Voo livre sobre a escola – Carlos Grosso

 

Diz o Parol.edu.conça: se os alunos não querem saber, a responsabilidade é do professor, que não soube motivar o aluno, que não fez o pino na aula, que não trouxe para a aula fogo de artificio.

Voo livre sobre a escola

Pedi licença aos excecionais Padre Bartolomeu de Gusmão e poeta António Gedeão para me montar na «Passarola voadora» e andar às voltas sobre a escola.

Relato-vos algumas partes interessantes e inesperadas do que vi nestes últimos anos.

Vi montanhas de despachos burocratas a submergir os professores em papeladas inúteis.

Vi professores desesperados a trabalhar dez horas por dia para preencherem todos os requisitos de papeladas inúteis.

Vi alunos que todos os dias chegam à escola quinze minutos depois da hora, o que a tolerância extremamente flexível continua a permitir.

Vi alunos no recreio, sentados de livre vontade, agarrados a um aparelhómetro vagamente paralelepipédico, sem interagirem, sem brincarem. Não era castigo imposto por outrem, mas sim moléstia infligida por gigantes tecnológicos.

Vi professores com idades obscenas, de rastos, de cabelos brancos, de muletas, a sofrerem com uma paciência esgotada e uma incapacidade agonizante em compreender o adiamento da reforma e a indisciplina.

Vi professores aflitos por não conseguirem dar uma ajuda no acompanhamento dos filhos dos filhos, sofrendo pelos filhos e pelos netos que raramente têm a possibilidade de passar uns dias com a sabedoria longa dos avós.

Vi alunos que, em todas as aulas, conversam uns com os outros, mais até do que fazem no recreio, onde não há restrições ao uso do aparelhómetro vagamente paralelepipédico, que falam nas aulas sem autorização e ao mesmo tempo que o professor.

Vi alunos extremamente interessados nos estudos e na aprendizagem dos conhecimentos escolares a serem constantemente incomodados pelo ruído de colegas e a exigirem ordem na sala de aula.

E diz o Parol.edu.conça: esses alunos são retrógrados, são alunos da escola do antigamente, da escola dos avós e dos bisavós. Os professores têm de prepará-los para a escola do século XXI.

O Parol.edu.conça é uma personagem que vive fora da escola, mas que tem uma enorme influência nela. O Parol.edu.conça gosta de ler livros sobre Teoria da Educação, gosta de escrever sobre teoria do ensino, mas não gosta de ter sete turmas, não gosta de aturar diariamente duzentos alunos, não gosta de ter centenas de fichas de trabalho para corrigir, centenas de testes para avaliar e catadupas de sínteses descritivas para encher dossiers que não passam de uma praga ecológica.

Vi professores sem tempo para refletir, sem tempo para passar um fim de semana descansado sem trabalho escolar, sem tempo para ler um livro, assistir a uma exposição, brincar com os filhos, como se Ser Professor fosse embalar pacotes de farinha ou construir tijolos ou vender gelados. Quem se dedica a esta tarefa sabe que tem hora de abrir e hora de fechar a loja bem definidas, sem preocupação com os gelados sobrantes que hão de ser vendidos no dia seguinte, sem necessidade de levar gelados para vender em casa, depois do jantar.

O professor não é uma marioneta industrializada. O professor é um condutor de crianças e jovens, é um pedagogo. Precisa de tempo e de espaço para refletir sobre os melhores percursos educativos, sobre a arte de ensinar. O professor não está formado quando termina o respetivo curso. Grandiosa parte da formação docente é conseguida no desempenho da profissão. O professor precisa de continuar a formar-se durante muitos anos. Para isso, o professor tem de ter tempo, tempo para além das muitas aulas, para além das muitas atividades não letivas, para além dos muitos trabalhos de casa. O professor precisa de tempo para a sua vida e para se orgulhar de ser professor. Os professores precisam de tempo para partilharem algumas boas práticas pedagógicas. As reuniões para que são convocados versam esmagadoramente sobre “eduquices” e não sobre partilha de conhecimentos científicos.

