Não lhes ofereceram mais. Não era suposto, que um povo letrado é um povo que exige. Nunca foi preciso. Tal como nunca foram precisos sapatos para cobrir os pés das crianças que eram, e são, os nossos pais, os nossos tios e tias: andavam descalços e corriam descalços. Como, aliás, todas as crianças na rua. E porque o dinheiro era pouco e as refeições à mesa também mas as bocas e os braços mais que muitos, foram trabalhar depois de cumprida a tal quarta classe, a instrução básica para saber o que custa a vida. E porque a vida custa, os nossos pais aprenderam à própria custa sobre injustiça, mais injustiça que de fome já tinham a sua porção, comer uma vez por dia e tantas vezes nem isso, os Invernos sem fim nem sono tal o frio mesmo se os irmãos todos na mesma cama, a caridade de uns vizinhos aliada ao desdém de outros, a humilhação do atestado de pobreza, o nosso avô preso de tanto protestar. Resultado, as tias foram trabalhar como criadas de servir e só voltaram a casa seis anos depois e os rapazes na fábrica desde os 10 anos, com o dinheiro ganho compraram-se sapatos e nas casas dos senhores as tias tinham sempre que comer. Mas nem tudo era mau, e porque nem tudo era mau havia a biblioteca itinerante, a espalhar ideias e histórias, sonhos e viagens, outras vidas, outras realidades, desde os clássicos de aventuras e romance ao Aquilino, ao Torga, ao Ferreira de Castro, o Vergílio, Sartre, Jorge Amado entre tantos outros autores e amigos tratados por tu e passados às escondidas tal como a biblioteca às escondidas a fugir da polícia, dos bufos e da PIDE de terra em terra e os livros, todos os livros nas mãos dos nossos pais, dos nossos tios, das nossas tias e em todos os livros a promessa firme de um outro amanhã definitivamente melhor. Os nossos pais não precisaram de um curso para fazer Abril. Mas precisaram de livros, mais livros, ideias, discussões, reuniões, movimentos, mais movimentos e protestos e esta casa hoje forrada de prateleiras e lombadas de alto a cima para, livro após livro, fazer o amanhã. Esse amanhã somos nós com um curso superior, independentes, activos, uma carreira pela frente, direitos, estabilidade, sonhos, capacidade económica, educação, o mesmo gosto pelos livros, o carinho pelos livros, a consciência plena da sua importância, uma vontade sem fim de aprender e a felicidade de aprender. Porque os nossos pais assumiram a vantagem de ter a quarta classe, fizeram uma revolução e mudaram um país. A educação e formação, a sua primeiro e a dos filhos depois, foi a vingança para com uma vida desigual e gritante. Saibamos formar os nossos filhos. Saibamos ler para os nossos filhos. E continuar a forrar paredes com lombadas. Para mudar o mundo. Senão o nosso, de certeza o deles.




5 comentários
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Que narrativa tão densamente… pesada e cansativa! Confesso que não passei da segunda linha.
Não passou da segunda linha porque se calhar, felizmente, nunca teve pais nessa situação. O meu pai ia para a escola descalço em pleno inverno e a minha mãe foi servir para casas dos senhores ricos da terra… Apesar das dificuldades conseguiram dar a volta à sua vida e dar um curso superior às filhas…
Se tivesse lido tudo talvez fosse um pouco mais empática, com o sofrimento dos outros.
Ser gentil não é assim tão difícil!
Experimente, pode ser que goste!
Um texto muito romanceado do que se passava. Não o entendo.
Qual a vantagem de ter pais com a 4ª classe? Qual a vantagem de ter pais analfabetos?
Não entendo.
Já agora:
1- ” …todos os livros nas mãos dos nossos pais, dos nossos tios, das nossas tias e em todos os livros a promessa firme de um outro amanhã definitivamente melhor.”
Nesta época, poucos eram os que tinham a 4ª classe. E, muito menos, as mulheres.
2- “Os nossos pais não precisaram de um curso para fazer Abril.”
Quem fez Abril acontecer foram os oficiais e capitães, com cursos superiores.
Este texto é uma aldrabice.
Não foram os pais descalços que fizeram a mudança,/la revolución, foram os abutres ricos de esquerda que queriam dominar o povo e substituir os patrões fascistas pelos patrões comuno-socialistas. Sim, eles mesmo, os que não andavam descalços, os chamados ricos de esquerda, os novos bandidos que viriam a explorar o povo nos 50 anos que se seguiram a la revolucion de mierda.