A vida de um futuro ex-professor por Marco Pedrosa

A vida de um futuro ex-professor

O Ministério da Educação promete vincular mais de 10.000 professores. Coisa boa esta, parece logo à partida. Contudo, como se sabe, o diabo está nos pormenores. E que pormenores estes!

Muita tinta já correu por conta dos professores. Muitas manifestações, muitas greves, muita revolta e insatisfação. As manchetes com que nos deparámos nas últimas semanas, felizmente, não deixam que isso passe despercebido. Muitas notícias, reportagens, entrevistas, conferências de imprensa. Muitas verdades e muitas mentiras foram noticiadas, como é normal. Muita informação e, convenientemente, muita desinformação também. Creio que não haverá hoje um português que não saiba que queremos a recuperação do tempo de serviço roubado, o fim das cotas nos escalões que as têm, um aumento de salário e respeito.

Estas coisas todos sabem que queremos, mas não as dão. Sabem também que queremos deixar de andar com a casa às costas, o que acontece há tanto tempo que já se considera normal um professor ter que fazer centenas de quilómetros por semana para poder trabalhar. Esta informação, todos conhecem.

Mas depois vem a desinformação: o Ministério da Educação, pela pessoa do senhor ministro da Educação, assim como pelo próprio primeiro-ministro – com toda a confiança que um político profissional consegue transmitir em qualquer frase que emita –​ tenta convencer-nos de que vai acabar com isso, vinculando mais de 10.000 professores. Coisa boa esta, parece logo à partida. Contudo, como se sabe, o diabo está nos pormenores. E que pormenores estes!

Para facilitar o entendimento, passo a explicar como é que esta medida, apregoada como positiva, se transforma imediatamente numa medida que me levará a abandonar o ensino:

– Sou professor há 19 anos. Nessa altura, o único local em que consegui emprego foi a 250 quilómetros de casa. E assim abandonei a minha querida terra, onde estavam os amigos de sempre, a família, as atividades, a vida. Não me queixei.

– A minha esposa, que padece da mesma “doença” (também é professora), veio também para perto de mim, seis meses após o nascimento da nossa filha mais velha. Entre horários de seis horas, oito e, por vezes, com muita sorte, de 14 horas, lá foi arranjando colocação num raio de 50 km.

– Este ano, graças à tal vinculação dinâmica (para que o Governo cumpra a mesma obrigação que impõe aos privados), eu e a minha esposa estamos em condições de vincular. Seria um passo importantíssimo para, aos 46 anos, ter alguma estabilidade laboral.

– De acordo com as regras desta vinculação, no próximo ano letivo (2023-2024) eu ficarei a dar aulas num raio de cerca de 80 km de casa, e ela num raio de 30 km, tendo em conta os nossos locais de trabalho atuais. Menos mal, não é?

– As mesmas regras obrigam a que, em 2024, ambos tenhamos de concorrer ao país todo. Sim, da ponta norte à ponta sul, entre Espanha e o atlântico. Um ano de sacrifício?

– Para finalizar em beleza, quando vincularmos nesse ano (ano letivo 2024-2025), onde quer que seja (estou a apontar para Lisboa e Algarve), temos de ficar lá! Um ano? Dois anos? NÃO: SEMPRE! Sim, isso mesmo, sempre.

– Traduzindo para miúdos: eu vinculo, por exemplo, em Lisboa e ela no Algarve. Aí ficaremos definitivamente.

Pergunto:

Como pago três casas (a minha, em Leiria, uma em Lisboa e uma no Algarve)?

Quando vejo a minha mulher? Divórcio?…

E às minhas filhas, de 15 e 13 anos, o que lhes faço? Passam uma semana em Lisboa e outra no Algarve, alternadamente? Mudo-as de escola? Para onde?

Como é que podem obrigar as pessoas a isto? Em que mente doentia nasce uma ideia destas? É sério? É honesto? É justo? É são?

Querem obrigar-me a escolher entre a minha profissão e a minha família!

Eu respondo: é uma não-questão. Se alguém, na zona de Leiria, quiser dar emprego a um tipo de 46 anos, que foi professor durante vinte anos, por favor, apresente-se…

 

Marco Pedrosa

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19 comentários

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    • Luluzinha! on 8 de Março de 2023 at 22:21
    • Responder

    A partir do momento em que o comentário se centralizou no drama pessoal e doméstico (a esposa (sic), as filhinhas, a casa de Leiria… deixou de ter interesse. Francamente, não há paciência para este tipo de discurso!

