Desespero com precariedade leva professores e investigadores da UPorto a emigrar
Sacrifício pessoal, resiliência durante décadas, sentimentos de impotência sobre as políticas para a investigação científica e a emigração são algumas das armas usadas pelos investigadores e professores da Universidade do Porto (U.Porto) para combater a precariedade.
“Senti-me, de certa maneira, coagido pela situação. Não pela Universidade do Porto em si, mas senti que a situação em Portugal era crónica, não vi luz ao fundo do túnel, não vi medidas a serem estabelecidas e, portanto, apesar do meu esforço e do meu investimento e dedicação (…) chegava ao fim da linha”, desabafou Pedro Figueira, 35 anos, astrónomo que trabalhou nos últimos oito anos no Centro de Astrofísica da Universidade do Porto e que emigrou para o Chile.
Formado em Física, especializado em astronomia pela Universidade de Lisboa e com doutoramento no Observatório de Genebra (Suíça) em 2010, Pedro Figueira está a trabalhar no European Southern Observatory (ESO), uma organização intergovernamental de pesquisa consagrada pela construção e operação de alguns dos maiores e mais avançados telescópios baseados no planeta Terra devido à situação de “grande instabilidade” da ciência em Portugal.
Assume que decidiu ir para o Chile depois de ver chumbado pela Universidade do Porto o requerimento para o Programa de Regularização Extraordinária dos vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP).
A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) vai avançar na quinta-feira com acções em tribunal para contestar ultrapassagens na carreira por parte de docentes com menos tempo de serviço, alegando inconstitucionalidade, adiantou a estrutura sindical em comunicado.
As primeiras quatro acções vão ser entregues nos tribunais administrativos de Lisboa, Porto, Coimbra e Beja, estando ainda prevista a entrega, em momento posterior, de uma acção no tribunal administrativo do Funchal.
Em causa, segundo a Fenprof, estão 56 mil docentes dos quadros, que entraram na carreira até 2010, antes do início do congelamento da carreira, e que são ultrapassados por cerca de 11 mil docentes que entraram nos quadros no período do congelamento e que conseguiram agora ser reposicionados no escalão de carreira a que corresponde o tempo de serviço já prestado.
“Embora a todos o Governo continue a roubar mais de 6,5 anos de serviço que esteve congelado, os primeiros também perderam, em média, quatro anos, em 2007 e 2009, com as transições então verificadas entre diferentes estruturas de carreira. Por causa destas perdas, todos os professores que ingressaram até 2010 e se encontram nos primeiros quatro escalões da carreira, e, também, alguns do 5.º [escalão], estão cerca de quatro anos (tempo de um escalão) atrás dos seus colegas com igual tempo de serviço, tendo, ainda, sido ultrapassados até por colegas com menos dois ou três anos de serviço”, lê-se no comunicado da Fenprof.
A federação sindical recorda que o próprio Tribunal Constitucional já tinha decidido pela inconstitucionalidade destas situações.
“De acordo com o Acórdão n.º 239/2013 do Tribunal Constitucional, esta ultrapassagem de docentes com maior antiguidade por outros de menor antiguidade é inconstitucional, sendo esse o motivo que leva os professores, representados pelos Sindicatos da Fenprof, a recorrer aos tribunais”, acrescenta a estrutura sindical.
A Fenprof explica que o que vai ser pedido aos tribunais não é a reversão do reposicionamento dos 11 mil docentes que o conseguiram, mas o posicionamento correcto dos 56 mil docentes que podem ter sido ultrapassados.
“Não são, de modo algum, postas em causa a legitimidade, a justiça ou a legalidade do reposicionamento, mas sim a inconstitucionalidade da ultrapassagem, devendo, sim, acontecer como em 2013, em que o Tribunal – no caso o Tribunal Constitucional – determinou que os professores ultrapassados fossem posicionados pelas escolas em situação de igualdade com aqueles que os tinham ultrapassado”, lê-se no documento.
Segundo a Fenprof há já “uma extensa lista de professores” que serão representados em tribunal pelos sindicatos da federação, assim como uma lista, “igualmente grande” de docentes reposicionados solidários com os colegas ultrapassados que disponibilizaram os seus dados para serem usados em tribunal.
“Recorda-se que o reposicionamento produziu efeitos a Janeiro de 2018, portanto, há mais de um ano, o que permitiu consolidar a situação de carreira de quem foi abrangido por ele. Deste posicionamento deverá, isso sim, resultar um tratamento igual para quem já se encontrava na carreira em 2010”, sublinhou a Fenprof.







A boa leitura – sem espinhas…:




