Grande parte dos profissionais de Educação parece funcionar de acordo com este lema de alguns estabelecimentos comerciais: “Aberto todos os dias”…
Apesar disso, o direito ao descanso está há muito tempo consagrado na Lei Portuguesa e, nesse sentido, não poderá afirmar-se que o problema seja de natureza legal…
“Viver para a escola”, expressão tantas vezes utilizada, por tantos… O que significa “viver para a escola”?
Significa que alguém absolutamente dedicado, e de forma abnegada, prescinde de ter vida própria em função da escola?
Significa que alguém faz sempre o que lhe mandam, sem nunca questionar ou hesitar, estando disposto a passar horas infinitas dentro e fora da escola, muitas vezes sem um propósito claro ou em tarefas de duvidosa pertinência e eficácia?
Significa que alguém manifesta um comportamento dependente e compulsivo em relação ao trabalho? Significa que essa prática é o reflexo de se ser viciado em trabalho?
“Viver para a escola” nunca será uma coisa boa…
Nos tempos que correm, a Escola é uma entidade muito pouco humanista. E quem procura o reconhecimento institucional do esforço e do investimento pessoal realizados, dificilmente o obterá… Não ter consciência disso, é procurar desilusões e criar expectativas irrealistas, que resultarão numa implacável frustração…
Em qualquer caso, “viver para a escola” parece ser, quase sempre, uma opção voluntária porque ninguém, à partida, é obrigado a fazer tal escolha…
Decorrem daí duas alternativas: ou se assume explicitamente que se vive para a escola e que se está disposto a aceitar todas as vicissitudes daí decorrentes e, sendo assim, não há lugar para vitimizações, lamentos ou queixas; ou se rejeita liminarmente a possibilidade de tal acontecer, assumindo que há vida para além da escola e que não se abdica dessa prerrogativa…
E também há quem goste de fazer alarde de que “vive para a escola”, anunciando, regularmente, o seu imenso sacrifício pessoal em prol da mesma… Quantas vezes se ouve: “estive todo o fim-de-semana a trabalhar para a escola”, “ontem estive a trabalhar até às duas da manhã” ou “no sábado, telefonou-me uma mãe, a conversa prolongou-se por mais de uma hora”…
Cumprir escrupulosamente o horário de trabalho e desempenhar as funções intrínsecas de forma responsável e diligente, estabelecendo um compromisso com o serviço atribuído, não é o mesmo que “viver para a escola”…
Em relação à primeira estarão todos obrigados, mas em relação à segunda só estará quem manifeste essa vontade… Só “vive para a escola” quem, deliberadamente, prescinde de ter vida própria…
Porque se cede o número pessoal de telefone, quando todos os contactos telefónicos relativos a trabalho podem (e devem) ser realizados por via oficial e de acordo com o horário de permanência na escola?
Ser incomodado durante o fim-de-semana por contactos telefónicos relacionados com trabalho só acontece porque alguém o consentiu e, de certa forma, incentivou…
Porque não se resiste à tentação de abrir e de responder a emails institucionais recebidos durante os períodos legais de descanso? Se ninguém os abrisse e se não tivessem resposta imediata, talvez deixassem de ser enviados durante esses períodos…
É escusado acalentar ilusões: não há profissionais de Educação insubstituíveis, afirmem ou não “viver para a escola”…
Apesar de alguns parecerem ter dificuldade em aceitar e reconhecer essa inevitabilidade, todos, num determinado momento, podem ser descartáveis e transitórios…
É preciso conseguir “desligar” e procurar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal… A bem da sanidade mental, também é preciso conseguir dizer “Não!”…
Mas quando a Lei é desrespeitada, em primeiro lugar, pelos próprios, contra si próprios, algo de errado se passa… E é assim que muitos profissionais de Educação, acabam por ser “carrascos” de si próprios…
Alegadamente, até Deus terá tido necessidade de descansar, ao cabo de sete dias, depois de ter criado o Mundo… Os profissionais de Educação não criaram o Mundo, mas têm que arcar com uma parte assinalável do mesmo e realizar um trabalho que os obriga a enfrentar múltiplas personas e inúmeras “máscaras”…
Aconselha-se, por isso, o merecido descanso e a recusa de estar “aberto todos os dias”…
(Off topic: não encontro palavras decentes e aceitáveis para descrever Vladimir Putin, mas ocorre-me uma infinidade de obscenidades e de impropérios…).