Vi professores empenhados em longas reuniões a discutir os parâmetros mais adequados para avaliar as atitudes e qual o “peso”, qual o coeficiente que devem ter na média ponderada da avaliação escolar. Contendo afincadamente o mal-estar que me provoca estar a relatar-vos alguns pormenores destas discussões, aqui vai: É a assiduidade? (2%) É a pontualidade? (2%) É o respeito pelas orientações do professor? (3%) É o respeito pelas intervenções dos colegas? (2%) É a autonomia na realização das tarefas? (2%) É a participação de forma crítica, reflexiva e com profundidade? (4%) É demonstrar vontade em melhorar as suas competências (emocionais, cognitivas, motoras e sociais)? (4%) É o respeito pelas regras da sala de aula? (2%) É a capacidade para trabalhar em grupo? (1%) É trazer os materiais escolares limpos e organizados? (1%) É aspirar ao trabalho bem feito, ao rigor e à superação? (4%) É respeitar a diversidade e agir de acordo com os princípios dos direitos humanos? (4%) É revelar autonomia pessoal centrada nos direitos humanos, democracia, cidadania, equidade, respeito mútuo, livre escolha e bem comum? (6%) É realizar as tarefas no tempo estipulado? (1%) É cumprir com as regras de interação social e de civismo? (2%) É respeitar as regras institucionais que permitem atuar em segurança, adotando comportamentos que promovem a saúde e o bem-estar, nas suas relações na sala/escola (cumprimento do regulamento interno e uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social)? (4%) É tudo isto e mais alguma coisa? (100%)

E diz o Parol.edu.conça: É primordial discutir e definir o peso de cada indicador. Só após essa definição será possível inserir nas folhas de cálculo Excel a fórmula de cálculo das médias, para a avaliação final.

Como já se disse, por regra o Parol.edu.conça não trabalha na escola. Quando, raramente, isso acontece, o Parol.edu.conça não percebe bem o que é isso de inserir fórmulas em folhas de cálculo, mas di-lo com tanta eloquência que é capaz de convencer alguns dos mais novos ou alguns dos mais distraídos, mas poucos. Porém, todos estão sujeitos às ordens de Parol.edu.conça.

– Caros colegas, a reunião já dura há três horas, estamos todos muito cansados e o meu filho está na escola à minha espera, pelo que proponho que a reunião continue na próxima quarta-feira – diz o professor Miguel.

A ninguém convinha mais uma reunião na próxima quarta-feira, mas também percebem que já não há disposição nem capacidade para continuar a discussão. Aceitam.

A professora Carolina já tem uma consulta marcada para a próxima quarta-feira, mas vai tentar desmarcar para poder estar presente.

O professor Francisco abomina estas discussões (discretamente chama-lhes “palhaçadas”) e está mais interessado em gastar tempo na organização das suas aulas, mas não gosta de faltar a reuniões para as quais foi superiormente convocado.

Vi alunos que, nos testes de avaliação de conhecimentos, obtiveram média de 15 valores a Economia, mas cuja avaliação final foi de 14 valores, por baixa avaliação nas atitudes. Ou seja, o aluno que revelou conhecer certas partes dos conteúdos, deixou imediatamente de os saber por atitudes que não foram apreciadas pelo professor.

Vi alunos que, nos testes de avaliação e aplicação de conhecimentos, obtiveram média de 13 valores a História, mas cuja avaliação final foi de 15 valores, por altíssima avaliação nas atitudes. Ou seja, terão existido alguns conhecimentos que não estavam adquiridos, mas que foram magicamente incorporados pela excelente atitude.

A escola ajuda a formar atitudes? Obviamente. A escola ajuda a melhorar algumas atitudes? Certamente. A alteração das atitudes tem, frequentemente, reflexo nas aprendizagens? Seguramente. Mas, para além do reflexo nas aprendizagens que foi sendo demonstrado nos diversos instrumentos de avaliação escolar, o conhecimento do aluno sobre determinadas matérias não aumenta nem diminui porque o professor avalia as suas atitudes. As atitudes formam-se, valorizam-se, adequam-se, mas não se medem numericamente!

Vi alunos que querem aprender o máximo possível.

Vi professores que não querem saber das aprendizagens essenciais e que querem ensinar o máximo aos seus alunos.

Vi alunos que não têm qualquer interesse nas aprendizagens escolares.

Diz o Parol.edu.conça: se não querem saber, a responsabilidade é do professor, que não soube motivar o aluno, que não fez o pino na aula, que não trouxe para a aula fogo de artificio.

Vi professores que não se preocupam em ensinar, nem se os alunos aprendem ou não, e que os deixam fazer o que lhes apetecer.

