A Educação em Portugal continua a inovar. Desta vez, anuncia-se no Secundário a possibilidade de os alunos escolherem as disciplinas que querem estudar. Por enquanto, em turmas-piloto, quiçá no futuro, uma generalização à esfera nacional.
Infelizmente, nos últimos anos, temos constatado uma clara deterioração da qualidade do ensino público, medida por rankings discutíveis, mas que constituem a única fonte de informação comparativa face ao ensino privado (absolutamente credível, dado o exame ser igual para ambos). Por muito que se afirme que as realidades são incomparáveis porque as respetivas sociologias são diferentes, a verdade é que sempre assim foi e a qualidade medida do ensino público já esteve bem melhor.
Com mais esta inovação receio bem que, a prazo, a qualidade média do ensino público ainda se agrave mais. Ou seja, por muito bem-intencionados que sejam os autores destas alterações de percurso estudantil, existe a forte probabilidade da existência de uma fuga generalizada dos alunos às dificuldades de determinadas disciplinas, como a matemática ou físico-química, perante a complacência das direções de escolas (até me arrepio a pensar na escassez futura de certos quadros como por exemplo engenheiros, dada a importância primordial damatemática…).
Mal comparado, faz lembrar os doentes que fazem auto-prescrições à revelia médica! Veremos as consequências futuras de mais estas liberdades originais, mas receio fortemente que se traduzam em facilitismos perniciosos para a Sociedade, porque, infelizmente, as alternativas existentes (os estudos no setor privado) não são acessíveis para a maioria da população e, no longo prazo, agravar-se-ão as diferenças sociais.




13 comentários
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Infelizmente, penso que tem toda a razão…
Não é o que já acontece na escolha dos cursos profissionais nas escolas do ensino público? Grande parte destes alunos escolhe sobretudo o curso de Desporto e na 2a opção o de informática para concluir o 12º ano. Claro que os colegas da formação sociocultural e específica deverão baixar a sua fasquia para não prejudicar a taxa de sucesso do curso.
Nos cursos de prosseguimento de estudos as 2 disciplinas de opção são escolhidas pela facilidade dos seus conteúdos e/ou pela “compreensão” dos docentes.
Não percebo este comentário. É só nos cursos de Desporto e de Informática (há vários) que os coitados «colegas da formação sociocultural e específica deverão baixar a sua fasquia para não prejudicar a taxa de sucesso do curso», ou há cursos profissionais em que estes pobres “colegas” mantêm o seu nível de exigência? Se os há, agradecia que os identificasse. Nos cursos de Informática (há vários) há muito que também já se baixou essa “fasquia” na área técnica, eu diria mesmo que em alguns casos é “100 metros livres sem fasquia”. As classificações que aparecem nas pautas são quase todas inflacionadas, incluindo as da área técnica.
Não vejo isso da maneira como vê o autor. Dar ao aluno a possibilidade de escolha é fazer com que eles esteja a aprender o que realmente quer aprender, o que ele realmente gosta, seja matemática, fisíco-química, filosofia, ou o que for. Do ponto de vista do professor, é supervantajoso, porque já não está a falar para as “paredes”, e as notas vão ser bem melhores, do ponto de vista do aluno, é uma forma de ele estar na escola para aprender porque gosta do que lhe ensinam.
Toda a aprendizagem ,desde o nosso nascimento,é penosa . O papel do educador é motivar o aluno a superar dificuldades e não a deixar que ele vá pelo caminho mais fácil, essa atitude em nada beneficia o jovem e impede-o de tirar partido de todas as capacidades que tenha. É mais fácil descer do que subir e este sistema é um convite ao facilitismo.
“…e não a deixar que ele vá pelo caminho mais fácil”
Esta lógica leva-nos a considerar o que são áreas mais fáceis ou difíceis, o que não deve ser generarizado assim tão peremptoriamente.
A matemática pode ser para muitos muito mais fácil do que, por exemplo, a aprendizagem da lingua inglesa.
A FQ pode ser para muitos muito mais fácil do que, por exemplo, literatura portuguesa /análise de poemas.
Basta de ideias pré concebidas e sensos comuns.
Viva, antes, o bom senso e as mentes abertas.
