MARMITAS GOURMET

Se não sabem dos privilégios de se ser professor é porque, na verdade, desconhecem a bela vida que levam. Veja-se, por exemplo, o que eles não fazem para poder comer fora todos os dias da semana. Alguns, até se dão ao luxo de andar nisto há décadas às custas do salário milionário pago por todos nós.
Mas desengane-se quem pense que os docentes chegaram a este remanso em primeira viagem. Pelo caminho, país fora, já passaram por outras filiais de igual magnificência.
E onde fica esse santuário gastronómico?
Embora se diga que todos os caminhos lá vão dar, localizado num clubhouse de acesso restrito, situado na distinta sala dos professores, o espaço oferece uma experiência única e inesquecível, certificada por todos aqueles que já experimentaram. Ali, a expressão «almoçar fora» tem um outro significado. Com uma ementa culinária de pratos fritos, estufados, gratinados, grelhados e assados, são os bem «cozidos» que melhor combinam com a classe docente.

Ao fim de uma manhã repartida entre aulas e intervalos barulhentos, almoçar na cantina da escola e não romper o frenesim atordoante da criançada com o momento de silêncio reparador da refeição, seria impensável. Além do mais, o mal que esse stress faria à pele, nem o botox poderia reparar. Assim, na hora do descanso, quando o astro-rei brilha bem alto no céu, a mesa da refeição da sala dos professores começa a encher-se. É aconselhada reserva, pois só a muito custo se consegue garantir um lugar sentado. Ali, o ambiente tendry é sumptuoso. O esmero da lindíssima decoração shabby-chic industrial de cacifos, dossiês, agrafadores e computadores retro, é rematado por mobiliário vintage, com foco na mesa redonda com a mantilha plástica, propositadamente desengonçada para combinar com a envolvência, algo que não se encontra nem no melhor resort. Em redor da mesa, o charme das luxuosas cadeiras de madeira de envelhecimento natural, cuja solidez ergonómica para manter os glúteos firmes, só encontra rival no milenar ritual japonês de sentar no chão à hora da refeição.

Depois de repousar as nádegas naquelas poltronas de pinho, cada docente retira os manjares dos deuses galardoados com estrelas Michelin, bem-acondicionados nas suas malas thermiques Louis Vuitton, Hermès, Gucci ou Prada, adquiridas na superfície comercial exclusif da Feira da Ladra. É vê-las a abrir as valises de requinte e de lá saírem as mais raras iguarias: elas são as refinadas carnes maturadas «Les restes d’ontem», Omoletes aromatizadas «O que meu petit à la maison não quis manger na janta», a salada russa «vai com todos», o farrapo velho «Sobras de tout la semaine», os ossos de entrecôte sem chicha chuchados Al dente e, neste menu de degustação, não poderia faltar o requintado prato vegetariano de sande de Salade com tomate e folhinha de alface. De notar que, neste espaço de haute cuisine, grande parte não chega à mesa sem antes passar pelo indispensável micro-ondas, que nem sempre está a funcionar, facto que confere o enorme entusiasmo de a um empratamento quente poderem ter a feliz surpresa de terem um prato frio ou semifrio. Tudo isto, sempre bem regado com uma garrafeira de seleção composta pelas melhores águas das torneiras locais.
De vez em quando, para sobremesa, apresenta-se o famoso bolo “Fiz anos ontem”, que é de chorar por mais, mas é o que havia.

Quando a preocupação com fichas, testes e todo o género de materiais didáticos, que enchem pastas e pensamento, levam algum professor a se esquecer de trazer de casa a sua maleta de assinatura contendo a refeição (acontece com alguma frequência), sempre poderá experimentar o sabor de um dia de dieta para manter a linha.

Por uns instantes, põe-se a escola e a criançada de lado. Começa-se a falar do que se irá fazer para a janta, dos filhos, dos escândalos VIP, dos casos que aconteceram nas aulas, das atividades escolares, das constantes interpelações dos pais os alunos e, na rúbrica que não poderia faltar, nesta passerelle chiquérrima com cheiro a Saint Laurent, comentam as sebosas que não se juntam àquele clube da marmita, porque só falam e vivem para escola.
Então e todas aquelas vezes em que são interpeladas por um alto dignatário do seu staff – que respeitosamente pede perdão pela interrupção daquele momento de retiro –, para solicitar a sua intervenção urgente para sanar os ânimos dos seus queridos alunos que trocam mimos nos jardins, fazem sentir como é de um primor apurado ter um serviço personalizado à mesa que provoca inveja a qualquer alto dirigente. Melhor do que isso, só mesmo quando, entre garfadas, os colegas se dão ao trabalho de lhes trazerem à mesa um manancial de documentos para preencherem ou assinarem. Um serviço personalizado de um status social que não está ao alcance de qualquer mortal.

Como a alta gastronomia não se limita ao paladar, sabor ou aroma, por vezes a extravagância e o excesso de tempo livre toma proporções apoteóticas, levando-as a meterem-se nos seus clássicos do século passado, de glamour superior a qualquer banal Rolls-Royce e, como loucas, irem pelas boulevards ladeadas por palmeiras até outras paragens très chic. Chegadas aos arrabaldes desses olimpos, podem maravilhar-se com o esplendor dos epítetos «Restaurante Feitoria», «Belcanto», «Fortaleza do Guincho» ou «Valle Flôr» que apuram o seu apetite. Sentam-se na zona lounge, do outro lado da rua desses templos dos sabores, abrem as suas marmitas e consomem o seu banquete ainda com mais vontade; parece que ali, ao ar livre, com aquela vista magnífica de cortar a respiração, o alimento tem outro sabor e ajuda a passar todo aquele excessivo tempo de deleite, longe de casa.

