Estão a terminar as aulas a que pomposamente, e para dar um ar de que a malta facilmente domina estas coisas da tecnologia, chamamos de “Ensino @ Distância” (acho o pormenor da arroba delicioso). Podemos afirmar que a maioria de nós saiu viva deste período de tempo interminável em que se arrastou o fim do segundo período e este terceiro período. Sim, porque o ensino à distância (ou deverei dizer “a distância”?) teve o seu início nos últimos quinze dias do segundo período. Contudo, “ficou-me cá a parecer” que o senhor Ministro da Educação não acreditou muito nas suas próprias palavras (relembro a afirmação perentória do senhor ministro: “ninguém está de férias”) e vai daí decidimos alargar o terceiro período e o ano letivo, fazendo-o terminar precisamente quinze dias depois do que era previsto. Este aumento de quinze dias teve algum resultado positivo? Sou de opinião que não.
Efetivamente, terá sido neste 15 dias a mais que os alunos terão realizado todas as aprendizagens que ainda estavam pendentes? Obviamente que não. Penso que ninguém se terá lembrado, naquelas altas instâncias, que é precisamente no terceiro período que se costuma desenvolver uma maior quantidade de atividades lúdicas devido ao clima de cansaço e saturação que já se vive no meio escolar por essa altura. Mas, claro, este ano é um ano atípico (a frase que mais ouvimos ultimamente) e, por isso, vá de prolongar aquilo que para todos já é um suplício.
Contudo, o que importa no meio disto tudo, é que o ano letivo está a terminar e há que olhar para trás e pensar um pouco sobre como correu todo este “Ensino @ Distância”. Aquilo que vou ouvindo, por aqui e por ali, é que foi um sucesso. E não, não poderei dizer o contrário. Foi um sucesso porque, os alunos não ficaram um dia que fosse desocupados e sem aulas. Um sucesso porque rapidamente os professores se muniram da sua força de vontade e da sua capacidade de trabalho para colocar em andamento uma escola a que poucos estavam habituados. Um sucesso, e aqui só posso falar no meu caso, porque se conseguiu suprir, em tempo record, a falta de equipamento que alguns alunos tinham. (sei que não aconteceu assim em todos os Agrupamentos). Um sucesso porque se conseguiu que os alunos mantivessem uma rotina de trabalho em casa, que se mantivessem ativos, o que lhes manteve, tanto quanto possível, um clima de relativa normalidade (que era importante manter).
Mas o sucesso, relativo, ficar-se-á por aqui. Desculpem a sinceridade da questão mas tenho de a fazer: alguém acredita mesmo que se realizaram aprendizagens nestes meses?
Se a pergunta me for colocada a mim posso dizer que sim, que aprendi muito (e não, não falo das aprendizagens que realizei ao nível informático – que também foram muitas!)
Digo-vos que aprendi imenso sobre as vidas pessoais dos meus alunos – entrei pelas casas dentro de alguns que não tiveram qualquer pejo em mostrá-las: alguns trabalhavam nos seus quartos, sim, alguns poucos num escritório, e outros tantos em salas de estar e cozinhas. Aprendi a trabalhar com os meus alunos enquanto ouvia a Cristina Ferreira em som de fundo (que tenho neste momento certeza que deve ser dos programas mais vistos pela manhã). Aprendi também que muitos pais não perceberam que, de facto, os seus filhos estavam numa sala de aula, ainda que virtual. Como tal, assisti a discussões entre adultos que preferia não ter visto nem ouvido, sentindo-me a assistir a um verdadeiro Big brother.
Percebi que o uso de “linguagem colorida” é apanágio não só de alguns dos meus alunos e que a mesma é usada por alguns adultos que com eles convivem, usando-a sem qualquer preocupação com aqueles que possam estar a ouvir (por exemplo, o professor).
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