Paulo Prudêncio – Contratar Mais Professores?!

Um bom texto do Paulo Prudêncio que aborda mais uma vez a questão da formação inicial de professores e a necessidade de se pensar neste assunto.

 

Contratar Mais Professores?!

 

Acentua-se a falta de professores para diversas disciplinas o que dificultará o anunciado reforço de contratação em tempo de pandemia. O problema tornou-se estrutural. Mesmo que se iniciasse uma qualquer urgência formativa, os efeitos chegariam depois de 2030. Para além disso, e é saudável que se pense também para lá da crise, mais de metade dos professores reformar-se-á nesta década e muitos cursos de formação inicial estão há anos a fio “sem alunos”. Em cada cem (ou em cada mil) alunos dos cursos “regulares” do ensino secundário, contam-se pelos dedos de uma mão os que escolhem ensinar como profissão e é surpreendente que não se motive os jovens para o ensino.

Para além da falta de atractividade da profissão, dá ideia que se esgotou o modelo de formação inicial. Um caminho mais flexível e apelativo seria a criação de licenciaturas exclusivamente para as componentes científicas. Ajudaria numa mudança futura de profissão. Só nos mestrados se estudaria a pedagogia para leccionar. Apenas depois de um estágio (internato ou profissionalização) plurianual, realizado em exercício, se acederia ao quadro e a uma carreira. Mas nada disso se discute e a especificidade científica perdeu peso na profissionalidade. Aliás, até a formação para professores no activo se centra na preparação da sua irrelevância. Parece um paradoxo, mas é só parecença.

Repare-se na ligação de três factos e tendências:

1. as gigantes tecnológicas de serviços – google, amazon, uber, booking ou airbnb – não produzem conteúdos para os motores de pesquisa nem objectos, carros, hotéis ou imóveis de aluguer, mas cobram pela sua utilização na generalidade do planeta com trabalhadores independentes não regulamentados que estão na nuvem;

2. os professores no activo alimentam gratuitamente os servidores da google (por exemplo, nas plataformas drive, doc´s, classroom, gmail ou youtube) com conteúdos de ensino planificados ao detalhe e com os receptivos testes de avaliação de alunos prontos a utilizar pela IA; e a exemplo doutros domínios, a google (que ganhou mais esta disputa à microsoft) absorverá com facilidade as editoras com escolas virtuais;

3. há uma revolução do trabalho que pede como competência a ligação à internet; como escreve Klaus Schwab (2017:46), na “A Quarta Revolução Industrial”, “parte da força de trabalho desenvolve diferentes tarefas para assegurar o seu rendimento – pode-se ser um motorista da Uber, um shopper do Instacart, um anfitrião do Airbnb e um Taskrabbit”.

Ou seja, criam-se condições para acrescentar os tarefeiros das salas de aula (que podem acompanhar qualquer disciplina) a pensar na civilidade presencial da escola automatizada massificada. E se os professores continuam numa zona de incerteza porque ainda não são incluídos nas profissões mais e menos propensas à automatização, dá ideia que a passividade dos sucessivos governos na formação inicial é “articulada” com as gigantes tecnológicas que prestariam, através dos cortes na educação, um “relevante” serviço aos orçamentos dos países. Dir-se-á que são as regras do jogo. Mas como dizem os investigadores da quarta indústria, o futuro pode ser muito bom ou caótico. Aliás, já se iniciou uma corrida imparável ao trabalho virtual não regulamentado que se pode transformar em forte instabilidade social e política e difícil de reverter num ensino “sem” formação de professores.

Nota: Klaus Schwab (2017), na “A Quarta Revolução Industrial”, apresenta uma lista das profissões mais e menos propensas à automatização: mais propensas: operadores de marketing, contabilistas, avaliadores de seguros, árbitros e juízes desportivos, secretários e assistentes administrativos, recepcionistas, consultores imobiliários, agricultores, estafetas; menos propensas: assistentes sociais, coreógrafos, médicos e cirurgiões, psicólogos, analistas de sistemas, antropólogos e arqueólogos, engenheiros e arquitectos navais, gerentes de vendas.

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13 comentários

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    • Sorceressa on 21 de Junho de 2020 at 21:43
    • Responder

    E isso a mim o que é que me interessa?
    Eu quero é banir, banir, banir, com o sem razão, quero é banir porque quem manda aqui, adivinhem… sou eu, claro! E quem disser o contrário é banido!

    Fiquem bem, fiquem banidos… eu fico bem, fico sozinha.

      • Pirilau on 22 de Junho de 2020 at 10:43
      • Responder

      O que tem a contratação a “haver” com banidelas? Tem tudo a “haver”! Embora moderadamente, é claro. Por exemplo, pode-se dizer “cu”, desde que seja moderadamente, mesmo que o “cu” não tenha nada a “haver” com as calças. E pode porque, segundo a moderada sapiência de sua real magestade, um tal Bocage também assim se expressa e, vejam bem, a sua leitura até faz parte do programa de Português do segundo ciclo, coisa que nem o Manuel Maria seria capaz de imaginar.
      De facto, a courela está muito bem entregue a sua real magestade, a qual até consegue “interver” com intervenções deveras peculiares , exempli gratia, clamando a puerilidade comportamental de uma marquesa de serviço por esta se ter enamorado de um membro da plebe, por sinal bem teso, insinuando mesmo que o título nobiliárquico da marquesa estaria melhor entregue a uma sua súbdita fidelíssima e não moderadamente frívola.

