É preciso menos alunos por turma para o regresso às aulas

 

É preciso menos alunos por turma para o regresso às aulas

O Orçamento Suplementar apresentado ontem no Parlamento pelo novo ministro das Finanças foi anunciado como o balão de oxigénio de investimento público para responder à pandemia. A recuperação económica e o reforço dos serviços públicos foram objetivo anunciado – daí chamarem-lhe suplementar, e não retificativo.

Era legítima a expetativa de quem foi ao Orçamento à procura de verbas suplementares para serviços públicos essenciais que estiveram e estarão na linha da frente do combate à crise e aos seus efeitos, e é compreensível a indignação de quem não encontrou no documento uma única referência à escola pública e às necessidades do próximo ano letivo.

Pelo contrário, quem ler o Orçamento verá que o quadro plurianual de programação orçamental 2020-2023, acrescentado noutras rubricas, mantém inalterado o valor para o ensino básico e secundário e administração escolar em 5708 milhões, e nem mais um euro.

Segundo o Orçamento Suplementar, o próximo ano letivo será igual a todos os anteriores ou, pior, igual aos últimos meses. Ambas as ideias são trágicas. A primeira, porque não é concretizável face à pandemia e não fazer nada só agravará alguns problemas estruturais da escola pública. A segunda, porque se baseia na perigosa ilusão de que o sucesso do ensino à distância depende de equipar os alunos, os docentes e as escolas.

Sem equívocos, o programa de modernização digital é uma boa notícia que só peca por tardia, mas não resolve o problema essencial da educação em 2020/2021. As limitações do contacto educativo à distância não decorrem do acesso a computadores, mas do afastamento das crianças e jovens em relação à escola. Esse afastamento tem consequências pedagógicas e sociais e prejudica até direitos fundamentais das crianças e dos jovens.

É dado adquirido que o ensino à distância agrava as desigualdades. A Fenprof realizou um inquérito a 3500 docentes e 93,5% consideraram que o ensino à distância veio agravar as desigualdades entre os alunos. Particularmente preocupante é a ideia de que, em meados de maio, mais de metade (54,8%) dos professores continuava sem conseguir contactar os seus alunos, mas 70,5% estavam a lecionar novos conteúdos. Há dimensões da escola e da educação pré-escolar que não são substituíveis pelo ensino à distância, mesmo que ele se realizasse em condições pedagógicas perfeitas, o que está muito longe de se verificar. A socialização com os pares e com os docentes, dentro e fora das salas de aula, é um contributo insubstituível no percurso de desenvolvimento das crianças e dos jovens. O confinamento em casa impede essa socialização e prejudica de forma particular as crianças e os alunos com necessidades educativas especiais.

Os danos do afastamento serão tão mais permanentes quanto o tempo que ele durar. O que devia estar no centro do debate não são apenas os instrumentos do ensino à distância, mas as condições para o regresso às escolas em tempos de pandemia. Há muitos fatores que têm de ser tidos em conta, mas há um ao qual não é possível escapar: a diminuição do número de alunos por turma e o acompanhamento dos alunos que ficaram para trás durante este período. Vai ser preciso contratar mais professores, mais assistentes operacionais, mais técnicos especializados.

Sobre isto, nem uma palavra no Orçamento Suplementar. Devemos um agradecimento a todas as escolas que se empenharam na resposta de emergência à distância, mas desengane-se quem viu nela a panaceia para todos os males. O direito à educação desta geração vai jogar-se na possibilidade do seu regresso à escola.

Certamente que a adaptação das escolas à educação presencial em tempos de pandemia custa dinheiro. Mas quanto custará abdicar da igualdade social, da diminuição do abandono escolar, da elevação geral do povo pela educação, conquistas da escola pública? Tudo isto é demasiado importante para ficar resolvido por uma inexistência no Orçamento Suplementar.

 

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5 comentários

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    • Matilde on 18 de Junho de 2020 at 11:18
    • Responder

    “O que devia estar no centro do debate não são apenas os instrumentos do ensino à distância, mas as condições para o regresso às escolas em tempos de pandemia.”
    “Sobre isto, nem uma palavra no Orçamento Suplementar.”

    Subscrevo inteiramente.

