Luís Sottomaior é professor de história do segundo ciclo mas, mais do que isso, é sub-director no Agrupamento de Escolas da Abelheira – Viana do Castelo. Foi director e estudou gestão escolar.
Sabe mais do dia-a-dia de uma escola do que os governantes, segundo o próprio. Assim falou com o ZAP, não só verbalizando a sua experiência individual enquanto professor, mas também como alguém que está há muito tempo dentro do universo da administração escolar.
A conversa com o Luís decorreu dois dias depois de nova manifestação nacional de professores em Lisboa, que no sábado passado terá juntado cerca de 150 mil pessoas.
E antes de deixar outras críticas: “Em relação à Segurança Social, há pessoas que não podem estar doentes porque, se ficarem, vão ser indigentes. Há professores a dormir em rulotes. Outros ficam durante uma semana, ou mais, a dormir no carro – porque é difícil arranjar alojamento”.
Outra situação “absolutamente chocante” é a dos professores que não têm subsídio de desemprego por não terem horários completos, alertou.
“Reformados pobres”
Há um “clima de comunhão” entre os docentes. As opiniões divergem, como sempre, mas sentem que esta é a última oportunidade para se fazer uma viragemdos problemas.
Porque há que pensar mais além: “Se os professores não tiverem solução para os seus problemas de carreira, vão ser reformados pobres. Eu próprio penso nisso.
Falta devolver aos docentes seis anos de serviço e falar sobre isso, “mais do que salário, é falar sobre aposentação”.
O custo da recuperação integral das carreiras dos professores custaria ao Estado 331 milhões de euros por ano, segundo os cálculos do Ministério das Finanças. “O que é uma gorjeta”.
“O Governo tem dinheiro para pagar salários mas não quer repor a justiça salarial em termos de reforma. E esse valor até seria maior, mas houve professores que já se reformaram, por isso vai custar menos”
Depois, um aviso sobre o que, considera este docente, o Executivo socialista anda a esconder: “O que este Governo está a fazer, em relação aos professores, é o que o Governo de Passos Coelho queria fazer às claras: cortar nas reformas – algo que foi recusado. Agora o Governo está a cortar às escondidas. E não se tem falado sobre isso, na comunicação social”.
“Desta vez é a sério”
O ZAP já tem escutado a frase “desta vez é a sério”, quando se fala nas greves, nas manifestações, nos protestos dos professores.
O que mudou na postura agora? Luís responde: “Quando uma coisa é muito espremida, chega o momento em que não há mais nada a espremer. Salta a mola”.
Ao longo dos últimos 15 anos os problemas acumularam-se. As pessoas estão mais velhas, havia expectativas de melhoria de carreira e a carreira piorou, no acordo com Isabel Alçada (ministra da educação, em 2010) sobre o estatuto da carreira de docente as pessoas não perceberam o que ia acontecer. Agora perceberam e não estão a gostar”.
Em resumo: “O quadro é muito pior, condições de trabalho pioraram, o centralismo do ministério aumentou, a burocracia representa uma carga maior… As pessoas reagem”.
A transição da gestão escolar para as Câmaras Municipais não resulta, avisa o professor. Porque é um mito: “A municipalização é um mito político português, ainda dos tempos da Monarquia Constitucional, que a República agravou. Os municípios não são todos iguais, a estrutura e a capacidade de gestão divergem muito”
Em França, por exemplo, e num processo que provavelmente vai chegar a Portugal, a municipalização gera desigualdades porque as políticas municipais não são iguais em todo o lado.
“As pessoas acham que o sistema educativo nacional é muito grande… Não é. Há muitas ideias feitas erradas sobre este assunto. É um mito político que visa sobretudo desorçamentar: o Governo quer entregar as despesas às Câmaras Municipais, mas muitas vezes não quer entregar os recursos para fazer essas despesas. Devíamos ter feito outra reflexão antes de entrar neste mito”.




6 comentários
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Greve braços caídos: estamos na sala mas não damos matéria
Sim, greve de zelo!
Ministro diz que esta é a última ronda negocial sobre vinculação, e vai acenando com o resultado do “parecer da PGR” sobre a “legalidade” da greve, o que aposto o que quiserem que o parecer vai dizer que a greve é “ilegal” e o ministro vai ameaçar com faltas injustificadas. Felizmente quem decide de legalidade ou ilegalidade é um Tribunal, não um parecer. Quanto ao resto, os diretores fazem os horários dos docentes, e é fácil para eles viciarem os horários, de forma a obrigar professores do quadro a irem tapar buracos noutra escola que pode estar a 50 Km da escola onde lecionam. Não é uma “cedência” mas um agravamento de condições. E o resto das reivindicações nem é falado. Porque havíamos de suspender a greve, se nada do que se pretendia à partida ficou assegurado, e pelo contrário, até agravou em certos pontos?
precarização dos actuais quadros de agrupamento ou escola é ILEGAL
EM QUALQUER tribunal isto não passa
Onde estão os serviços jurídicos fraquinhos dos sindicatos?
Coloco em tribunal se algum dia me acontecer
Se os serviços jurídicos dos sindicatos são fraquinhos, valerá a pena subscrever o Seguro de Assistência Jurídica, no protocolo que o ACP tem com a ARAG?
Ou haverá lugar a uma parceria do S.TO.P com a DECO, para que o prémio “Vencer o Adamastor” do INESC avance com um “Sistema Arbitragem Jurídica”, inspirada na ROSS Intelligencer do Canadá?
Tribunais Europeus, pois, os de cá são muito PS.