Vi alunos a chamarem “filho da p**a” ao professor ou a acariciá-lo com um “vai pró ca**lho” e cuja reação dos pais, ao receberem a notificação, foi: «Se ele fez isso, é porque o professor lhe fez alguma!»

Vi professores a fingirem que não viram o aluno levantar-lhe o dedo do meio, para não se sujeitarem ao infindo processo de averiguações sobre a veracidade dos factos relatados na eventual participação de ocorrência.

Vi professores a ficarem doentes e arrastarem-se até à baixa médica por exaustão.

Vi salas de professores quase sempre vazias e sem convívio.

Vi o Ministério da Educação a desvalorizar as avaliações externas.

Vi demasiados alunos a serem sujeitos a RTP. Não, não se trata da estação televisiva, mas dos espetaculares Relatórios Técnico-Pedagógicos.

Vi professores a terem de pedir silêncio na sala de aula, diariamente.

– Isso são professores que não acompanham os tempos. São professores que não compreendem os jovens, que não estimulam uma geração tecnológica que está altamente preparada para multitasking, diz o Parol.edu.conça.

Como se a disponibilidade de equipamentos tecnológicos fosse capaz de alterar o cérebro humano e as sinapses produzidas. As características do cérebro humano são as mesmas dos avós e dos bisavós.

Vi professores a serem apanhados pela pandemia e a revelarem altíssima capacidade de adaptação no ensino a distância.

Vi alunos durante meses em casa, sem computador e sem comunicação com a escola.

Vi alunos de pijama, deitados no sofá, esticados à beira da piscina, a assistirem às aulas no respetivo aparelhómetro vagamente paralelepipédico.

Vi professores que passaram um ano letivo completo sem conhecerem a cara dos respetivos alunos e alunos que passaram um ano letivo completo sem conhecerem a cara dos respetivos professores.

Vi professores que lecionavam a distância sem ligar a câmara de vídeo, escudando-se na proteção de dados.

Vi alunos sem alguns professores durante meses.

Vi concursos de recrutamento de professores sem nenhum concorrente.

Vi professores a chamar «burros» aos alunos.

Vi professores obrigados a uma deslocação de centenas de quilómetros da sua habitação, a alugarem uma casa mais próxima da escola onde foram colocados e a sujeitarem-se a um rendimento líquido inferior ao salário mínimo, apenas para ganhar tempo de serviço e mais algumas décimas na graduação.

Vi professores com onze turmas.

Vi professores que deixaram a profissão e muitos outros que andam ansiosos por encontrar alternativa para o fazerem.

Vi alunos a apreciarem extremamente as aulas, a aprenderem imenso com os seus professores e a atingirem quadros de mérito e de excelência.

Vi encarregados de educação a atribuírem enorme valor à capacidade dos professores dos seus educandos em ensinar conhecimentos escolares e em adequar comportamentos.

Vi professores ainda entusiasmados com a profissão.

Custa-me revelar-vos que é com pouca esperança e com um doce-amargo de fel que vos relato o que vi.

 

 

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9 comentários

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    • Carla Duarte on 27 de Dezembro de 2021 at 15:34
    • Responder

    Excelente!

    • Joao on 27 de Dezembro de 2021 at 15:48
    • Responder

    1- “qual o “peso”, qual o coeficiente que devem ter na média ponderada da avaliação escolar.”
    E que tal o peso ser igual para todos os domínios?
    2-” Vi alunos que, nos testes de avaliação de conhecimentos, obtiveram média de 15 valores a Economia, mas cuja avaliação final foi de 14 valores, por baixa avaliação nas atitudes.”
    Se o peso for igual em todos os domínios, percebe-se melhor. E ainda se percebe melhor se o/a aluno tem explicações e dá-se ao luxo de perturbar as aulas impedindo os colegas que não têm explicações de aprenderem .
    3-” não gosta de ter centenas de fichas de trabalho para corrigir, centenas de testes para avaliar e catadupas de sínteses descritivas para encher dossiers que não passam de uma praga ecológica.”
    Invista-se em instrumentos de avaliação diferentes e diversificados- mais espaçados, mais fáceis de corrigir, mais pequenos , aproveitando todo o tempo da aula, etc, etc….incluindo a avaliação formativa e muito holística.

