E os Professores a “verem passar comboios e aviões”…

E os Professores a “verem passar comboios e aviões”…

 

A actuação do Governo vigente tem “dois pesos e duas medidas” que, de forma sarcástica, talvez se possam ilustrar deste modo:

– Por um lado, a sustentável leveza de duas empresas tecnicamente falidas, a CP-Comboios de Portugal e a TAP Air Portugal, e, por outro, e em oposição com a primeira, o insustentável peso orçamental da Classe Docente…

Como prova do anterior, vejam-se algumas evidências factuais:

– O Estado Português é o principal accionista da TAP e já injectou nessa empresa, tecnicamente falida, a astronómica quantia de 3.2 mil milhões de euros…

Só o Orçamento do Estado relativo ao ano de 2022, atribuiu à TAP 990 milhões de euros, apesar de, ao longo dos últimos meses, terem sido tomadas várias decisões altamente questionáveis e de duvidosa justificação, ao nível da tutela política da gestão dessa empresa, e de ninguém, verdadeiramente, as assumir ou por elas se responsabilizar, conforme ficou demonstrado em sede de Comissão Parlamentar de Inquérito…

– O Estado Português é o único accionista da CP-Comboios de Portugal e o actual Governo acabou de conceder a essa empresa, tecnicamente falida, um perdão de dívida correspondente à exorbitante quantia de 1.86 mil milhões de euros (SAPO Notícias, em 10 de Outubro de 2023)…

Não deixa, aliás, de ser curioso o “timing” escolhido pelo Ministério das Infraestruturas para veicular a notícia desse perdão de dívida à CP: precisamente em 10 de Outubro de 2023, o dia em que se conheceu o Orçamento de Estado para 2024…

Adivinha-se a intenção: de forma muito conveniente, no meio do frenesim do Orçamento de Estado para 2024, talvez apostando que a notícia do perdão da referida dívida acabasse mais ou menos despercebida, diluída no alvoroço orçamental…

– Em profunda oposição com os esbanjamentos anteriores, nem sempre devidamente fiscalizados, no passado dia 2 de Outubro, em entrevista concedida à CNN Portugal, o 1º Ministro António Costa rejeitou o cenário da recuperação integral do tempo de serviço dos Professores, justificando que a mesma seria “insustentável” do ponto de vista financeiro…

Em Fevereiro de 2023, o próprio Ministério das Finanças, concluiu que a recuperação integral do tempo de serviço dos Professores teria um impacto financeiro de 331 milhões de euros:

“Segundo avançou o Ministério das Finanças ao Expresso, a recuperação dos seis anos, seis meses e 23 dias reivindicados pelos docentes teria um impacto de 331 milhões de euros anuais de despesa permanente para o Estado. A somar este valor com os 244 milhões de euros (dos dois anos e cerca de nove meses já recuperados), o impacto da recuperação integral do tempo de serviço dos professores ascenderia a 575 milhões de euros, abaixo dos 800 milhões de euros estimados em 2019 pela tutela liderada por Mário Centeno.” (SAPO Notícias, em 23 de Fevereiro de 2023)…

Resumidamente, com a TAP e a CP, duas empresas tecnicamente falidas, o Estado Português já terá gasto mais de 5.06 mil milhões de euros, a fundo perdido, presumindo-se que, para o actual Governo, isso corresponderá a uma despesa perfeitamente sustentável, enquanto que os alegados 331 milhões de euros referentes à Classe Docente serão considerados por si como um insustentável encargo financeiro…

O Governo vê-se, assim, enredado na flagrante contradição entre uma atitude absolutamente perdulária, tolerando e não obstaculizando gastos exorbitantes e inusitados, permitido a duas empresas a dilapidação de milhares de milhões de euros do erário público, e outra que denota uma indisfarçável avareza, quando se trata de eventual despesa com salários de Professores…

O argumento da “insustentabilidade” orçamental, apregoado pelo 1º Ministro, não colhe aceitação, sobretudo pela inconcebível e clamorosa desigualdade, injustiça e parcialidade de decisões, mas vai obrigar os Professores a continuarem a “ver passar os comboios e os aviões”…

Pelo que já se conhece, o Orçamento de Estado para 2024, bem “espremido”, dará “zero” benefícios estendíveis a toda a classe profissional dos Professores, mas certamente contribuirá para a materialização de muitas expectativas defraudadas e frustradas e oportunidades perdidas…

Para o Governo, e em particular para o 1º Ministro, o valor da Classe Docente será incomparavelmente inferior à protecção que será preciso dispensar à TAP, à CP e a outras empresas da mesma natureza, cujos contextos serão, porventura, muito mais favoráveis à “partidarização” de nomeações para cargos nas Empresas Públicas/Administração Pública, também conhecida como “jobs for the boys”, pois que muitas lealdades partidárias não poderão ficar sem reconhecimento e sem compensação…

Porque haverá privilégios que apenas poderão ser concedidos a alguns…

E os Professores lá continuarão a “ver passar comboios e aviões”, provavelmente à espera do que não acontecerá, votados ao desprezo pelos que tutelam a sua actividade profissional…

O conceito de Ética na gestão da coisa pública parece ser algo muito relativo para o actual Governo…

Tão relativo, que se chega até a duvidar da sua existência…

No Orçamento de Estado para 2024 há um Capítulo denominado “Estabilidade e atratividade da carreira docente” (página 273), cujo primeiro parágrafo versa assim:

– “O Governo tem vindo a fazer um esforço significativo, que será continuado em 2024, no sentido de dignificar e valorizar a carreira docente, reduzindo a precariedade e promovendo a atração de jovens para a profissão.”

