Se não agora, quando?

Se não agora, quando?

 

Em protesto contra um vasto número de questões que se foram acumulando, sem resposta, ao longo de sucessivos governos e anos, há mais de dois meses que estão activas greves no sector da Educação. Neste período, ocorreram quatro grandes manifestações em Lisboa e muitas mais por todo o país. Analisando o fenómeno, não importa sob que ângulo, é forçoso reconhecer que ele só é explicável por haver uma genuína, verdadeiramente espontânea rejeição dos professores relativamente às políticas que lhes têm sido impostas.
Se descermos ao detalhe, as causas mais próximas são, entre outras, uma crescente falta de professores, de professores de educação especial e psicólogos, de pessoal não docente, queixas relativas ao facilitismo e à indisciplina galopantes, ao aumento exponencial da inútil sucata burocrática, à precariedade, às regras abusivas que dificultam a progressão na carreira, ao desadequado e iníquo modelo de avaliação do desempenho, à extorsão de tempo de serviço, a salários baixos, ao tratamento desumano dispensado aos professores velhos e doentes e ao menosprezo pelos alunos mais vulneráveis, em nome de uma “inclusão” que exclui.
Se virmos de cima, é afinal a escola mínima, amputada de conhecimento e orientada para formar cidadãos disponíveis para aceitar trabalho apenas remunerado com salário mínimo, que os professores contestam. É este ensino público para os pobres, enquanto os ricos fogem para os melhores colégios privados, que os professores rejeitam.
Com efeito, passaram-se sete anos sob influência de uma ideologia pedagógica que reduziu os professores a meros receptores de directivas para produzir sucesso martelado e certificar a ignorância. Sete anos de uma propaganda que fala da geração mais preparada de sempre, quando apenas se trata, coisa bem diferente, da geração que mais tempo permaneceu, obrigatoriamente, na escola. Ora se houvesse dúvidas sobre a determinação dos professores em romper com o estado a que chegou o sistema de ensino, elas foram varridas pela gigantesca manifestação de sábado passado.
Aqui chegados, subsiste a dúvida maior: estará, finalmente, o Governo consciente de que tem de negociar ou, outrossim, continuará com a esperança, como maliciosamente o Presidente da República sugeriu, em que “há um momento em que a simpatia, que de facto há na opinião pública em relação à causa dos professores, pode virar-se contra eles”?
Se prevalecer a primeira hipótese, que me parece imperiosa e a única admissível, o Governo tem de negociar com seriedade, remover o seu descolamento da realidade, até aqui patenteado, corrigir a inércia para responder à crise e aceitar que o problema da recuperação do tempo de serviço não pode ser iludido. Tem custos? Naturalmente que sim. Mas os sindicatos já se manifestaram receptíveis a dilui-los ao longo de vários anos e a soluções parciais, para quem por elas opte, de traduzir parte deles em tempo válido para efeito de reforma. Tudo por forma a não prejudicar o equilíbrio das contas públicas. Por outro lado, importa recordar que, já em 2019, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República disse ser essa uma falsa questão, apresentando custos para a recuperação total de todo o tempo de serviço de todas as carreiras especiais da função pública bem inferiores aos que o Ministério das Finanças invoca.
A propósito do decantado “equilíbrio das nossas contas públicas”, Fernando Medina, em entrevista à TVI, disse recentemente: “O país não tem só professores”. Fernando Medina tem razão. O país não tem só os professores. Tem o escândalo da TAP (3.200 milhões) para pagar, os desmandos dos bancos (22.049 milhões, segundo números recentes do Tribunal de Contas) para amortizar, a Jornada Mundial da Juventude (80 milhões) para organizar, a Brisa (140 milhões) para compensar, a Ucrânia (250 milhões) para ajudar, mais, entre tantas outras “liberalidades”, os politicamente muito convenientes aumentos dos magistrados e juízes, de 2019, e as milionárias e imorais indemnizações de agora e do futuro, para continuar a “honrar”.
Mas, se não agora, quando perceberia o Governo que tem de fazer justiça?
In “Público” de 15.2.23

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2023/02/se-nao-agora-quando/

7 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

  1. Atualmente ligados à Política e Deputados . Tiveram os seus primeiros ensinamentos na Educação, nas Escolas Públicas . E por vários Professores aos longos anos de estudantes. E os levou na sua preparação de conhecimento, para suas vidas Académicas .
    E atualmente fazem parte do Ministério da Educação, e deveriam ter na sua Educação e Respeito pelo trabalho árduo e profissionalismo dos Professores.

    – E deveriam os Professores serem tratados com dignidade no suas funções profissionais. E não os obrigar a pressões desnecessárias, nem fazer dos Professores um ( Saco de Boxe ) de certas políticas diárias..
    E certas leis tem prejudicando, os direitos pelo trabalho e merecido de vários anos a lecionar. Que devem ser considerados e justos as suas progressões.

    • Carlos Moreira on 15 de Fevereiro de 2023 at 14:53
    • Responder

    Mais um artigo verdadeiro, clarinho, honesto que toca os pontos todos!

      • Mic on 15 de Fevereiro de 2023 at 16:15
      • Responder

      Exato, belíssimo artigo!

    • Carlos Moreira on 15 de Fevereiro de 2023 at 15:06
    • Responder

    Foi o que eu achei quando o ouvi na televisão (fala demais e quem muito fala pouco acerta):
    “…como maliciosamente o Presidente da República sugeriu, em que “há um momento em que a simpatia, que de facto há na opinião pública em relação à causa dos professores, pode virar-se contra eles”?”
    Que grande PR que temos!! Da mesma categoria dos outros que por lá andam!

    1. Este Presidente tem a mesma atitude de Estado Português Ditadura Socialismo.
      – De Catedrático só no seu conhecimento.
      Mas pelas atitudes, é um anti- Professores.
      Eu sempre disse na altura quando fazia no seu ( Papel Nos Discursos De Marcelo ) …
      – Seus comentários políticos, escondida por trás sua ( Capa)
      – E atualmente tem demonstrado indignação e falta de respeito, pela carreira docência.
      – O PR só lhe interessa sua imagem de Narcisismo. E pensa que os Professores e vários Portugueses, vão no seu truque de usar frases e palavras.

      O PR já não consegue embalar, quem tem olho para analisar incoerência das sua Politiquice.

        • AO on 15 de Fevereiro de 2023 at 16:18
        • Responder

        Por vezes, fala como se fosse comentador de telejornal.
        Mas eu não faço greve, porque os Pais criticam?!!!
        Se calhar o PR e o Presidente da Assembleia da República, etc., só aceitam greves aos domingos…

          • Joca45 on 15 de Fevereiro de 2023 at 17:01

          Pois eu não falo como comentador!!
          – Pois em Portugal se fala muito, como Governo, ME , PR e maior parte dos Portugueses…
          – Na realidade o STOP teve outra forma demonstrar, sem falatório ….
          – A Lutar contra as indiferenças políticas e jornalistas e certos Portugueses……
          – O STOP levou para a Rua a Luta pelos direitos dos Professores..
          – E assim quem pensa pelos seus direitos, deveria estar em conformidade , e na Luta.

          – Porque vir para aqui entrar com a conversa da lengalenga , e fazer o papel do Governo..

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading