Desde setembro que a minha vida se cumpre entre a casa e a escola, com o trajeto entre um ponto e outro a surgir como prelúdio de outra música cujo refrão termina em Covid. O dicionário diz-me que prelúdio é uma peça musical que antecede outra, como é o caso, por exemplo, das “fugas”, e confesso que nunca um género musical rimou tanto com os meus sentimentos.
Quem me conhece, mesmo vagamente, sabe que gosto de brincar com a arte da culinária, como gosto de brincar com as palavras, com todo a ausência de pretensiosismo que é possível imprimir em algo que mais não é do que divertimento (num caso como no outro).
Esta é uma receita imaginária, bastante económica – diria mesmo que traz grandes ganhos –, perfeita para ser saboreada num país que vive sob o espectro de dificuldades cada vez maiores. Poderá, em certas regiões do país, ser difícil encontrar à venda alguns ingredientes, em especial para o recheio crocante. Nesses casos, poder-se-ia experimentar substituir os professores por outras classes profissionais, mas dificilmente o amontoar deles nas quantidades necessárias para a receita acontece nos tempos que correm.
Vamos apenas imaginar que vivemos num país em que a maior parte dos professores tem mais de cinquenta anos. Excetuando o vinho do Porto, não me recordo, assim de memória, de algum produto que mantenha a validade com esse peso do tempo em cima. Em consequência, receio que apenas um cozinheiro jovem e ainda criativo, certificado por experiência adquirida no estrangeiro, esteja apto a concretizar esta receita, porventura munido de um saber inacessível a todos nós, meros admiradores menores desta arte maior.
Enfim, como cozinhar não requer palavras, avancemos com a boa vontade das mãos (que, curiosamente, também servem para escrever a receita que se segue).
Preparação:
Batem-se bem os professores e os alunos, até se obter uma mistura bem espumosa e homogénea. Este passo pode ser executado numa máquina “mini” com som estéreo. Também é viável bater à mão. O que verdadeiramente importa é que a mistura fique consistente, com os ingredientes bem unidos. A proporção será de um professor para (sejamos poupados) vinte e sete alunos. Mais do que um professor já será abusar desnecessariamente desta substância. Adicionalmente, como a maioria dos professores cultivados neste jardim tem mais de cinquenta anos, é preciso garantir previamente que este ingrediente, por se encontrar mais ressequido pelo tempo, ficou bem moído ao passar pela peneira. Este processo é bastante demorado até se obter a moagem perfeita: três meses, no mínimo.
Junta-se o ar da sala lentamente, durante um período de 90 minutos, envolvendo tudo em ventilação reduzida ou nula e nos gritos de protesto dos alunos por causa do frio que os tolhe (para a ventilação, é essencial escolher janelas que só abram obliquamente dez centímetros no topo). Esta instrução deve ser repetida pelo menos três vezes para ser eficaz, permitindo despertar e misturar todos os eflúvios que pairam na sala.
Transfere-se, depois, a massa obtida para um tabuleiro forrado com papel vegetal (serve qualquer outro tipo de papel usado nas escolas), untado com óleo.
Coloca-se na grelha do forno, pré-aquecido a 200˚ até dourar e estalar, mas sem deixar chegar ao fim, à reforma, fazendo o teste do palito. Retira-se assim que este sair seco. Não esquecer de utilizar uma das muitas grelhas educacionais disponíveis na cozinha.
Ter em atenção que cozinha muito depressa, entre dez a quinze minutos. Se demorar mais tempo, corre-se o risco de ficar irremediavelmente estragado.
Desenforma-se sobre reuniões presenciais polvilhadas com papéis mascavados e junta-se também raspa de discussão, que é opcional e não deve ser utilizada com sobranceria, por causa da acidez.
Cobre-se com o recheio de professores que ficou em vasilha à parte, depois de ter sido passado na sertã para o tornar crocante, e enrola-se.
Deixa-se arrefecer enrolada no pano, só transferindo para um prato depois de fria. Ou de morta.
Jorge Pinho