Depois de se ler o parágrafo anterior, o mais certo é que se desista imediatamente da restante leitura, tal é o grau de fantasia e de “verdade alternativa” aí presente…

Alguém conseguirá continuar a leitura e acreditar no que lê?

Depois do referido parágrafo, o que mais haverá a dizer acerca do Orçamento de Estado para 2024, no que concerne à Área da Educação?

(Paula Dias)

 

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10 comentários

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    • Mirtha on 14 de Outubro de 2023 at 12:09
    • Responder

    CONTINUEM A VOTAR NELES QUE ELES PROMETEM CONTINUAR A GOZAR BEM DOS NOSSOS IMPOSTOS

    • Atento on 14 de Outubro de 2023 at 16:47
    • Responder

    Votem, votem PS , depois não se venham lamentar das atrocidades que diariamente são infringidas a todos os professores e da forma como sóis tratados.

      • XYZ on 15 de Outubro de 2023 at 15:55
      • Responder

      É tradição dos professores tugas continuarem a votar em que os rouba e engana, para depois fazerem manifs a protestarem contra quem elegeram.

    • Lucinda Pereira on 15 de Outubro de 2023 at 11:23
    • Responder

    Votem neles e continuem a encher-lhes os bolsos. Eles sabem bem onde injetar o dinheiro dos contribuintes…

      • XYZ on 15 de Outubro de 2023 at 15:54
      • Responder

      Claro. No bolso deles e dos amigalhaços corruptos e corruptores.

    • Realidades on 15 de Outubro de 2023 at 15:54
    • Responder

    Para Costa e os seus súbditos, nunca haverá orçamento para a recuperação do tempo de serviço roubado aos professores.
    E porquê?
    A resposta é simples. Há que dar dinheiro público aos amigos, aos compadrios, aos que corrompem, e esbanjar escandalosamente em má gestão pública.
    Se o desse para recuperar o que foi roubado aos professores, como é que esta camarilha ordinária e nojenta seria sustentada?
    Para além disso, há que acabar com a Escola Pública, desguarnecendo-a dos recursos humanos e materiais, para depois a vender ao desbarato aos grupos GPS e SONAE que afiam os dentes para o banquete real.
    TAP, CP e parcerias público-privadas rodoviárias têm tudo o que querem. Juízes, militares (alguns), e até enfermeiros conseguem recuperação. Outros também. Os professores não. Não podem porque senão como transformar o IP3 em grande autoestrada (desculpa mentirosa e ordinária dada por Costa em 2019 e nunca cumprida, claro).
    A não recuperação do tempo de serviço aos professores só tem uma explicação. Uma malapata para com os professores por parte de um partido que os odeia, desde que Sócrates, o ladrão e corrupto, e a sua cadela amestrada Milu, decidiram acabar com a Escola Pública e com o Ensino a sério em Portugal.
    Quando se esperava que estas situações fossem bem esclarecidas pelas oposições, o que se vê?
    PSD andou hesitante até agora. Vamos ver agora no que dá.
    IL é um partido neoliberal puro, que quer tudo privatizado e dado aos amigos do privado, para afiambrarem o que querem, à custa do erário público.
    Chega, uma cambada de radicais meio cheches.
    PCP, o tal partido muito organizado, sempre pronto para as manifs, mas que acha que a invasão da Ucrânia é um ato justificado e que Putin será o novo Czar do novo império soviético que está a renascer.
    BE quase igual ao PCP, só que com uma conversa mais radical para os LGBT++++coiso e a favor de drogas por todo o lado.
    PAN … o que é isto? A avaliar pela Madeira é um partido de gente desrespeitosa e ordinária, bem ao jeito de “esquerdóides” que cospem nos valores que dizem defender.
    Livre, a mesma conversa do BE com uma ligeira inclinação para dar a mão a xuxas corruptos.
    CDS – RIP.
    O resto é paisagem.

      • Raul on 15 de Outubro de 2023 at 16:04
      • Responder

      Discordo da visão que tem do PSD (em parte) e do Chega! Para mim CHEGA de bandidagem política!

      • Ida on 15 de Outubro de 2023 at 18:48
      • Responder

      Resta ainda saber qual a portaria para as novas tabelas a aplicar na reforma em anos futuros. A partir de 2040 serão apenas 55% ? Ninguém sabe. Poucos falam disto.

    • MF on 15 de Outubro de 2023 at 21:49
    • Responder

    Não gastemos cera com ruins defuntos: o PS já era. Venha uma nova era… sem encostados – nem monhés. Mas que tralha masoquista!!!

    • Pecevejos on 16 de Outubro de 2023 at 9:00
    • Responder

    O novo “lar” dos chiganos é aqui! Infestado até ao tutano de tretas…

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