Disseram-lhes que não, que não os queriam, que não gostavam deles, que não eram suficientemente bons, nem bons quando menos suficientes, que o seu comportamento não era aceitável.
Nem aceitável nem compreensível.
E porque ninguém quis compreendê-los, excluíram-nos, expulsaram-nos, rejeitaram-nos e nada custa mais nesta vida do que ter de deixar tudo para trás porque num segundo deixámos de pertencer.
De pertencer a um lugar, a uma escola, a uma turma, a um professor.
E a marca fica lá, na pele, para sempre. Na pele dos excluídos, os miúdos e as crianças excomungadas da sociedade que todos os dias nos passam pelas mãos.
Quando nos entram pela porta a pergunta invariável encontra sempre a mesma resposta: se pudessem, voltavam atrás.
Se pudessem, faziam tudo ao contrário ou não faziam de todo, pediam desculpa apesar de ainda nada terem feito, teriam ficado em casa o dia inteiro à espera que passe o dia por inteiro que uma falta é melhor que este exílio e do falatório nem se fala.
Se pudessem, não fumavam aquilo que fumaram, a faca saía da mochila de regresso à cozinha, eu voltava para dentro da sala de aula e pianinho, sem insultos, sem ameaças, sem esta fúria nos dentes depois do meu pai e da minha mãe ontem à noite e todos os dias à noite porque a escola é pública e é de todos e isto é que ninguém quer ver ou compreender: o sofrimento que trago nas mãos e este grito mudo por ajuda.
O mesmo grito que não vos sai das bocas fruto da inquisição social mais o soslaio do vizinho, a conversa no café a fazer as vezes da igreja e do senhor prior de tempos que teimam em não passar, ou então somos nós que não passamos.
Porque não podemos. Não conhecemos outra realidade. Estamos presos.
E ainda nos damos ao luxo de dizer que a culpa é das crianças.
A culpa é de quem pensa. A culpa é de quem escreve. A culpa é de quem age. Mas nunca é nossa e minha não é de certeza.
Que mundo teimamos em construir em função dos nossos problemas?
O mundo do “porque somos apenas professores, culpamos os alunos”?
Ou o mundo do “porque somos professores podemos, e vamos, mudar o mundo, senão o nosso então o deles”?
Porque expulsar um aluno não é o mesmo que extrair um dente mas às vezes mais parece.
A vida de uma criança não é descartável, mas às vezes parece.
Às vezes parece que o mais importante é exercer este pequeno poder que nos coube em sorte, ou azar, o teu azar, doa a quem doer e a culpa não é minha nem tua, é de quem é mais fraco e está mais a jeito quando se descarregam as frustrações de uma vida.
Todas as semanas chegam-nos às mãos crianças marcadas pela rejeição. Incapazes de compreender o porquê, vivem numa constante culpabilização entre a vergonha e a agressividade.
Acham que o problema está em si e por norma procuram crescer o mais rapidamente possível como se isso fosse a solução, mas não é a solução, é mais um problema e a perda inevitável da inocência e do sorriso que um dia ali morou.
Porque é difícil falar sobre o passado, compreender o passado.
Porque é difícil acreditar num futuro, uma outra vida e outro universo onde os professores não existam para apontar o dedo mas para guiar e educar.
No fundo, é tudo uma questão de prioridades. Enquanto a prioridade de um governo for a apresentação de resultados de desempenho, colocando as escolas sob pressão, os alunos excluídos continuarão a ser uma realidade e este trauma também.
Por isso voto, por isso escrevo, por isso chego à escola todos os dias às 6 da manhã porque já lá estou há mais de uma década e em mais de uma década já perdi a conta aos alunos e famílias capazes de sorrir outra vez e para quem a escola voltou a ser uma casa, a sua.




2 comentários
Sem paciência para este estilo de discurso de prosa pseudopoética! O enjoo sobrevém após a leitura das primeiras frases. Tudo serve para publicarem aqui.
Não há paciência mesmo…. Este discurso é tóxico. Este senhor tem vocação para assistente social e não para professor.