E o burro sou eu?

O governo pretende que em 2026 o salário mínimo atinja, pelo menos, 900 euros. Nada de mais justo para as pessoas poderem viver com o mínimo de dignidade… desde que houvesse o bom senso de atribuir iguais incentivos/atualizações salariais a todas as outras profissões com salários acima do mínimo, como acontece com os professores que não conhecem aumentos visíveis há quase década e meia. De lá para cá, com promessas a evaporarem-se no ar, o salário dos professores manteve-se inalterável, enquanto o salário mínimo duplicou e, com este aumento anunciado, em breve a diferença entre eles será apenas residual.
Creio que este género de políticas seletivas só contribuirá para afastar os jovens do interesse em prosseguir os seus estudos e investir nas suas qualificações para sua realização pessoal, mas também, convenhamos, para aspirarem a um emprego com melhor salário. Olhando para o custo-benefício, facilmente compreenderão que os jovens irão reconhecer que, financeiramente, será inútil investir na sua qualificação.
Veio-me à memória um ex-aluno aluno preguiçoso (como tantos outros que passaram pelas nossas aulas), que se baldava às aulas, moía o juízo e se estava nas tintas para os estudos, que pelo salário mínimo de 900€ poderá ficar a trabalhar perto de casa num emprego sem exigência de qualificações; o seu professor, que queimou as pestanas a formar-se, a tentar passar conhecimentos e a ajudar os alunos a se instruírem, com elevado grau de qualificações, formação contínua e grande responsabilidade em mãos, ganha os mesmos 900€, mas vai trabalhar para longe de casa e ainda se vê obrigado a gastar uma boa parte do salário em deslocações e/ou alojamento. Mesmo um professor que, ao fim de muitos anos de serviço, finalmente consiga entrar para o quadro, recebe pouco mais de 1.100€, mas descontando as tais despesas de contexto, ainda ficará umas centenas de euros abaixo do salário mínimo. E mesmo docentes a trabalhar há 30 ou mais anos, a deixar uma parte do salário nas estradas/hospedagem, dificilmente tirarão um rendimento superior ao salário mínimo.
A esta miséria salarial, ainda acresce o tempo despendido em deslocações, o enorme desgaste físico ao volante e psicológico provocado pelo afastamento da família e formação paga pelo próprio, fatores que o tal ex-aluno não tem de suportar.
Fazendo as contas à qualidade de vida e aos rendimentos, afinal quem é o esperto, o professor ou o ex-aluno que não quis estudar?
Será que, neste contexto, valerá assim tanto a pena um cidadão formar-se?
É este o incentivo que o governo encontrou para ter uma população mais qualificada que permita competir com outros países?
É esta a melhor maneira de atrair jovens para a profissão e colmatar a falta de professores?
Quando temos um país que não valoriza as habilitações e acha normal que os poucos jovens que tem qualificados vão trabalhar para as caixas de supermercado e call centers, nada há a acrescentar quanto à oratória hipócrita e populista dos nossos politiqueiros.
Quanto a esse tal ex-aluno preguiçoso a quem os professores insistiam para estudar para poder vir a ter um futuro melhor (não há pai ou professor que não o aconselhe) ao ver os desgraçados dos professores com vidas tão miseráveis e instáveis quanto os seus salários, suponho que pense “… e o burro sou eu?”

Carlos Santos

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15 comentários

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  1. Mal pagos, gastando dinheiro em deslocações e alojamento ficando com um ordenado líquido pequeno depois dessas despesas , longe da família . A pergunta que faço sem demagogia e infelizmente por vivenciar essa experiência é porque continuam ? Gostam da profissão ? Mas gostar da profissão deveria gerar felicidade , peço desculpa algo não bate certo. Sendo professores poderão ser bons profissionais outra atividade . No mínimo temos sempre três opções : sair , resignar que implica aceitar o destino e deixar a cultura do lamurio , alterar a situação internamente .
    O que vou escrever a seguir não é de maneira nenhuma uma falta de respeito pelos professores mas apenas um exemplo que em qualquer profissão há gente feliz quando há reconhecimento e salário , a ideia tb não é fazer publicidade encapotada mas dar apenas um exemplo de profissões que são menos exigentes . Uma empresa de distribuição espanhola presente em Portugal tem um salário de entrada de 932 euros em PT e de 1.424 em ES, com o ordenado a fixar-se nos 1.414 euros mês ao quinto ano de casa PT e em ES 1.929 euros . Distribuíram um ordenado extra como prémio em PT por lucros do ano passado .