      • ApacheDraco on 8 de Março de 2023 at 22:38
      • Responder

      A vida real não importa, o importante é desenhar um mundo de ficção onde é tudo belo, isto é, trabalhar para a fotografia, deve ser isso que faz na escola de certeza.
      Enfim.

      1. luluzinha P.S. malabarista! Eu manjo-te aqui do Porto!

    1. Já não há paciência é para ler os seus comentários sempre tristes e inoportunos. Quando não tiver nada de útil a acrescentar é melhor não se dar ao trabalho de comentar!

      • ginbras on 9 de Março de 2023 at 9:35
      • Responder

      A Lulu fala assim porque é solteirona e não tem filhos e não sabe o que são estas emoções!
      Professor? É só uma profissão. Eu por acaso estou colocado a 20km de casa, assim como a minha mulher. Vejo a minha filha todos os dias a horas decentes.
      Para isso acontecer, estive os primeiros 3 anos da vida minha filha longe de casa (sou do norte e fiquei no Alentejo e Açores) Tive que regressar aos Açores tinha a minha filha 6 meses.
      Mas garanto ao colega, nunca mais farei outro sacrifício destes..abandonaria a profissão com todo o gosto! Mesmo!
      ps: colega…se realmente ainda tem vontade de ser professor, tente os Açores e leve a família consigo

    • António Gomes on 8 de Março de 2023 at 22:33
    • Responder

    vai-te f…..

    • gera on 8 de Março de 2023 at 23:02
    • Responder

    Luluzinha… quem és tu para tecer comentários desses? alguma vez estiveste numa situação destas?
    Deves ter bolsos largos… ou então deves ter como tio um tal ministro…

    • Tretas on 8 de Março de 2023 at 23:11
    • Responder

    Deixai-vos de tretas.
    Pensais que algum dia vai ser resolvido o problema das colocações longe de casa?
    Estais muito enganados!
    Se quereis ser professores, tendes de gramar com isso.

    • José Pinto on 9 de Março de 2023 at 0:47
    • Responder

    A treta dinâmica nunca poderá ver a luz do dia. Simples.

  1. É impressionanate como sempre que se legisla para a Educação há a preocupação de tornar a situação dos professores mais difícil e geradora de divisões. Éum massacre constante.

    Mas se os concursos serão anuais, porque raio não se abre um concurso interno/externo com recuperação de vagas quer de QE quer de QZP de modo a que todos possam concorrer? Quando comecei a trabalhar a meados da década de 90 para sermos opositores aos QE (antiga 1ª parte) eram necessários 2 anos de serviço e para concorrer a QZP eram necessários ter 3 anos de serviço, obviamente que as vagas eram poucas e ter este tempo de serviço não era sinónimo de vinculação. No entanto, não havia estes atropelos.

    Bastava ter como requisito ter 3 anos de serviço e deixar as pessoas concorrerem pela graduação.
    A situação de instabilidade só se resolve com a abertura de vagas reais em QE e não com esquemas manhosos de critérios para apanhar uns e descartar outros.

    Afinal para que servirá a criação de 63 QZP´s e o slogan “acabar com a casa às costas? Eu respondo: Para obrigar os horários zero a concorrerem para o QZP correspondente à sua escola (ficam piores do que estavam), porque os QZP não adianta estarem vinculados num dos 63 QZP porque ficam obrigados a concorrer na mesma para 200KM (o seu QZP mais 3 adjacentes) e isto sim é obrigar a continuara “com a casa às costas”. Mas mesmo que queiram obrigar a concorrer para laém do QZP de vinculação, porque não podem os docentes concorrer para os QZP que querem. Se houver horário, ficam onde pretendem e se não houver paciência, aí terão de ir para a zona de vinculação. Mas qual é o problema? Não há falta de profs? continuando com a resposta: legitimar a criação do conselho de diretores que será uma fonte de discórdia e injustiças. Aliás eu acho que em certas zonas dada a competição entre escolas o próprio conselho vai autodestruir-se.

      • silv on 9 de Março de 2023 at 11:41
      • Responder

      Encontro-me numa situação quase semelhante. 19 anos a trabalhar a 2000kms de casa. Estou há ano e meio a trabalhar a 75 kms de casa. Aceitei, porque sempre é mais perto, mas a contar em ficar apenas 4 anos, pois, financeiramente e humanamente é insustentável continuar além desses 4 anos. Vou e venho todos os dias a casa. Não me deixando concorrer (sou QAE) para fora deste atual QZP, serei obrigada a mudar de emprego. Já ando à procura. Tanto sacrifício, tanto gasto e desgaste. Consegui ficar em QAE à custa de muito, sujeitei-me sempre a tudo e agora temos isto. Não! Não continuarei. Não consigo mais. Nem boa profissional serei desta forma. É uma ansiedade constante.

