PRUs: ninguém quer lá entrar, ninguém quer sair – João André Costa

 

Ninguém quer ir para a Pupil Referral Unit, mais comummente designada por PRU ou “centre”, como se estivéssemos a falar de um centro de correcção juvenil à antiga.
Porque o estigma ficou. Porque o medo persiste nas mentes, e tantas vezes nos corpos, dos pais e avós, dos tios, primos e vizinhos, obrigados a crescer sob o signo da violência do mais forte sempre que a desobediência o justificasse e nenhum adolescente é obediente.
É uma questão de tempo.
O medo sente-se no cheiro de quem tantas vezes nos entra pela porta. No olhar inquieto, suado, vigilante, à espera de algo, de um castigo como se já não fosse castigo suficiente a expulsão da escola secundária.
Mas não, não há castigo nenhum nem podia haver. Os castigos, as consequências, inúmeras e repetidas ao infinito como numa cacofonia, não fazem senão aumentar o descrédito de uma criança, e com a criança a sua família, pela escola, pelo ensino, pela educação.
Por isso o sorriso à chegada, os braços abertos, a oferta de um aconchego como um chá ou um café, um sumo ou apenas um copo de água.
A mensagem é simples: cuidar do outro, o nosso igual.
A escola é pequena e as turmas também, com 6 alunos no máximo, um professor e um assistente e todo o tempo para o aluno, todo o tempo necessário, todo o tempo preciso.
O resultado é imediato: a seguir aos pais, somos nós quem melhor conhece o aluno, se não for o inverso dada o tamanho da atenção e afectos na escola, tantas vezes em falta, sempre em falta quando se está a crescer.
Rejeitado, ferido e excluído, o aluno, a criança, procura rejeitar quem agora se aproxima entre empurrões, insultos e ameaças.
Sem conhecimento de outra realidade, a criança procura o familiar e o familiar é o abandono, é a partida de quem à sua volta está, a orfandade de pais e amigos numa luta desigual e há muito perdida.
Mas como não nos vamos embora e na ausência de resposta aos mesmos empurrões, insultos e ameaças, cedo a criança cede, cedo se aborrece, mesmo quando o cedo são dias ou semanas e a paciência de quem todos os dias procura fazer a diferença não é apenas uma virtude mas um requerimento essencial.
E na ausência de resposta a criança lá vai a desbravar outros horizontes que não a dor, o sofrimento, a perda, o luto, a dependência, a insegurança.
A dor é efémera e a memória curta quando o mundo está por descobrir e a curiosidade, a alegria, a confiança para seguir em frente, mão na mão, não mais sozinhos, é sempre mais forte.
Com a ajuda de mentores, os alunos têm acesso a apoio individualizado numa abordagem cognitivo comportamental no guiar da criança às origens do medo, do comportamento, tantos receios, como pedir ajuda, o porquê desta ansiedade, o controlo da respiração, um lugar seguro sempre que preciso.
A presença constante de professores e assistentes ao longo de todo o dia nos corredores e recreio significa uma voz amiga quando os problemas e anseios não cabem nas quatro paredes de uma sala.
Nem podem caber, fruto das redes e do universo na ponta dos dedos e a mediação entre alunos é recorrente.
O contacto com os pais é diário para não dizer horário e já faltou mais para fazer da escola uma imensa camarata para não dizer comuna onde todos se conhecem e entreajudam. Ou nem por isso. Ainda não estamos lá e se lá estivéssemos esta escola não teria lugar, não seria precisa e esta missão cumprida.
À procura dos interesses da nossa população escolar temos desde boxe a dança, desde culinária a desporto e expressão artística sem esquecer cursos profissionais nas áreas de mecânica, construção civil ou estética e abrir janelas onde antes havia portas fechadas.
O dia tem dois momentos com o Director de Turma, de manhã antes do primeiro tempo e a seguir ao almoço, com a partilha do horário e das actividades previstas, revisão de objectivos e discussão de quaisquer assuntos prementes de modo a preparar o aluno para as horas seguintes mas também garantir o sorriso nesta criança quando o dia chega ao fim.
As aulas são de 45 minutos cada durante a manhã, 4 tempos ao todo, e uma aula de 55 minutos a seguir ao almoço. Os tempos lectivos são efectivamente mais curtos e ao encontro das necessidades de crianças há muito distantes do ensino regular e à procura do mesmo.
A hora de almoço não é uma hora mas 30 minutos durante os quais professores e alunos partilham a refeição ainda por partilhar quando se chega a casa, o desporto está sempre presente e o despender de energias vital quando se traz uma cicatriz para a escola.
Os tempos lectivos são os mesmos de dia para dia, a certeza e a segurança, a estabilidade, a rotina, a constância para quem só conheceu a inconstância.
A certeza de como pelo menos um dia corre bem seguido da “positive phone call” do professor para casa, a mesma “positive phone call” que o aluno nunca recebeu mas recebe agora são, por norma, o primeiro passo em direção à esperança.
A esperança num futuro, a esperança de dias melhores, a esperança na vida, nos professores e na escola, deste modo explicando o porquê de lá não quererem sair de volta ao ensino regular.
Nem alunos, nem pais. Aqui chegados e vítimas do nosso sucesso, a verdade é a de ainda não termos resposta à vista, cada vez com mais alunos e agora uma lista de espera.
“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”, dizia Saramago, mesmo quando não queremos chegar, e quando chegados não queremos sair. Nós esperamos por todas os alunos, só tenho pena da falta de braços para a todos acudir.

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