    • Responder

    Subscrevo (na íntegra).

      • Zeco, mesmo on 30 de Dezembro de 2020 at 19:03
      • Responder

      Não. Não subscrevo e até aposto que o zeco é um dos bufos do diretor… algures entre os coordenadores e o CG… Ah, e tem sido agraciado com MB pelo grande líder. Só assim se entende o “apontar do dedo” aos colegas. Típico de que se alimenta das, corruptas, teias do poder.

    • Luís on 30 de Dezembro de 2020 at 19:07
    • Responder

    Parabéns e obrigado, Matilde.
    Assino, na íntegra.

    • Atento on 30 de Dezembro de 2020 at 21:07
    • Responder

    ————
    —————————–

    Esta imagem do “dirotorzeco” só é possivel num grupo profissional de acéfalos e covardes.

    É bom lembrar que aqueles que dirigem as escolas – ditos, diretores – são professores eleitos para essa função.

    O professorado do ensino publico sempre deixou muito a desejar, mas agora está em degradação total.

    Sinto NOJO daquilo que ainda designam de “escola pública” e que mais não é do que um Centro Assistencial gerido e trabalhado por uma maioria de mentecaptos.

    ————-
    —————————

      • Artur on 30 de Dezembro de 2020 at 22:19
      • Responder

      Subscrevo na integra. Os comentários que aqui leio estão cheios de ódio e rancor, mas reconheço que muitos do que aqui escrevem no anonimato não passam de uma minoria. E são esses que dão mau nome à profissão de professor e que são pagos pelos contribuintes para exercerem-na com profissionalismo. Se são infelizes como professores, é o momento de abraçarem novos desafios e de procurarem o lugar onde poderão ser felizes, mas principalmente livres. Livres de horários, de colegas lambe botas, de bufos, de diretores, de alunos, mas principalmente da Escola.
      Um Bom Ano 2021

      • Atento, mesmo! on 31 de Dezembro de 2020 at 13:22
      • Responder

      (Des)Atento:
      “É bom lembrar que aqueles que dirigem as escolas – ditos, diretores – são professores eleitos para essa função.”
      ELEITOS????????
      Por quem ??????
      Numa reunião salazarenta feita às escondidas numas catacumbas, tipo KKK, a que chamam CG????!!!!!
      Mentecapto é quem não vê o óbvio.
      Ódio???
      Sim, pelas ditaduras.
      O atual modelo de gestão está entre elas.
      Os diretores são uma espécie “bokassas” ou de “mobutus”…

        • Fernando, el peligroso de kas verdades. O palhaço anda aí. on 1 de Janeiro de 2021 at 0:25
        • Responder

        Mobutu és tu, seu palhaço!6

          • Com certeza! on 1 de Janeiro de 2021 at 10:30

          Touché, ditadorzeco, ou melhor, diretorzeco!!!!!!!

        • Bem comparado! on 1 de Janeiro de 2021 at 10:49
        • Responder

        São mais mobutus, poder anti-democrático e por várias décadas (até morrer)…
        Nota: estes ditadores também se diziam eleitos… pelo conselho geral deles!!!!!!

    • Afonso on 30 de Dezembro de 2020 at 22:58
    • Responder

    Parabéns e obrigado, Matilde.
    Subscrevo, na íntegra.

    • Luís Manuel Braga on 31 de Dezembro de 2020 at 2:55
    • Responder

    Eu também subscrevo a carta na íntegra.
    Espero que nem todos os directores possam aí estar retratados. Não estarão, mas muitos deles deverão, para mal de uma sã convivência democrática nas nossas escolas, estar a ver-se ao espelho.
    Eu tive a sorte de ter tido um que, tendo vindo da saudosa “escola” dos presidentes de conselho directivo, aguentou-se razoavelmente. Quando ascendeu -ascendeu?- a director, preocupou-se em nos fazer crer que não tinha mudado. Que era ainda a mesma pessoa. A realidade é que, apesar de não ter resvalado muito, resvalou mais do que devia.
    Por fim o “moço” reformou-se e o seu lugar foi ocupado por uma personagem que, segundo consta, bem relacionada no meio partidário do poder e, aparentemente, com ambições para mais altos voos.
    A personagem parece andar feliz, mas os subordinados parece que nem tanto.
    A arrogância foi logo evidenciada na primeira reunião geral. Mostrou logo ali ao que vinha e como vinha, ao negar-se liminarmente a responder sobre actos da sua gestão, alegadamente muito irregulares.
    Enfim, cenas que decorrem de uma cultura política muito usual nos tempos que correm. Que entende a democracia como algo que se realiza apenas no acto do voto. Gente que professa uma cultura arrivista, infelizmente não compatível com os espaços da cidadania e do saber que parecem querer arredar das nossas escolas.
    Não sei se se pode ou deve generalizar o facto de haver uma certa predisposição para ocuparem estes cargos, indivíduos com uma formação académica insuficiente e ou deficiente. Sei de muitos directores oriundos de grupos de docência, regra geral, de fraca escolaridade, tal como os antigos professores de trabalhos manuais/oficinais e, mais recentemente, educação tecnológica.
    Também começa a ser vulgar antigos professores do ensino primário ou mesmo alguns, como parece ter acontecido com a ministra de má memória, Maia de Lurdes Rodrigues, que nunca terá leccionado e até omitia esse aspecto do seu curriculum.
    No fim, tudo situações patéticas e até patetas. Sim porque, mercê do nosso provincianismo – não sendo mauzinho – para alguns deles só se é digno se se tiver um “canudo” sonante.
    Em vez de se realizarem no que lhes desse maior prazer, com licenciatura, doutoramento ou sem nada disso mas uma boa formação profissional, vivem e sentem-se diminuídos. Infernizam a vida aos seus “subalternos” numa disfuncionalidade que não passa dum processo de sublimação das suas mesquinhas invejas.

      • maria on 31 de Dezembro de 2020 at 10:25
      • Responder

      1- Aos empertigados srs. directores : façam o favor de saber em que consiste o “efeito Dunning -Kruger” , de que tanto sofrem .

      2- Aos senhores professores : façam o favor de não se acobardarem ; metam as medianas criaturas “na linha” !Ou têm medo de ser despedidos ? Ou receiam uma qualquer reles vingança – na feitura do horário lectivo , por exemplo ?

    • Tolinho on 31 de Dezembro de 2020 at 15:39
    • Responder

    Mais um coitado que acha que os outros é que são idiotas, pois não enxergam que ele é um guru. A fazer lembrar os nossos maus alunos, ou os papás destes, que acham que o professor é que ensina mal. As várias notas de 17,18,19 ou até 20 obtidas pelos seus colegas é porque estes são graxistas, bufos, hipócritas… ou o que quer que seja. Lamento a azia destes e daqueles.
    Festas Felizes e comam muitos,muitos, doces,

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