      • Pernas sem Enciclopédia on 26 de Maio de 2022 at 11:35
      • Responder

      Conclui-se daqui que o melhor é estar tudo ao serviço de grandes empresas e com habilitações zero!
      Portanto, ensinar não é prioritário, não é um acto de preservação do saber, nem dos avanços humanos.
      O que interessa mesmo é comprar e vender e, claro, trabalhar barato para vendedores. Nem que vendam armas!
      Há é que ir fazer a entrega e nada de questionar, ou pensar.
      É já para ali, para a porta daquele armazém de pessoas pequenas!

    1. Talvez ande desatento, mas por alguma razão quase não existem novos professores!!
      Os atuais investiram forte numa profissão que hoje não lhes agrada de todo, mas meu caro, a grande maioria já tem mais de 50 anos… Essa história do “não estás bem, muda-te”, fica muito bem numas bacoradas para o ar, mas a realidade é que muito poucos, mesmo poucos, por muito bons que sejam, conseguem arranjar empregos decentes depois dos 50 anos, sendo que a sua especialização e experiência de 30 anos é na docência… Não lhe parece? (para al~em que custa sempre desisitir de um projeto acarinhado e sonhado durante anos!)
      Não resta outra hipótese se não aguentar ministros que apostam em desvalorizar a profissão (o expoente foi a Lurdinhas, mas esta-me a parecer que este lhe quer passar a perna…), gente que fala da profissão sem perceber patavina do que está a falar, alunos que percebem muito bem os sinais, e que reagem inteligentemente, ou seja, não fazem nada porque de facto não é preciso, etc., etc….

        • 5.ª pata pró karamba on 26 de Maio de 2022 at 17:04
        • Responder

        Não há mais dúvidas: hoje, o karamba deixou de lado a versão V55.7 do sardão e utilizou a 5.ª pata do burro. Está a delirar.

        • alter-ego on 26 de Maio de 2022 at 19:07
        • Responder

        Este tem o nome que merece! 😀
        Suposto alter-ego do professor Karamba, personagem bem conhecida do Idiotário Nacional, volta e meia vem para aqui arrotar umas postas de pescada com cheiro a podre, que destilam inveja mesquinha, suprema ignorância, evidenciando uma mais que provável incapacidade de aprender o mais básico que os professores lhe tentaram ensinar na escola.
        Como não diz coisa com coisa, insulta quanto pode.
        Querem ver…?

    • Advogado .diabo on 26 de Maio de 2022 at 11:41
    • Responder

    Passa os olhos nos cursos das ESES E PLANO DE ESTUDOS E VERÁS QUE OS PROFS SAO ESPERTOS.
    UNS MALHAM 5 ANOS OUTROS 2.

    • Topoaleguas on 26 de Maio de 2022 at 11:50
    • Responder

    Por isso, não se esqueçam de vir para professor e ganhar a fortuna de 1100 euros /mês.
    Mais vale ir lavar escadas e ganhar o ordenado mínimo.

  2. os primeiros dias de escola são fundamentais para correr bem daí para a frente e este ministro começou mal…

    • 5.ª pata pró karamba on 26 de Maio de 2022 at 17:05
    • Responder

    Não há mais dúvidas: hoje, o karamba deixou de lado a versão V55.7 do sardão e utilizou a 5.ª pata do burro. Está a delirar.

    • Alexandra on 26 de Maio de 2022 at 18:11
    • Responder

    Homem: todos os professores têm 5 anos de formação superior.
    É assim há 20 anos.

    1. até os docentes universitários tem formação de 5 anos

      somos todos iguais, somos todos professores quer sejam Professores Universitários, Professores do Ensino Secundário, Professores Primários e Bábás

      Tudo igual

      • Ana Duarte on 26 de Maio de 2022 at 18:39
      • Responder

      Não é assim há 20 anos. Desde Bolonha, mas são 4 mais 2 , quer seja Educação Básica, nas várias variantes, nas ESES ou nas Faculdades. Quanto ao plano de estudos é outra história. Convinha esclarecer bem os alunos…

      • Ana Duarte on 26 de Maio de 2022 at 18:45
      • Responder

      Em muitos casos é 3 mais dois, depende da instituição.