    E etc, etc…..os professores têm muita da culpa destas situações e nem sequer se apercebem que as “novidades” pedagógicas até lhes podem dar menos trabalho, desde que ensinem os alunos.
    As passarolas voadoras são doutros tempos.
    O meu ilustre professor de Física e Química no liceu Pedro Nunes, Rómulo de Carvalho, estava muito à frente do seu tempo. E questiono-me o que faria ele nos tempos de hoje como professor?
    Lamentar-se-ia a toda a hora ou continuaria a ser o professor que era e que ensinava com ma sabedoria e motivação, mandando toda esta entropia burocrática às malvas?
    Mantendo o sonho que pula e avança?

      • Ana on 27 de Dezembro de 2021 at 22:26
      • Responder

      Grande defensor do Projeto MAIA!

      Desde quando no tempo do ilustre professor Rómulo de Carvalho havia um centésimo da burocracia que há hoje nas escolas?????

        • Joao on 27 de Dezembro de 2021 at 23:11
        • Responder

        1- Nada no meu comentário diz que sou defensor do projecto MAIA. O que digo é que temos de aligeirar o nosso trabalho. E se, dalgum modo, o tal de projecto dá para tirar umas ideias, pois aproveite-se o que pode ser aproveitado.
        Diversificar instrumentos de avaliação, torná-los menos penosos de corrigir /classificar, segmentá-los, etc, etc, já o faço muito antes da “novidade” MAIA. Mas, se a “novidade” MAIA tem algo disto, então, meus caros e caras colegas, aproveite-se. Junta-se o útil ao séc XXI/XXII, sei lá….
        2- Não disse que no tempo do professor Rómulo de Carvalho havia esta burocracia. Perguntei o que faria ele se ela existisse e afirmei que, quase de certeza, a mandaria às malvas/badamerda

        Resumindo, a Ana não compreendeu o meu comentário.
        No fundo, no fundo e muito resumidinho é isto: Deixemo-nos de tanta lamúria e de tantos ais, ais e mais ais ( ( Ai, os Ais de Portugal!) e troquemos-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança…(para voltar à Pedra Filosofal”

    • F on 27 de Dezembro de 2021 at 23:16
    • Responder

    https://www.youtube.com/watch?v=Hvvyaz9wgVs

    • E.T. on 28 de Dezembro de 2021 at 10:49
    • Responder

    Muito bom. Partilho desta reflexão/opinião.

    • Manuel on 28 de Dezembro de 2021 at 11:12
    • Responder

    Esse Sr. foi subdiretor durante 5 anos e corresponsável por esse estado de coisas… O que fez exactamente para melhorar a situação dos professores, seus colegas? NADA.
    Foi responsável pela distribuição de serviço e para que uns ficassem com 2/3 turmas, não teve pejo em atribuir 9/10/11 a outros no mesmo grupo… Porquê?
    Agora vem cantar?
    Os homens medem-se pelas ações, não pelas palavras, que soam ocas, vazias.

    • joão on 28 de Dezembro de 2021 at 13:41
    • Responder

    Os critérios de avaliação variam conforme o “cliente”. Tanto se pode exigir muito, como nada, consoante o caso de cada aluno. Viva os DL 54 e 55/2018…. A Lurdinhas foi a verdadeira coveira do ensino, mas estes que lá estão agora continuam alegremente a executar a sua missão.
    E depois? Depois anda-se a discutir pormenorizadamente as %s que se dão a cada coisa… 🙂 E a gastar energia com centenas de registos e planos que se irão resumir a: nivelar o nível de exigência ao mínimo dos níminos ou não exigir absolutamente nada – para isso não era preciso tanto papel gasto… tanto tempo desperdiçado e tanto mal causado a quem deixa de ter fins de semana a pensar na escola e a fazer trabalho para a escola…

    • Eduardo on 29 de Dezembro de 2021 at 19:42
    • Responder

    Viste tanta coisa e não foste capaz de ver professores revoltados com a avaliação corrupta, secreta que beneficia o amiguismo, as subserviências, a cunha e o favor pago? Deves ser daqueles que apenas tem um olho aberto… Pois só um cegueta não vê o péssimo ambiente que se vive nas escolas devido à avaliação injusta dos docentes. Não viste que o trabalho colaborativo não existe e que a conflitualidade é tremenda entre os docentes devido a haver muitos lambe botas que fazem de tudo para beneficiarem da avaliação?… Não viste como os diretores escolares controlam tudo e todos, protegendo os apaniguados? Vai ao oculista comprar uns óculos novos…

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