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Safeguarding – João André Costa

 

Nenhum professor, e sublinho nenhum, entra numa escola no Reino Unido sem ter uma formação em safeguarding, vulgo, a salvaguarda do bem estar da criança.
E se a língua portuguesa prima pela beleza descritiva das palavras sem fim, já a língua inglesa prima na sua capacidade sucinta.
Safeguarding, portanto, e uma palavra basta para a criança estar no centro de tudo quanto se faz todos os dias em todas as escolas do país.
Tendo contacto directo, próximo e diário com os alunos, cabe ao professor detectar desde uma simples nódoa negra, quiçá de uma queda (mas que queda e porquê?) uma mão esfolada (a jogar à bola, a andar de bicicleta?), passando pela avaliação do humor de uma criança, se está mais triste em relação ao dia anterior, carenciada emocionalmente em constantes chamadas de atenção para os adultos em redor mas também para os colegas através de provocações ou o centro das atenções, até sinais de infecção urinária ou conversas e comportamentos cujo conteúdo denote uma sexualidade precoce e inesperada para a idade do aluno.
Quer tudo isto dizer ser da tutela do professor a detecção de casos de negligência, abuso físico, emocional e sexual de todas as crianças ao seu cuidado.
E por todas as crianças entenda-se não apenas as turmas a cargo do professor mas todas as crianças da escola.
Mais, caso o professor detecte um caso de possível abuso na via pública, é da sua responsabilidade contactar de imediato as autoridades competentes.
Os professores são agentes sociais. Têm um papel a desempenhar, conhecem a criança como ninguém, as famílias como ninguém, batem à porta de casa, estabelecem relações, questionam, aconselham, tomam parte no pedido de apoios, trabalham em charneira com a polícia, a segurança social, psicólogos e terapeutas e como parte de uma equipa mudam o mundo.
Mas num mundo em constante mudança, a salvaguarda das crianças não se limita, nem pode, ao contexto familiar.
Porque é que uma criança falta à escola?
Porque é que uma criança falta à sua própria educação?
Telefona-se para casa, bate-se à porta (outra vez), procuramos ver a criança, está doente, porque é que em casa ninguém notificou a escola, responsabilizamos e educamos os pais mas também prevenimos outros problemas quando as ruas são a fonte de recrutamento de menores e vulneráveis para actividades ilícitas como são exemplo os gangues em número cada vez maior quando não há futuro nem quem cuide dele, do futuro, entenda-se.
Todas as crianças querem ser aceites.
Todos os adultos querem ser aceites.
Somos todos animais sociais e queremos fazer parte do grupo.
Mas se os adultos têm uma resiliência maior, já os jovens são ainda o elo mais fraco enquanto a auto-estima se forma e aprendemos a gostar de nós.
Enquanto este dia não chega, procuramos quem gosta de nós mas também quem diz gostar.
Presa fácil, rapidamente uma criança está à deriva.
Fisicamente mas também virtualmente e aqui entra mais uma vez a auto-estima e o bem estar emocional, a imagem corporal, as expectativas dos outros, a pressão de grupo, os abusos sexuais, o cyberbullying, a bulimia e a anorexia, a automutilação, o suicídio.
Tudo na ponta dos dedos.
Sem que vejamos senão o comportamento da criança à nossa frente.
Do mesmo modo, como profissionais estamos atentos ao comportamento de outros profissionais, sendo os professores responsáveis pelo alertar da direção da escola em caso de dúvidas sobre condutas ou palavras menos próprias.
E neste caso incluímos a nossa conduta virtual onde contas e actividade on-line são do foro privado dos professores e demais profissionais e não para partilha com alunos e respectivas famílias.
Parece elementar, mas infelizmente não é.
E como cada caso é um caso e nenhum dia é igual ao anterior, em caso de dúvida temos sempre um assistente social do lado de lá da linha e dúvidas temos todos os dias, nem por isso respostas, apenas perguntas e mais perguntas quando se tem apenas uma criança a nosso cargo e nós não temos apenas uma criança mas todas as crianças, todas as famílias, a comunidade no colo.
O conhecimento que cada professor tem sobre cada aluno e a partilha do mesmo é essencial na salvaguarda do bem-estar das crianças.
Porque, por incrível que pareça, e é incrível, os professores também salvam vidas todos os dias quando saem de casa.

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