Em 1988, Carlo Cipolla publicou uma obra notável e desconcertante: “Allegro ma non troppo”, na qual incluiu um Capítulo dedicado à análise e à explicação da estupidez humana: “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”.
Vem isto a propósito de algumas decisões, alegadamente tomadas por cert@s Director@s, quanto à realização de reuniões de Conselhos de Turma com carácter presencial obrigatório ou a outros veredictos como impor a “Lei da Rolha” aos seus subordinados ou ameaçar com processos disciplinares a quem ouse contrariar as respectivas ordens, deliberações essas, por um lado, absolutamente incompreensíveis no actual contexto de pandemia e, por outro, perfeitamente patéticas, atendendo ao Estado de Direito onde (ainda) vivemos e ao Direito de Opinião conferido por esse Estado.
Despretensiosamente, aqui fica um breve resumo do Capítulo anteriormente referido, na esperança de que a respectiva (re)leitura por algumas pessoas lhes possa provocar algum tipo de “epifania” e as possa tornar mais inteligentes, mais racionais e mais sensatas:
1ª Lei: O número de indivíduos estúpidos que existe no mundo é sempre, e inevitavelmente, subestimado;
2ª Lei: A probabilidade de um indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras suas características, pelo que os estúpidos estão em todos os grupos e por todo o lado;
3ª Lei: É estúpido aquele que provoca uma perda noutro indivíduo, embora ele próprio não retire nenhum benefício dessa perda e eventualmente até cause a si mesmo algumas perdas ou danos. A vontade de causar males e perdas aos outros, sem retirar daí qualquer proveito próprio, prevalece na maioria dos estúpidos;
4ª Lei: O poder destruidor dos estúpidos torna perigosa a associação aos mesmos e não deve ser subestimado. O ser humano racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido;
5ª Lei: O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso, mais perigoso do que um bandido. A capacidade destruidora do estúpido liga-se à posição de poder que o mesmo ocupa. A sua capacidade de prejudicar torna-se mais devastadora consoante o cargo de poder que ocupa.
Na lógica anterior, desconhece-se se, e pelas palavras de Carlo Cipolla, algum@ Director@ se enquadra na sua definição de “estúpido”, apesar de se acreditar que tal julgamento cabe, em primeiro lugar, aos próprios, mas também aos seus subordinados…
E só para relembrar, a Constituição da República Portuguesa refere no seu Artigo 37º, nº1 e nº2, expressamente o seguinte:
“Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.”
O “delito de opinião” não está sequer previsto na Constituição Portuguesa e impor autoridade ou respeito não é o mesmo que conseguir conquistá-los…
(Matilde)




8 comentários
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Olha, quem fala!
Não te enxergas?
Conseguias dar essa imagem de ti próprio/a sem o anonimato que aqui temos?
Muito bem Matilde.
Se me permite eu fazia outra aproximação ao fenómeno:
Na tragédia grega “Antígona”, de Sófocles, o Corifeu, em tom bajulador, a lembrar os sócios que o diretor tem no CP, virou-se para o Rei, Creonte, e disse: “Tu és o senhor, e a ti compete impor a lei que te convier, tanto aos vivos, como aos mortos”. Mais lá para a frente, Creonte faz ver com veemência a forma de como tudo deve ocorrer à sua volta, dizendo: “Não convém, pois, exibir um caráter altaneiro, quando se está a mercê de outrem”. Antígona responde ao seu tio com uma enorme sabedoria, primeiro, “um dos privilégios da tirania consiste em dizer, e fazer, o que quiser”, e, em segundo remata assim: “Eles (os membros do CP) pensam como eu; mas, para te agradar, silenciam…”. Creonte não se fica e quer muito que as reuniões sejam presenciais, vai daí e diz, “O homem que a cidade escolheu para chefe deve ser obedecido em tudo, quer seus atos pareçam justos, quer não.” Até o próprio filho de Creonte, Hémon, tenta demover o seu pai do incumprimento, fazendo-o ver que o exercício do poder deve ser partilhado em sede de CP e em favor da sua comunidade educativa, “Só num país inteiramente deserto terias o direito de governar sozinho”.
Mais de 2000 anos passados e não aprendemos nada.
O cristianismo também apela à obediência ao senhor (com minúscula – o senhor terreno) ainda que ele seja profundamente injusto.
Robespierre ou Marx achavam que os fins justificavam os meios, fossem eles o terror ou a mais obscena ditadura.
Olha, quem fala!
“A capacidade destruidora do estúpido liga-se à posição de poder que o mesmo ocupa. A sua capacidade de prejudicar torna-se mais devastadora consoante o cargo de poder que ocupa”.
E os meus filhos que continuam a querer tentar futuro em Portugal…
Gaita p’ra isto!
Ps. Colega Matilde, os teus textos tocam fundo a consciência. Obrigado!
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Há muitas setoras e setores que foram para Direções de Escolas com grau de estupidez elevado, diria que são umas autenticas BESTAS QUADRADAS.
Tenho pena de não apanhar uma destas BESTAS QUADRADAS para lhe Escarrar na Cara e ver a osga e/ou bisgo a escorrer-lhe pelo Focinho.
A generalidade dos professores e funcionários nas Escolas são muito fofinhos se não isto aquecia….diria mesmo que até fervia.
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Nas 20 e tal escolas por onde passei já apanhei do melhor e do pior no que diz respeito a colegas. Sim, não nos esqueçamos, o director é mais um colega com outro tipo de funções, ainda que a alguns essa função lhes tenha subido à cabeça. Daí que generalizações anti-diretores são uma forma de simplificação da realidade tão estúpida como qualquer outra. Mas quando um estúpido chega ao poder só há uma coisa a fazer – exigir que as ordens que dá sejam redigidas por escrito e denunciar os atropelos à lei. Já me aconteceu há alguns anos uma directora dar-me ordens erradas para fazer uma alteração numa avaliação e, quando confrontada pelo EE, acusou-me a mim e não assumiu que tinha sido ela que me tinha exigido que fizesse a alteração. Ordens, só por escrito, assim basta fazer o foward quando necessário.