Um ataque feroz

Estamos a viver um dos momentos mais negros da história recente do país. Um ataque aos mais elementares pilares da democracia através da limitação de uma das únicas ferramentas reivindicativas que os trabalhadores ainda podem usar – o direito à greve. Primeiro, com serviços mínimos que implicavam o impedimento do direito à greve a assistentes operacionais em pontos-chave das escolas e aos professores de apoio a alunos de NEE. Depois, decretando mais serviços mínimos, que implicavam para cada turma um mínimo de 3 horas de aulas diárias, significam, praticamente, serviços máximos e a quase total proibição de os professores poderem fazer greve. Um precedente que, alastrando a outras classes profissionais, poderá representar o fim de um direito pelo qual, durante décadas, muita gente derramou sangue para conseguir alcançar.

As iniciativas do governo de pedido da limitação do direito de os professores fazerem greve, evidenciam claramente que o ministério da Educação nunca teve a intenção de negociar nada. Desmascara uma postura negocial farsante que pretendia ir prolongando o período negocial com o único propósito de esperar que os professores fossem vencidos pelo cansaço e desistissem da luta. Como isso não aconteceu – antes pelo contrário, a luta intensificou-se –, o governo não teve qualquer problema em travar a greve. Uma atitude que nada tem de democrática e atenta contra os mais básicos direitos dos trabalhadores, trazendo à lembrança atitude idêntica que acabou com a greve às avaliações em 2018, rematada com um primeiro-ministro que ameaçara demitir-se se fosse obrigado a devolver o tempo de serviço congelado aos professores.

Revelando até onde poderá ir o executivo através da intervenção da máquina política na comunicação social, basta repararmos como nos últimos dias proliferam comentadores que apelidam os professores de «radicais». Nos média notam-se claramente as manobras de bastidores para silenciarem os professores, desde uma semana em que os canais de notícias quase não fizeram diretos nas greves distritais, até ao silêncio absoluto de Marques Mendes no dia seguinte à maior manifestação de sempre dos professores, a qual contara com a presença simbólica da ASPP/PSP e da Associação de Oficiais das Forças Armadas.

Está montado o gabinete de guerra aos professores com o intuito de levar a luta até às últimas consequências, bem ao estilo do “Quem se mete com o PS, leva”, que, infelizmente, se poderia também aplicar a outros partidos com assento parlamentar.
Se houve alguma dúvida sobre a forma como os professores são tratados neste país e os motivos da sua revolta, agora ficou bem claro.

Carlos Santos

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7 comentários

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    • Onde andam? on 14 de Fevereiro de 2023 at 8:26
    • Responder

    Esse “diagnóstico” já fizemos. O que ainda não foi feito, foi a reação dos Sindicatos a esta prepotência do governo. Mas reação que se veja, não é abaixo-assinados, vigílias, manifestações etc. Quero ver reação Jurídica, quero ver providências cautelares, quero ver o dito inigualável departamento jurídico do STOP – com os outros não se conta – a mexer-se. E sabem uma coisa? Até agora, não vi nada…

    • Inquietude on 14 de Fevereiro de 2023 at 8:44
    • Responder

    Sugiro que pensem menos em marchas e mais em contestação por via judicial. Ou numa maneira de tornear este abuso de “serviços mínimos” – só sobre o STOP – que acabam por ser “máximos”. O que estão a fazer, não está a resultar e o silêncio que vem do STOP, acrescentado a uma aparente inércia do Departamento Jurídico – espero sinceramente que seja só “aparênte” e estejam a ser preparadas “surpresas” para o governo – deixa-me profundamente intranquilo

    • J Freitas on 14 de Fevereiro de 2023 at 9:19
    • Responder

    Desculpem a prepotência do meu comentário, mas se esta guerra que o governo está a fazer contra a escola pública em diferentes frentes não levar à queda do governo, será o fim do estado democrático.
    TODAS as pessoas não sectárias e minimamente informadas concordam que estamos a assistir ao fim do estado social criado com suor dos nossos pais e avós na “modernidade”.
    E isso não tem consequências para os autores de tamanho atentado? Será porque foram comprados de alguma forma? Será que os subsídios têm assim tanto poder sobre as consciências?
    E onde andam os paizinhos que tanto se preocupam com a saúde dos meninos?
    Onde irão ser educados no futuro? Num depósito / ATL?
    Onde serão tratados quando estiverem doentes?
    Quem lhes fará justiça num sistema paralisado e de critérios dúbios?
    Quem os defenderá, se as forças da autoridade também foram destruídas pela penúria de recursos?
    ACORDAI!

    • Carlos Moreira on 14 de Fevereiro de 2023 at 9:44
    • Responder

    E qual a Solução???
    A LUTA continua de qualquer maneira!

    • Mic on 14 de Fevereiro de 2023 at 12:47
    • Responder

    Abaixo este governo de mxxxa!

    Qualquer dia, quem se demite sou eu, que não estou para me submeter a isto…

    • Ludaponte on 14 de Fevereiro de 2023 at 15:31
    • Responder

    Encerrem-se as escolas durante todo o ano

    • AO on 14 de Fevereiro de 2023 at 23:31
    • Responder

    Guerreiros da UCRÂNIA, AJUDEM-NOS!
    o fascismo voltou a portugal.

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