Os professores têm de voltar a ocupar o seu lugar, “já”
Ser professor é um chamamento! Os professores têm de ocupar novamente um lugar prestigiante na sociedade.
Diz a sabedoria popular que saber esperar, é uma grande virtude. Sendo eu uma pessoa emotiva por natureza, faço o exercício de explorar de forma sistemática um estado de tranquilidade emocional que aplaque a minha revolta contra as injustiças. Sei que fazem parte da vida, mas ainda assim, considero um atentado contra a dignidade humana a forma como se têm vindo a degradar as condições de vida e a carreira dos profissionais em Portugal. Hoje, quero refletir em específico sobre as condições e processos de trabalho dos professores. Porque ser professor hoje não é atrativo, não é prestigiante e expõe os profissionais a uma miríade de riscos e desafios que conduzem inevitavelmente a situações de elevados níveis de stress, de ansiedade, que conduzem invariavelmente a estados depressivos, ao síndrome de Burnout e à doença mental.
Cumpri o meu objetivo de me distanciar no tempo, tendo em consideração que o arranque do ano letivo já “vai longe”. Mas, ainda assim, permitam-me caracterizar toda esta situação como dramática, e que inclusive, já se perpetua há imensos anos. Esta tendência para a crescente degradação das condições de vida dos professores e, consequentemente das suas famílias, associada ao aumento do nível de vida, à crise na habitação e ao encarecimento dos combustíveis conduzem estes profissionais a situações impossíveis, desumanas e desesperantes. Este desespero tem vindo a ser denunciado através de vários exemplos amplamente difundidos em vários órgãos de comunicação social: “um casal de professores que está a 300 kms de casa faz “sacrifício” para manter a profissão”; “… o professor Rui Garcia que dorme no carro e faz a sua higiene e as refeições na escola”; a professora Maria Sanches considera que “É um prémio que dou a mim mesma”, “aos 68 anos entrar para os quadros”, e “O ano letivo começa mal e provavelmente será um dos piores.” “Mais de 92 mil alunos começam as aulas sem professores” (fonte: comunicação social portuguesa).
Parece-me que estamos na presença de um flagelo social. Porquê? Porque coloca em perspetiva a sustentabilidade da nossa sociedade. Os professores são os artesãos que moldam o futuro. Se os professores estão doentes são também as crianças e jovens deste país que ficam com o seu futuro comprometido. Os dados indicam que uma importante fatia dos professores em Portugal adoeceu a trabalhar, porque não existe suporte social para promover as condições de trabalho adequadas a estes profissionais em específico. O relatório Eurydice de 2021, publicado pela Comissão Europeia, compara um conjunto de 38 países da Europa, incluindo os 27 estados-membros da União Europeia (UE), no que respeita às carreiras e ao bem-estar dos docentes. Conclui que quase 50 % dos professores declaram sentir entre “algum stress” ou “muito stress” no trabalho. Na Hungria, em Portugal e no Reino Unido (Inglaterra), a percentagem de professores que refere sentir “muito” stress no trabalho é o dobro da UE. Portugal lidera a tabela entre os professores do 3º ciclo do ensino básico, onde cerca de 88% dos profissionais nacionais refere sentir “bastante stress” e “muito stress” no trabalho. Quanto aos fatores de stress, os professores destacam: (1) o peso das tarefas administrativas, (2) o volume de trabalhos de alunos para corrigir, (3) o facto de serem responsabilizados pelos resultados dos alunos, (4) a manutenção da disciplina em sala de aula, (5) a necessidade de responder às exigências das entidades reguladoras e (6) as sucessivas reformas educativas.
A educação é um eixo estratégico para o futuro porque capacita os jovens a serem críticos, a refletirem com rigor e a serem mais justos e equilibrados. E nós precisamos “desesperadamente” de “reter massa critica” em Portugal, eles são o nosso futuro! Contudo, é necessário preparar o futuro porque percebemos as dificuldades que as novas gerações enfrentam devido à multiplicidade de fenómenos que se precipitam em catadupa quase diariamente. Exige-se dos professores que tenham a capacidade de abraçar todos estes desafios, mas com que recursos? E a quantidade de professores que “batem” com a porta anualmente e abandonam a docência? E quem serão os jovens que, face ao panorama geral, “terão a coragem de arriscar” e abraçar uma carreira ao nível da docência em Portugal? Muitas questões, mas todas elas de resposta muito óbvia!




7 comentários
Passar directamente para o formulário dos comentários,
Em resposta à última questão (penso que é a última ou a penúltima….) relativa aos “jovens” que vão ocupar os lugares vagos, deixe-me responder – lhe, uma vez que a sua questão não constitui uma interrogação retórica.
Os ditos “jovens” são indivíduos que foram para cursos onde podiam entrar porque as médias (já por si, como é público e sabido desde o sucesso do Caubide) de entrada nos mesmos são acessíveis (algumas delas de 10 valores). São, de igual forma, gente que andou ao “colinho” dos professores praticamente todo o percurso escolar. Quer isto dizer que, se me percebe, que “sabe Deus” o que foi para tirarem dozes e trezes no secundário onde, (como deve também estar a par) aprendem as “aprendizagens essenciais”, i.e., o mínimo possível. Imagine, agora, cara Daniela, que professores vão ser estes da “nova geração”!…. E deixe – me acrescentar que, num país cujo projecto (?) civilizacional e cultural se afasta, cada vez mais da minha Europa, aquilo que pode imaginar é uma espécie de Albânia no imediato fim do Bloco de leste, com todo o respeito pelos Albaneses. É uma tragédia de um país inteiro, numa quase perífrase.
Bom dia. Ainda não percebi como é que este acéfalo não é bloqueado e continua a vir aqui evidenciar a sua frustração e ódio contra os professores. Há uma qualquer frustração que o faz vir aqui destilar tanta raiva. Será algum amor não correspondido? É que é preciso ser muito mesquinho, tacanho e grunho para, ao fim de tanto tempo, ainda não ter percebido a luta dos professores. Arre, a paciência tem limites. Ser burro sim, mas tanto é demais…
Bom dia. Pena é Sr.Antonio Tavares que o Sr. tenha uma afirmação tão incorrecta como a que diz que os docentes têm que justificar os miseros vencimentos, que têm que dar para tudo inclusive para os elevados descontos para o estado. É por esse motivo que até agora não tive nenhuma qualidade de vida e o meu filho não pode estudar, e eu nem da saúde posso tratar pois não consigo uns óculos para ver nem ir ao dentista. Não tenho casa própria e estou numa casa muito antiga com poucas condições de habitabilidade. Com o que ganho que não chega nem para as despesas explique-me o que tenho que justificar.