  2. Fui colocado à 20 anos atrás no QZP 7 – Lisboa, a 400km da minha residência, perdi muitas coisas importantes da minha família e até a família, sempre na esperança de aproximação, hoje quero que o sistema se fffff.

    • Nuno on 9 de Março de 2023 at 10:23
    • Responder

    Sabem quem irá assegurar o futuro da escola pública? Serão estes, os futuros recém-vinculados. Tratem-nos bem, com respeito e essencialmente com empatia. Duvido que hajam muitos colegas com idade inferior a 40 anos que vinculem, logo já existirá uma vida estabilizada. E muitos concerteza irão desistir com esta proposta vergonhosa. Espanta-me como é possivel que os sindicatos não invoquem esta questão como uma linha vermelha. Essa é A linha vermelha do que se está a discutir.E toda a discussão deveria se centrar à volta dela. Terá repercussões muito sérias a vários níveis. Mas mais grave que a proposta é a dificuldade criada para.a mobilidade. Vergonhoso é pouco.

  3. Colegas a Fenprof e a Fne já foram sindicatos! Hoje são apêndices de partidos com cartilha bem definida!
    A luta continua com todos os Docentes e não Docentes e com os objetivos há muito tempo traçados quer os Costas e afins estejam ou não recetivos.

    • silv on 9 de Março de 2023 at 11:37
    • Responder

    Encontro-me numa situação quase semelhante. 19 anos a trabalhar a 2000kms de casa. Estou há ano e meio a trabalhar a 75 kms de casa. Aceitei, porque sempre é mais perto, mas a contar em ficar apenas 4 anos, pois, financeiramente e humanamente é insustentável continuar além desses 4 anos. Vou e venho todos os dias a casa. Não me deixando concorrer (sou QAE) para fora deste atual QZP, serei obrigada a mudar de emprego. Já ando à procura. Tanto sacrifício, tanto gasto e desgaste. Consegui ficar em QAE à custa de muito, sujeitei-me sempre a tudo e agora temos isto. Não! Não continuarei. Não consigo mais. Nem boa profissional serei desta forma. É uma ansiedade constante.

    • silv on 9 de Março de 2023 at 11:47
    • Responder

    O governo quer a todo o custo enviar/fixar professores nas zonas mais carenciadas sem gastar dinheiro. Em França por exemplo, há escolas onde poucos docentes querem trabalhar por serem escola complicadas. Que solução encontraram? Um ano de serviço vale por dois na progressão da carreira e ainda lhes dão um prémio financeiro isento de impostos de cerca de 300 euros/mês.
    Para além disso, a um professor que viva a mais de 50 kms do seu local de trabalho é-lhe pago um subsídio ao fim do mês de ajuda de custos.
    Simples! Motiva, chama professores, os que querem, sem serem obrigados a pedirem para lá trabalharem.
    Existem contrapartidas.
    O tuguinha da treta é isso….obrigar, castigar…pensava eu que a ditadura havia terminado?! Afinal, está encoberta!

    1. Isso chegou a acontecer nas ilhas há uns anos. Principalmente nas ilhas mais remotas, havia um apoio de insularidade para quem lá quisesse trabalhar.
      Resultou…e resultou tão bem que passados uns anos até acabaram com esse subsídio porque já não era necessário.
      Não sei porque não fazem isso para as escolas da zona de Lisboa e Algarve que é onde reside o maior problema, apesar de já se notar e bem noutras regiões!

    • Marta on 9 de Março de 2023 at 16:34
    • Responder

    Colegas, quanto mais mexerem no estatuto da carreira docente pior será para todos os professores: Os políticos odeiam os professores/ a educação, porque querem um povo ignorante , bacoco e pacóvio, para eles reinarem (em terra de cegos…todos os regimes pouco desenvolvidos nada investem na educação!) e como os filhos das “elites” frequentam os colégios privados, com notas altas asseguradas, têm o reinado/sucessão também assegurado! É de pais para filhos, (amigos, compadrio e cúmplices das bandeirinhas) como se vê hoje já na Assembleia da República! Famílias que se perpetuam…Acreditem que é tudo premeditado! É que os professores são os únicos que podem mudar consciências, criar clarividência nas mentes dos nossos jovens, para não lhes fazerem lavagens ao cérebro! Para os politiqueiros, o professor é um ser muito perigoso!…

      • António Gomes on 9 de Março de 2023 at 19:07
      • Responder

      Na mouche!…

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