    • Teresa on 27 de Maio de 2022 at 15:18
    • Responder

    Aprendam a pesquisar e ajudem os vossos alunos a fazê-lo. Fracos professores para trabalharem em trabalho de projeto. Talvez tenha encontrado currículos do tempo da velha senhora. Desde Bolonha que os currículos são todos iguais em duração.
    UTAD-A opção pela realização da Licenciatura em Educação Básica permite, no fim do 1º Ciclo de Bolonha (180 ECTS – 3 anos letivos), escolher as especializações que habilitam para o exercício profissional como educadores de infância, professores do 1º ciclo do Ensino Básico (60 ECTS – 1 ano letivo) e professores do 2º ciclo do Ensino Básico (90 ECTS – 1 ano e meio).
    Licenciatura em Matemática Aplicada e Ciência de Dados-3 anos- 6 semestres +Bolonha
    U. Aveiro- Trata-se de uma Licenciatura que aponta para um perfil de formação abrangente, correspondente a um 1º Ciclo de Bolonha (180 ECTS – 3 anos letivos), que tem em vista, por um lado, a empregabilidade, e, por outro lado, o acesso a diferentes especializações de 2º Ciclo (Educação Pré-escolar, 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico), formações que variam entre 90 e 120 ECTS (Mestrado).
    U. Minho- A Licenciatura em Educação Básica tem uma duração de 3 anos e 180 unidades de créditos ECTS. Podem aceder a diversos mestrados, alguns dos quais habilitam para a docência na Educação Pré-escolar e no 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico.
    Licenciatura em Matemática-3 anos-6 semestres +Bolonha
    PIAGET-3 anos ⁄ 6 semestres • 180 créditos ECTS. O grau de Licenciado permite a candidatura a estudos pós-graduados nos termos legais respetivos, nomeadamente o acesso aos 2.º ciclos de estudos em Educação Pré-Escolar; Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico.
    U. Algarve-Tronco Comum- 6 semestres mais a variante.

    • Teresa on 27 de Maio de 2022 at 15:28
    • Responder

    Para quem não lê e não sabe.
    Regente, penso que teve a minha bisavó que nasceu em 1883.
    A primeira escola normal primária foi criada em Lisboa e a sua abertura solene teve lugar em 1862. J. E. Moreirinhas Pinheiro, docente da Escola Superior de Educação, publicou um número apreciável de estudos históricos referentes àquela escola, desde o processo da sua criação e os seus regulamentos disciplinares, aos seus professores e diretores e à sua vida quotidiana. A formação pedagógica dos professores do ensino secundário, embora reclamada praticamente desde as origens da criação dos liceus (1836), só foi objecto de medidas legislativas em finais do século XIX. Na evolução da formação pedagógica dos professores do ensino secundário até 1974, destacam-se três grandes momentos: I. 0 o Curso de Habilitação para o Magistério Secundário, durante os primeiros 15 anos do século XX; 2. 0 as Escolas Normais Superiores de Coimbra e Lisboa, que funcionaram entre 1915 e 1930; 3. 0 o Curso de Ciências Pedagógicas que funcionou nas Faculdades de Letras de Lisboa e Coimbra, de 1930 a 1974.
    Magistério Primário, durante meio século, “desde a data da sua criação em 1930 até ao final da década de setenta do século passado, consistia no único curso que permitia a aquisição de habilitação profissional para o ensino primário”.

    Nos anos 80, estas escolas do Magistério Primário foram substituídas por Escolas Superiores de Educação, “enquadradas no ensino superior politécnico, permitindo aos professores do ensino primário uma formação superior, primeiro ao nível do bacharelato, mais tarde, ao nível da licenciatura”.
    Agora estão nas Universidades.
    Fui professora durante 14 anos numa universidade, sem bem como foi e é a formação de professores e a desgraça que foi Bolonha.
    Como podem ver as formações andaram sempre aos tombos, todas elas.

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