Deixem-se de hipocrisias na educação
Talvez soe a um grito de revolta face ao silêncio ensurdecedor e à hipocrisia vigente. A indiferença, complacência e desculpabilização perante a falta de ação na educação e na forma como se está a gerir o tema da pandemia nas escolas, com o efeito de agravamento nas desigualdades entre os alunos, oscila entre o frustrante e o constrangedor.
Onde está a preocupação com a urgência da abertura das escolas e com a recuperação dos alunos em dificuldades no discurso dos governantes ou nas análises dos “escrutinadores” comentadores nas nossas televisões?
Será porque quem fala e quem decide está na sua bolha de conforto, com o equipamento informático necessário, banda larga e teletrabalho, e consegue garantir as condições ideais para a aprendizagem e estudo das crianças que os rodeiam? Sim, porque só consigo imaginar que não se preocupem porque isto não os aflige diretamente, porque não farão certamente parte da realidade dos inúmeros “professores que não conseguem contactar os seus alunos” e não tenham verdadeiras preocupações e leituras sobre a realidade social. Pois a mim aflige-me que não os aflija, aflige-me que não tenham nem consciência da situação no país, nem o sentimento de urgência. Aflige-me a falta de leitura social e aflige-me a dissonância de discursos.
Parece ser mais fácil fazer títulos de jornais com intervenções inflamadas sobre desigualdades sociais e discriminação, enquanto que devíamos implementar já medidas para fazer a verdadeira diferença pelas gerações futuras. E se pouco se aborda o tema, ainda menos se exige ao governo que tenha uma intervenção capaz de reverter as já visíveis consequências desta inércia inaceitável.
A desigualdade nas escolas, entre alunos, está a ser agravada e não é apenas pelas diferenças na “velocidade da rede” ou “do equipamento informático”. Muitas das discrepâncias resultam de apoio familiar deficitário ou ausente, resultante de enquadramentos económico-sociais frágeis ou disfuncionalidades diversas. Num contexto de ensino à distância, não é só o material e o equipamento que faltam. Falta o apoio imaterial, falta o acompanhamento presencial. E é aqui que reside um dos apoios fundamentais da escola e a diferença que faz face às assimetrias e às desiguais condições de partida de diversos alunos. Quando falta essa parte presencial, e nada se faz quanto a isso, estamos a fechar os olhos e a permitir que se cause um dano direto e irreversível na vida destas pessoas.
Enquanto não for claro que a retoma das aulas presenciais é um fator incontornável para minimizar estas assimetrias e desigualdades, estamos a falhar enquanto sociedade promotora de educação e literacia dos seus cidadãos e do justo funcionamento do elevador social.
Os danos são enormes, do pré-escolar ao primeiro ciclo, até à preparação para a universidade. Poderão ainda ser reversíveis, mas apenas se se agir com determinação.
ala-se amiúde da “digitalização da escola”. “Aquela” reforma que estava em curso e que, afinal, não existe. E num momento em que se estão a definir orçamentos suplementares e planos de recuperação, devemos ter em mente reformas estruturais no ensino, mas também a urgência de criar soluções para a situação resultante desta pandemia.
Outros países já levantaram restrições, e Portugal? Onde está um plano estruturado, com que visão e com que urgência? Vem aí o início do próximo ano letivo: crianças regressarão às escolas, em meados de setembro, com imensas disparidades e desníveis na aprendizagem.
O que vai ocorrer? Enormes diferenças entre estabelecimentos de ensino; realidades díspares nas escolas e no seio das próprias turmas, níveis de aprendizagem diferentes entre os alunos. O que se espera? Um primeiro trimestre totalmente desacelerado e a duas ou três velocidades destintas? Menor estímulo e uma grande frustração para os alunos? E se houver uma segunda vaga? E se interrompermos novamente a rotina? Que “plano b” para lidar com a não presença, que opções para otimizar a distância no ensino?
Recentemente, a Iniciativa Liberal apresentou um plano de retoma – o PREC Liberal – que propunha, entre outras medidas ao nível da educação, incentivos fiscais para contribuintes singulares e coletivos que façam doações de material informático a escolas, para além de maior dotação orçamental para contratos simples e de associação, como passo intermédio para o estabelecimento do cheque-ensino, medida para uma efetiva liberdade de escolha da escola, seja pública ou privada. Mas é fundamental alertar que ficou a necessidade da promoção da recuperação das aprendizagens, porque é crucial ter essa ambição.
É nas aulas de recuperação facultativas, nos sistemas de apoio para os alunos e no acompanhamento durante as aulas que residirá a diferença fundamental neste curto prazo. Em Portugal: nem plano, nem preocupação. Nem para agora, nem para o verão, tão pouco para o início do ano letivo, muito menos para o ano letivo no seu todo.
Revolta-me profundamente a hipocrisia de alguns partidos que vêm falar de elevador social, de discriminação e de apoio à escola pública, para depois falharem clamorosamente neste momento crucial. Vergam-se, aparentemente, aos interesses corporativistas, ou, não sei se quebram (e como em tantas outras coisas) por não conseguirem passar da teoria à prática e falharem na interpretação da realidade económico-social.
