Porque as crianças chegam à juventude e querem ser pobres?

 

Educação e indústria, por Henrique Neto

Talvez os leitores não se tenham apercebido, mas o primeiro-ministro António Costa, por vezes, também diz a verdade. Foi o que aconteceu recentemente num dos debates. Quando pressionado pelo seu opositor de que os países da antiga “Cortina de Ferro” produzem mais riqueza do que nós portugueses e fazem crescer mais do que nós o rendimento das famílias, António Costa respondeu que isso acontece porque esses países têm um nível de educação superior ao nosso. É verdade, de facto é o que tenho dito e escrito há anos.

Infelizmente, António Costa não retirou as consequências necessárias dessa realidade durante os últimos seis anos e nada no seu programa eleitoral mostra que compreendeu o desafio. Por exemplo, não é começando a construir o edifício da educação pelo telhado, privilegiando o ensino superior e reduzindo as propinas, em vez de aceitar começar pelos alicerces que são as creches e o pré-escolar. Criando para o efeito edifícios onde as crianças pobres se sintam tão bem como as crianças das melhores famílias nas suas casas, com bons educadores, boa alimentação e o desejado transporte. Porque é essencial que todas as crianças cheguem ao ensino oficial aos seis ou sete anos com iguais níveis de desenvolvimento e não como agora acontece, em que os filhos das famílias mais pobres chegam a essa fase da vida com enormes atrasos no seu desenvolvimento, o que compromete o seu aproveitamento escolar posterior e reduz o seu acesso futuro ao ensino universitário.

Este é o nó górdio do nosso processo de desenvolvimento e a razão de os outros povos nos passarem à frente. As famílias mais pobres e mais ignorantes produzem crianças mais pobres e mais ignorantes do que as famílias com melhores condições económicas, que são geralmente as que tiveram acesso a melhor educação, crianças que vivem em casas onde há livros, aprendem a nadar, por vezes música e fazem desporto. É aqui que o Estado deve intervir, retirando de forma disciplinada as crianças pobres das suas famílias durante grande parte do dia, para as colocar num ambiente físico e educativo de grande qualidade, num meio semelhante ao das famílias ricas, para que quando essas crianças chegarem à juventude não queiram ser pobres.

Presentemente, as crianças das famílias mais pobres não têm livros nas suas casas, não vão à natação e não aprendem música, não vão com os seus pais ao cinema ou para férias e, quando muito, passam o dia em frente à televisão, que os pais das famílias das classes média e alta fazem o possível por evitar. Sendo assim, como pensam os leitores que essas crianças se sentirão quando chegarem ao primeiro ano de escolaridade e forem confrontadas com os seus colegas, com aquilo de que eles falam e com tudo o que eles conhecem?

Repito, esta é a grande medida que o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) deveria estar a construir e não está, porque esta é a única medida que pode interromper o ciclo vicioso da pobreza e de ignorância, cuja inexistência faz com que alguns povos permaneçam atrasados em relação aos outros, como acabou por aceitar António Costa. Também porque é um investimento que se faz apenas uma vez, porque depois essas crianças, quando adultos, tomarão boa conta da educação dos seus filhos.

 

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