    • Manuel on 21 de Junho de 2020 at 22:07
    • Responder

    E qual a relação da pergunta “Contratar Mais Professores?!” com o texto? Crítica ao que o governo aventou?

    • Prof@ sofre on 22 de Junho de 2020 at 1:09
    • Responder

    Será que vão conseguir que mesmos os poucos professores que restam queiram correr perigos reais de vida?

    Pergunta: Quem será o louco que aceitará trabalhar em Agrupamentos que dão nenhum valor à vida Humana?

    Caso infelizmente verídico:
    Um Agrupamento de Escolas do Concelho de Odivelas, que tinha já publicado e enviado em maio o Calendário dos Concelhos de Turma de Avaliação online, manda 6ª feira um novo totalmente em regime presencial.
    O Concelho de Odivelas, como é publicamente conhecido, é um dos Concelhos da Grande Lisboa com a situação Covid-19 totalmente fora de controlo.
    Quais serão as consequências de fazer deslocar desnecessariamente à sede do Agrupamento centenas de professor@s com aulas presenciais a decorrer?
    O corpo docente deste Agrupamento é dos mais envelhecidos do pais. Há muitos professor@s com doenças associadas ao desgaste profissional extremo.
    Há professor@s que terão no mesmo dia três reuniões. Uma máscara não aguenta tanto.
    Acresce-se que todos os Concelhos de Avaliação Intercalar foram realizadas online e tudo decorreu perfeitamente bem. Todos os professores usaram os seus meios tecnológicos para as aulas síncronas e assincronas.
    Isto tudo parece-me ser um muito mau pronúncio do que será o próximo Ano Letivo.

    Pergunta: Quem será o louco que aceitará trabalhar em Agrupamentos que dão nenhum valor à vida Humana?

    Esperam -se coisas muito piores do que o Covid-19… Ele pelo menos não tem consciência das consequências dos seus atos.

      • Paulo Anjo Santos on 22 de Junho de 2020 at 2:56
      • Responder

      Pois, o envelhecimento da classe docente é agora também mais um motivo de problemas… como se já não fossem muitos! Agora, como dizia o outro, habituem-se!!

      • Maria on 22 de Junho de 2020 at 9:47
      • Responder

      Concelho de Odivelas,
      Conselho de turma!

      • SimsouContratado on 22 de Junho de 2020 at 18:12
      • Responder

      Eu aceitei, aceito, aceitava e aceitarei…. porque como contratado, eu quero é trabalhar! Estou farto de ouvir o pessoal a ser pessimista, a dizer que o ensino à distância é para continuar, é a melhor forma para se protegerem e que não querem ir para as escolas e tal (palavras essencialmente de VINCULADOS que sabem que de uma forma ou de outra TÊM SEMPRE O EMPREGO ASSEGURADO! tenho estado num agrupamento que tem acolhimento a alunos dos profissionais de saúde e forças de segurança desde finais de abril até agora com 8 a 10 alunos por sala e até hoje tudo normal….. sem medos, com mais cuidados claro e com a mesma vontade ou mais de trabalhar! É preciso aprender a conviver com tudo isto…. e levar as coisas o mais normal possível. Toca a ir para escolas….

        • Madala on 22 de Junho de 2020 at 18:16
        • Responder

        ehehehe, este é dos meus! Sim toca a ir para as escolas e quem não quiser que meta baixa!!!! Porque à distância ninguém mete baixa, concorre-se para longe sem problemas, engraçado não é!

        • Luluzinha! on 22 de Junho de 2020 at 19:23
        • Responder

        Muito bem. Expõe uma opinião que eu já sustento há muito tempo.

    • anaduarte on 22 de Junho de 2020 at 8:04
    • Responder

    Conselhos de turma e concelho de Odivelas.

    • Matilde on 22 de Junho de 2020 at 10:49
    • Responder

    No geral, concordo com a análise autor.

    Trabalho virtual e automatização: artificial, “postiço”, contra-natura, fictício… Ocorrem-me sempre estas conotações…

    Se esse é o futuro, eu não o quero… Não quero mesmo!

    “Old fashioned”? Retrógrada? Quero lá saber, pouco me importa…

    E, sim, também sei que no momento actual não existiam outras alternativas, mas também espero que a curto prazo surja uma vacina capaz de anular este vírus e que os contactos entre pessoas sejam restabelecidos e que possam voltar a ser predominantemente presenciais/reais e não meramente virtuais…

    As consequências do desgaste emocional e psicológico de toda esta situação ainda estarão por avaliar em termos objectivos, mas creio que a saúde mental, no geral, não ganhou nada com ela, pelo contrário, antevêem-se efeitos muito nefastos, nalguns casos mesmo inultrapassáveis…

    • Alice on 22 de Junho de 2020 at 15:35
    • Responder

    Os sindicatos estao a cagarraaa-se para os conselhos e turma presenciais. Tudo caladinho.
    A unica coisa boa que resultou da pandemia, que mesmo sem pandemia se deveria manter é a única coisa que vai logo ao ar…
    incrivel

    Reunioes online foi a unica coisa que resultou nesta confusao do e&d

    • Mário Relvas on 22 de Junho de 2020 at 16:21
    • Responder

    Desde 2006 que a formação de professores separa os saberes: licenciaturas científicas e mestrados profissionalizantes.

    Por isso não percebo a proposta do autor.

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