(Matilde)




2 comentários
Colega Matilde,não se preocupe pois os colegas irão duramente perceber aquando da chegada aos 4° e 5° escalões e terem que aguardar vaga ( um novo congelamento) anos e anos sem fim.
Até lá,estes colegas darão tudo para serem os excelentes mais excelentes ,mas não percebendo que é 1 cenoura à frente…
Enfim, sejam felizes a seu modo.
Essa tem piada…
É muito fácil dizer que está consignado na Lei o Direito ao Descanso. É fácil dizer porque é factual.
Esse, porém é um ponto de vista, talvez de quem não tenha muito que fazer e que acha que os demais também não teriam muito que fazer mas, lá está, fazem para lá do razoável, como se de uma atitude masoquista se tratasse.
O facto indesmentível é que a burocracia que foi sendo institucionalizada não é possível de ser resolvida nas 35 horas de trabalho legal. Só quem tem andado muito folgado durante anos é que passa ao lado desta realidade que calha, infelizmente, a muitos.
Convenhamos que esta burocracia é, paradoxalmente, o resultado da atitude de uma minoria (ou talvez não) de denodadas criaturas sem vida pessoal, ou cuja vida pessoal é porventura tão miserável que se refugia no trabalho e acaba por comprovar à tutela que é sempre possível fazer mais e mais, e mais… Estes são os verdadeiros culpados pela enorme burocracia que se institucionalizou no Ensino, pois são incapazes de se unirem em protesto e dizer “não”.
Aliás, um dos sintomas da falta de vida própria é a incapacidade de se distanciar do que se está a fazer, assumir uma postura crítica e procurar/criar grupos de protesto – pois que um indivíduo sozinho não tem poder para nada, e ainda é gozado!
Actualmente temos alguns docentes que têm 12 turmas de alunos. Isto quando as turmas não são desdobradas em períodos quinzenais de aulas, em que o número de turmas pode subir substancialmente.
Considerando, numa perspectiva optimista, que cada turma tem 20 alunos, o docente tem 240 alunos para ensinar e avaliar; caso efectue dois testes por período, fica com picos de trabalho extremos: 480 testes para avaliar, por período (15 minutos por teste avaliado resulta em 120 horas só em avaliações, não contando com todo o trabalho de ponderações que sempre se fazem, tendo em conta os dados das avaliações de aula). Caso opte por avaliação contínua e registos de aula, terá de ser muito disciplinado para não acumular informações cujo tratamento é bem mais complexo que as avaliações sumativas.
Estas situações ocorrem em disciplinas com 2 Tempos semanais. Lembro-me de Geografia e Educação Visual.
O caso perverso de Ed. Visual é que não é mesmo possível avaliar de forma rigorosa seja o que for, e a pedagogia desta disciplina fica inexoravelmente comprometida. Não obstante esta ser uma disciplina leccionada 1 vez por semana, num bloco de 2 Tempos, a tendência de a usar como disciplina subsidiária para a realização de “projectos” no âmbito das DAC, porque nas demais disciplinas os respectivos professores consideram-se “incompetentes” para fazer trabalhos que envolvam as expressões, o número de aulas realizadas por conta dessas DAC vai retirar aulas essenciais para a leccionação de conceitos, técnicas, processos e sensibilização cultural. Resultando daqui a mais que provável tendência para o analfabetismo visual dos mais jovens.
Obviamente que isto é preocupante, mas confesso que muitos colegas de Educação Visual nem se preocupam muito com isto…