Opinião – Ricardo Silva

Dos computadores “em avançada fase geriátrica” a uma sala de aula que mais parece “uma sauna”: os retalhos da vida de um professor

 

A aula vai começar e, enquanto os alunos vão entrando, inicia-se o ritual que se repete várias vezes ao dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Dado que os computadores das salas de aula, em avançada fase geriátrica, com mais de uma década, com software e hardware desatualizados, não oferecem garantias de bom funcionamento e deixaram de ser opção confiável, o professor retira da sua mochila o computador pessoal, o rato, a pequena coluna de som, o adaptador para ligar o cabo VGA do videoprojetor e o hotspot que garantirá uma internet razoável sempre que a rede WiFi da escola falhar, pois todos sabem que isso acontece amiúde e quando está disponível move-se apenas em duas velocidades – devagar e devagarinho. Quanto ao sumário, já nem se tenta registar na aula, pois o programa informático para o efeito (designado por E360, embora lhe assentasse melhor EZero), da responsabilidade direta do Ministério da Educação e pago com o dinheiro dos contribuintes, é uma vergonha inominável: lento e nada intuitivo, incapaz de devolver estatísticas e relatórios significativos, ou sequer numerar os sumários automaticamente, não permite a justificação de faltas pelos encarregados de educação (daí resultando um acréscimo de trabalho burocrático) e mantém alertas de excesso de faltas, na página de entrada, relativos a alunos que estão agora, três anos depois, a concluir o Secundário noutras escolas. Brilhante! Fechado este parêntesis e reunida a parafernália tecnológica que parece ser suficiente para uma aula mais envolvente, dinâmica, motivadora e enriquecedora, passamos à próxima fase de desenvolvimento do processo educativo: no meio do calor sufocante que faz com que os alunos já tenham tirado umas folhas dos cadernos para improvisarem uns leques, pois isto não é bem uma aula, é uma visita de estudo a uma sauna, liga-se o videoprojector, que grita (numas salas com mais ruído que noutras) há muito tempo por substituição e logo surge no ecrã o aviso que já ninguém nota: “substituir lâmpada”! Logo de seguida, surge também o pedido do professor a que os alunos já se habituaram: “apaguem as luzes e desçam os estores, por favor” (aqueles que se conseguem descer, pois muitos estão avariados, esperando por intervenção da autarquia há longos meses). Mesmo assim.… com a sala escurecida no máximo das possibilidades, o que se consegue vislumbrar no ecrã é pouco mais que uma imagem ténue, desfocada e difusa, pois a lâmpada do videoprojector já ultrapassou há muito o seu tempo útil de vida e faltam lumens, precisamos de lumens, e não há lumens!

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3 comentários

    • Carlos Moreira on 27 de Outubro de 2023 at 16:09
    • Responder

    E não há indisciplina aqui?!!! Deve ser então coisa muito rara, ou então não se fala disso!!É tabu!

    • Ministério de loucos on 27 de Outubro de 2023 at 16:19
    • Responder

    Seria bom lembrar que são os professores de Informática que andam a sustentar estas maluqueiras todas. São eles que, sem terem de o fazer, reparam computadores, instalam programas, tratam de inserir dados e preparar os programas de gestão de alunos e de pessoal, tratam dos programas dos exames e provas de aferição, tratam da porcaria de burocracias dos kits digitais, e ainda andam a apagar fogos nas escolas quando são chamados.
    É um completo desrespeito pela função docente.
    Ainda por cima, são dos que menos recebem, porque são os “menos velhos”.
    Deixem de ser parvos e cumpram o horário e mais nada!!

    • Nascimento on 27 de Outubro de 2023 at 21:48
    • Responder

    Admiro imenso o colega Ricardo e agradeço, mais uma vez, a sua disponibilidade para comparecer nos media a defender os direitos dos professores, com muita segurança e assertividade.
    Na intervenção em apreço, porém, devo registar alguns reparos:
    – Subscrevo as palavras dos colegas, a propósito da falta de referências à indisciplina – santa turma! Que sorte, Ricado! – e ao peso que recai sobre os colegas de informática.
    – Será, sem dúvida, muito interessante e inovadora uma aula em que o docente consegue utilizar tamanha diversidade de recursos didáticos e tecnológicos. Nem todos o conseguem, por variadas razões, e uma delas deveria o Ricardo ter apontado quando elencou os múltiplos problemas que nos afligem: o envelhecimento da classe. Obrigam professores, que já deveriam estar aposentados há cinco, seis e sete anos, a arrastarem-se pelas escolas, para não perderem 30% ou mais da pensão. Que motivação é que esperam dos mesmos para aprenderem a usar toda essa parafernália tecnológica? Sejamos realistas!

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