No fim da hora da refeição, chora-se, não se podendo saber ao certo se por aquele maravilhoso momento ter passado tão depressa, se pela ânsia de se entregarem ao ruído ensurdecedor da multidão de juventude que aguarda calorosamente do outro lado da porta daquele refúgio.
Lágrimas partilhadas por todos os colegas de muita idade que, sem o apanágio de poder trabalhar longe de suas casas, já não se poderem deliciar com o prazer de merendar constantemente na escola e pertencer ao clube privado da marmita.

Assim se compreende o motivo de se amar tanto esta profissão cheia de regalias.
Ninguém faz uma ideia do divino privilégio de um professor em Portugal poder praticar um turismo gastronómico de eleição durante toda uma carreira profissional, a trabalhar longe de casa, só para poder desfrutar da oportunidade de comer diariamente fora e usufruir de um serviço exclusivo de cozinha de autor.

Carlos Santos

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9 comentários

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    • Calves on 14 de Outubro de 2023 at 13:06
    • Responder

    Muito bom! Adorei ler!
    Felicito o prosador!

    • Cláudia on 14 de Outubro de 2023 at 13:19
    • Responder

    Excelente texto, de fina ironia!

    • Luluzinha! on 14 de Outubro de 2023 at 14:22
    • Responder

    Parabéns pela frescura e graça do texto.
    O humor anda, geralmente, acompanhado pelo espírito e inteligência.

    • Luís Miguel Cravo on 15 de Outubro de 2023 at 0:07
    • Responder

    Caro Carlos Santos, gostei muito do seu texto. É excelente e trouxe-me recordações agridoces, em particular do ano lectivo de 2015-16 em que, para completar horário, juntei 5 ofertas de escola anuais, e acabei por ficar com 23 horas. Alfena (Valongo), D. Maria II (Famalicão), Vale d’Este/Jesufrei (algures no mundo rural de Famalicão), Secundária Alberto Sampaio (Braga) e Carlos Amarante (Braga) foram as escolas que, nesse ano, salvaram a minha vida e estarei eternamente grato a todas. Note-se, desde já, que não não tenho carro, nem carta sequer. Tenho duas garagens e um apartamento, confesso, fantástico.
    Nesse ano, havia um dia, a terça – feira, em que dava aulas em 3 das 5 escolas. As marmitas (eram três!) ocupavam uma saca de viagem pequena, comprada no Thyssen, em Madrid. Levantava-me às 5.30 (morava perto da estação de Campanhã) e apanhava o comboio para Braga das 7 e 20. Chegava pelas 8 a Famalicão, onde esperava pela boleia de uma colega, para sempre inesquecível Isabel, que também ia para Jesufrei. Acabava pelas 10. Só voltava a ter aulas às 13.30 em Alfena. Comia algo na sala de professores antes de apanhar uma camioneta que passava na estrada nacional pelas 11 e pouco saía no apeadeiro de Ferreiros, a chegar a Braga, pelas 11 e 20/25. Era aí, no banco do apeadeiro, que “almoçava” uma marmita até chegar o comboio para o Porto onde, uma vez lá dentro, acabava o almoço. Entretanto, chegava pelas 13 a Ermesinde onde, pelas 13.15, apanhava a boleia da Sílvia de Matemática, para ir para Alfena dar dois tempos ao 11°ano. Às 15.15, acabada a aula, chamava o táxi para me levar à estação de Ermesinde onde, por seu turno, esperaria o comboio que me levaria a Braga em que começaria una aula com o Profissional n’Alberto Sampaio (os miúdos sabiam que eu podia chegar 5 minutos atrasado…. A Direcção também sabia e compreendia porque nunca tinham visto semelhante). O comboio chegava a Braga a bater as 17 horas. Pelo meio, um lanchezito da marmita…. Em Braga, correr para o táxi para a aula das 17!…e cinco. Às 18.30, acabada a minha jornada de trabalho de luxo, caminhava a pé até à Estação de Braga e, no percurso para Campanhã, acabava sempre por dormir…. As marmitas, essas, tiniam no embalo do comboio e do meu corpo partido em dois. Quis apenas partilhar.
    Mais uma vez, obrigado, Carlos Santos!

    • Francisco on 15 de Outubro de 2023 at 15:12
    • Responder

    😞 comovente.
    Gostava que o Antônio Costa ou o ministro da educação experimentassem.
    E uma estátua ao professor/a em todas as cidades e vilas?
    Há algum artista que se ofereça? Ou que o nosso dinheiro pague aos sindicatos para a encomendar?
    Por que esperam?
    Precisam de uma petição dos sócios?
    Uma estátua aos professores/ as em todas as vilas aldeias e cidades já!

      • Luluzinha! on 15 de Outubro de 2023 at 20:50
      • Responder

      Ideia absolutamente ridícula e peregrina. Enfim…

        • Libertário de Pantufas e Cachimbo on 16 de Outubro de 2023 at 11:01
        • Responder

        Então vc. é praticamente um génio e não percebeu que o comentário estava no espírito do texto?

        Eu entendi assim, pelo menos.

        • Manfredo (amigo do Bidu) on 16 de Outubro de 2023 at 16:23
        • Responder

        O teu cocó deve cheirar a rosas, Luluzinha.

  1. As a teacher, there should be proper rules of conduct so that students learn good things and do not learn bad habits.

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