Confidentes de alunos e cúmplices de professores: o braço contínuo

Chamam-lhes “funcionários” porque funcionam. A expressão até parece sugerir que eles são os únicos que “funcionam”, dentro de uma escola. Acalmem-se os tolos. Significa apenas que os “assistentes operacionais”, ou “auxiliares de ação educativa”, títulos mais pomposos do que “contínuos” – expressão que estimo muito – são pau para toda a colher.

Confidentes de alunos e cúmplices de professores: o braço contínuo

Confidentes de alunos, cúmplices de professores, os senhores “contínuos” são parte ativa e primeira da vida de uma comunidade escolar.

A sua opinião é, não só indispensável, como, por vezes, é mesmo a única que sabe interpretar devidamente aquilo que realmente acontece numa escola. Uns são mais profissionais e “funcionários” do que outros. Passa-se com eles o mesmo, afinal, que se passa em todos os ofícios. “Precisamos de saber respeitar e de nos fazer respeitar”, confessava-nos um encarregado do pessoal assistente.
Se meia dúzia deles cumpre um constitucional direito à greve, as escolas fecham
Todos sabemos de uma coisa. Isto do respeito, nem sempre é fácil. Conquista-se lentamente, passo a passo, gesto ante gesto. Continuamente. Outra coisa é certa: não há escola sem eles, os “contínuos”. A sua importância é tal que, se meia dúzia deles cumpre um constitucional direito à greve, as escolas fecham “por não estarem reunidas as condições para o funcionamento regular das aulas”. O país pára. Sentem-se maltratados pela carreira e, por vezes, também pelos outros membros da comunidade. Querem apenas o que merecem, porque merecem muito mais do que o que lhes damos.
Fazem de tudo. Dão uma mãozinha, quando alguém dela precisa. Tanto cortam bifes aos pequenitos que ainda não dominam o garfo e a faca no refeitório, como apertam os atacadores para os mais atados. Ao mesmo tempo que mudam lâmpadas no cimo de um escadote, também se revelam psicólogos e assistentes sociais a aguardar diploma honoris causa. São os reis do insourcing e as direções escolares conhecem bem o seu valor.

SIC Notícias

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2 comentários

    • JC 520 on 5 de Dezembro de 2021 at 18:00
    • Responder

    Isto.

    Reconheçam estes profissionais. Eu sou professor e acho que estes profissionais deviam ganhar tanto como eu.

    Professores que nasceram com o rabo virado para a Lua falam com estes colegas, como se lhes fossem superiores eticamente, moralmente e humanamente. Acordem para a vida: estas pessoas merecem o devido respeito e reconhecimento.

    • Alexandre Marques on 7 de Dezembro de 2021 at 14:30
    • Responder

    Eu chamo-lhes “O Elo mais Fraco”. Tratados com desdém por muitos professores; continuamente escarnecidos, caluniados e ofendidos por muitos alunos; regularmente tornados bodes expiatórios por muitos pais e muitas vezes espancados por estes.

    Pneus furados, filhos ameaçados, em muitas escolas o medo é a profissão do funcionário, que as mais das vezes é uma funcionária, ainda por cima.

    Ouvem ameaças e insultos que levariam qualquer pessoa ao desespero. São empurradas e agredidas por fedelhos mal educados que sabem que elas não dão notas e que o testemunho delas vale zero. Afinal, todos eles serão doutores e elas nasceram para apanhar o lixo e suportar os desaforos deles.

    Os directores sorriem com complacência e escárnio quando elas se lhes queixam de alguma coisa que noutro ser humano seria grave. Nasceram para sofrer. Ganham uma miséria.

    Um certo presidente de conselho directivo meu conhecido e que dava azeitonas, referia-se a eles/as frequentemente como “a merda de um funcionário”. Era uma merda de professor e sobretudo uma merda de ser humano.

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