Inovação ou degradação?
Mas alguém consegue identificar ( nos últimos anos) uma única inovação que tenha trazido bons resultados ?
Tenho “mixed feelings” quanto a este sistema.
Tratado e pensado com bom senso pode trazer benefícios para os alunos.
Só a título de curiosidade quanto a isto:
“(até me arrepio a pensar na escassez futura de certos quadros como por exemplo engenheiros, dada a importância primordial damatemática…).”
A engenheiros civis, mecânicos e de electrotecnia, pelo menos estes, estão a ser oferecidos salários na ordem dos 800 euros brutos, sem viatura da empresa e sem outras condições /benefícios laborais.
E , pasme-se, com 5 anos de experiência.
O economista Eugénio Rosa alerta:
“Tem-se assistido nos últimos anos a uma grande preocupação política em aumentar o salário mínimo nacional, descurando a atualização dos salários dos trabalhadores mais qualificados, o que está a provocar fortes distorções salariais no país e a transformar Portugal num país em que cada vez mais trabalhadores recebem apenas o salário mínimo ou uma remuneração muito próxima”. A garantia é dada pelo economista Eugénio Rosa.
Uma questão que ganha maiores contornos quando está previsto que o salário mínimo nacional (SMN) aumente para os 705 euros já em 2022. Uma subida que continua a ser possível, uma vez que a decisão depende apenas do Executivo, que está ainda com plenos poderes.
Para explicar este cenário de que o país se está a transformar num país de salários mínimos dá, como exemplo, 156 ofertas de emprego disponíveis no IEFP para engenheiros civis, eletrotécnicos, mecânicos, agrónomos, etc., cujos salários oferecidos, de acordo com o economista, na sua esmagadora maioria variam entre 760 e mil euros. “Isto são remunerações brutas, antes de descontar para o IRS e para a Segurança Social. Como é que o país assim pode reter quadros qualificados?”, questiona.
https://sol.sapo.pt/artigo/752237/engenheiros-civis-eletrotecnicos-mec-nicos-e-agronomos-com-oferta-de-760-a-mil-euros-
quem nasceu lagartixa nunca chega a jacaré: só uma reforma verdadeira pode salvar a educação em Portugal, a começar por cima até chegar aos alunos e suas famílias…
Desde sempre que há alunos a seguir determinadas áreas para fugir a certas disciplinas, portanto não vejo o que isto muda. Também faltam muitos detalhes: as disciplinas vão ser todas escolhidas pelos alunos, ou apenas uma parte? Por fim, vão continuar a haver alunos a quererem prosseguir os estados em todas as áreas, logo não vejo que o país vá ficar sem engenheiros, porque agora os alunos vão passar todos a evitar a matemática, logo, vão deixar de concorrer às engenharias. Este tipo de iniciativas parece-me inevitáveis no futuro (e não apenas cá), onde a escola vai deixar de funcionar num modelo de linha de montagem, promovendo o “todos por igual” (tipo fábrica), para se tornar mais personalizada e adaptada a cada aluno.
A reforma no ensino, terá de começar na revisão dos currículos, especialmente na área da Matemática, pois não se adequa ao nível de maturidade do raciocínio lógico dos alunos.
Comparar ou avaliar a educação pública, com base nos rankings e exames é impensável, como todos sabemos, pois as realidades socioeconómicas geram desiquilíbrio a nível da literacia , nos alunos.
Este artigo “ataca” o ensino público, o que tem sido uma constante na comunicação e redes sociais, a diferença na atualidade é que parece que o professor deixou de ser o alvo, para passar a ser a instituição escola. A ter sucesso, esta campanha, teremos a população privada de educação gratuita, no futuro.
Conveniente.
Gostei de ler o que o josé e a Rita Fernandes escreveram.
A paciência já vai faltando para tanto conservadorismo.
O que se vai lendo por todo o lado, incluindo por professores, entristece.
Da crítica bem vinda passa-se ao criticismo redundante, fácil e desolador.
Um criticismo que tende a amolecer ainda mais a vontade de agir.
E , como diz a Rita Fernandes, ataca-se o ensino público.
Da mesma forma como se ataca o SNS.
Experimentem a privatização destas duas áreas tão essenciais e depois falamos.