    É muito mais fácil e cómodo para o Governo gastar 400 milhões de euros na chamada Escola Digital (Plataformas e programas digitais), como já foi anunciado por António Costa, do que gastar o que for preciso para criar “as condições para o regresso às escolas em tempos de pandemia” e limitar as consequências pedagógicas, psicológicas e sociais decorrentes do fecho das escolas…

    Os 400 milhões servirão apenas para “aliviar consciências” e ajudar algumas empresas a prosperar, nomeadamente aquelas que vierem a fornecer as ditas plataformas e programas digitais…

    O Governo fará de conta que resolveu o problema e as escolas, na figura das suas direcções, como é costume, farão também de conta que o problema foi resolvido…

    Algumas (não poucas) crianças/jovens continuarão como sempre estiveram: entregues a si próprias, desprovidas de apoio e de acompanhamento e camufladas pelas estatísticas “boas” do Ministério e das escolas…
    Nesse cenário, as desigualdades económicas e sociais, acentuadas e reforçadas pelo E@D, não vão desaparecer, pelo contrário…

    Portanto, a montante tudo ficará por fazer, mas como o que importa é o jusante, todos dirão, por certo, que os programas e as plataformas digitais foram um êxito tremendo e que as escolas portuguesas se tornaram em verdadeiras Escolas do Século XXI…

    Mas algumas (não poucas) crianças/jovens continuarão abandonadas, alheias a tanto festejo, a tanto regozijo e a tanta hipocrisia… Para esses não existirá escola, muito menos uma Escola do Século XXI…

    • Alecrom on 18 de Junho de 2020 at 13:07
    • Responder

    Não sejam marretas.
    O patriotismo sistémico, transversal, integrado e flexível,
    resultará,
    tenho a certeza,
    noutro exemplo de pleno sucesso educativo.
    Se repararem,
    até os surtos Covid que se multiplicam ali por Lisboa e arredores,
    não atingem as secundárias.

    • Maria on 18 de Junho de 2020 at 13:12
    • Responder

    Estou plenamente de acordo com a diminuição do número de alunos por turma. Ainda mais em agrupamentos de escolar com salas existentes no edifício do jardim Infância prontas a abrir, com equipamentos. Falo do agrupamento de escolas Nuno Santa Maria em Tomar. Ainda com a agrave te de existirem pelo menos duas educadoras do quadro com 39 anos de serviço, estas incluindo Eu, nunca podem ter a sua turma. Tendo de ficar com outras colegas na sala , é nem sempre corre bem pois as mais novas têm medo que a colega por ser mais velha, lhe tire o lugar. Estou cansada e farta destas injustiças, que se arrastam há 2 anos e nos desgasta profissionalmente. No O E nada sobre a redução do número de alunos por turma.. Era o mínimo que podiam fazer para dar lugar e trabalho a docentes quase em final de carreira, que estão a passar por estas injustiças. Mas a fé é a esperança será sempre a última a morrer, isto se o vírus Civid não chegar primeiro. Obrigada.

      • Matilde on 18 de Junho de 2020 at 14:16
      • Responder

      “Mas a fé é a esperança será sempre a última a morrer, isto se o vírus Civid não chegar primeiro.”

      Maria, parece-me que, e infelizmente para todos nós, não vamos poder ter essa esperança…

      A julgar pelo número de infectados divulgado nos últimos dias (vejam-se os números na Grande Lisboa e agora também noutros lugares como em Lagos), o Covid não nos vai dar tréguas…

      A total irresponsabilidade de algumas pessoas e também a sua falta de civismo e de inteligência estão a conduzir a um novo descalabro… Se continuarmos assim, em Setembro não existirão quaisquer condições para o regresso às escolas…

      E o que diz o Presidente da República e o 1º Ministro acerca deste assunto?Até agora, NADA!

      Ou melhor, dizem… Dizem que é fantástico para o país, Lisboa acolher a “Champions League… Sim, e seria ainda muito mais fantástico podermos acolhê-la com público nos estádios, coisa que, neste momento, não passa de uma absoluta miragem…

      Decretaram o regresso da normalidade e agora está a ser-lhes muito difícil assumir as contrariedades e tomar algumas medidas para reverter o processo… Continuamos, portanto, num país muito parecido com o da Alice…

      (Nada me move contra o futebol, gosto muito, sou assídua espectadora, acompanho o que se vai passando no campeonato português e noutros campeonatos e sou adepta muito convicta do Sporting 🙂 ).

    • cravo on 18 de Junho de 2020 at 15:58
    • Responder

    Dinheiro vivo e na quantia que for necessária só há para BANCOS, TAP e PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS (com prejuízo constante para o contribuinte).
    Não há dinheiro para o essencial!
    Dizem que serão milhões para a Educação, mas ficará tudo na mesma. Em setembro lá teremos umas máscaras e um gel. Os “magalhães” que entretanto aparecerem, os contratos de net com operadoras e a renovação de licenças levarão necessariamente a mais algumas investigações e portanto mais alguns hóspedes para Évora.

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