Devia estar instalado um sentimento de urgência para com os efeitos na desigualdade social. Esta inércia e falta de tomada de decisão neste contexto da educação terão, inevitavelmente, um efeito negativo no tão falado elevador social. Não é com títulos de jornais, frases inflamadas em plenários ou manifestações que se consegue reverter esta situação. É na vida real, na tomada de medidas concretas que fazem a diferença. Não podemos, perante uma emergência, não adotar medidas para contrariar o efeito potenciador de assimetrias. E não, a solução não é nivelar por baixo e destruir as escolas privadas que funcionam. Comecemos, a sério, pela recuperação agora, antes do retomar das aulas presenciais e na preparação do ano letivo, quando até já se vislumbra o que o próximo inverno poderá trazer. Temos sim de combater verdadeiramente as desigualdades e de favorecer o ascensor social.
Deixem-se de hipocrisias, muito menos na educação.




9 comentários
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Subscrevo na integra .
Ex.mo(a) Senhor(a) Diretor(a) de Escola /Agrupamento de Escolas
Ex.mo(a) Senhor(a) Presidente de CAP
Tendo chegado à DGESTE pedidos de informação sobre a realização dos conselhos de turma do 3.º período, encarrega-nos o Secretário de Estado Adjunto e da Educação de informar que, dadas as circunstâncias, as reuniões de conselho de turma de avaliação poderão, neste ano letivo, ser realizadas não presencialmente através de meios telemáticos de comunicação síncrona. Importará garantir que todos os docentes têm acesso à documentação necessária e que estão garantidas as condições que permitem não só a participação de todos os docentes, mas também a tomada de decisão colegial nos termos legais.
Com os melhores cumprimentos,
João Miguel Gonçalves
Diretor-Geral dos Estabelecimentos Escolares
Plenamente de acordo. Afinal , ainda há pessoas que pensam.
E viva o Carnaval que máscara já nós temos.
A autora terá razão na questão principal: o ensino presencial é melhor do que um écran … Quanto ao resto …porque é muito, mas muito liberal, omite que muitos países não regressaram à Escola presencial; que alguns que o fizeram recuaram; que o último caso de recuo é o da China…
O que deve presidir a decisões desta natureza não é o lobby dos anti-covid, que dizem, como o outro, que isto é uma ”gripezinha”, mas de ordem científica… Se a abertura das escolas se pode fazer sem perda de vidas, nomeadamente as dos mais velhos, se isso não vai aumentar, de forma significativa os casos, e sobrecarregar o SNS… então abram-se as Escolas… Doutro modo fechem-se as Escolas. Para alguns a Ciência conta pouco… a epidemia tornou-se uma arma de arremesso entre os ferozmente desconfinadores e os ferozmente a favor da confinação… Que fale a Ciência e não a Política: não que a Ciência , por vezes, não seja política…
… só para dizer que a Iniciativa Liberal este , desde o início contra o confinamento… Esta posição esbarra com a opinião de uma larga maioria de epidemiologistas…
Se algum dia o nosso país for governado pela IL, vai ser o inicio do fim da escola publica e gratuita.
Há dados que não costumam aparecer nem nas estatísticas das escolas nem nas do Ministério…Refiro-me, em particular, à real percentagem de alunos (crianças e jovens) que passa a maior parte do tempo entregue a si próprio, desprovida de apoio e de acompanhamento familiar, sem que isso seja muito perceptível…
Esses alunos, desde que compareçam à maior parte das aulas ou à sua totalidade, passam perfeitamente despercebidos e efectivamente relevam para as estatísticas de uma forma positiva, no sentido em que não fazem aumentar o nível de absentismo, pelo contrário…
Contudo, o problema existe, só não está acessível ou visível para a maioria das pessoas…
Com a suspensão das aulas presenciais e com a implementação do E@D em sua substituição, a verdade, cruel e implacável, em muitos casos, emergiu e tornou-se evidente…
O E@D, pela sua natureza, implica a existência de várias premissas: entre outros, a existência de conhecimentos e meios tecnológicos e informáticos e disponibilidade por parte de algum adulto responsável pela criança ou jovem sem autonomia para acompanhar ou apoiar o processo…
Quantas crianças/jovens têm o devido apoio/acompanhamento dos pais ou da pessoa que tem a sua tutela neste processo? Quantas crianças/jovens vivem no seio de famílias denominadas “infoexcluídas” e que consequências tem esse facto no E@D? Quantas crianças/jovens ficam ou sozinhas em casa ou acompanhadas por alguém sem o mínimo de competências para as orientar e apoiar neste processo?
As desigualdades económicas e sociais foram acentuadas e reforçadas pelo E@D e, quanto a isso, não parece existir qualquer dúvida ou incompreensão… Neste ponto, concordo com a autora.
Contudo, e se não estiverem reunidas todas as condições ao nível de saúde pública e de controle do surto epidemiológico, não será aceitável reabrir as escolas no próximo ano lectivo. E isso só será viável se efectivamente existirem dados objectivos e cientificamente comprovados consonantes com a eventual reabertura…
A reabertura das escolas não pode ser feita a qualquer custo… Mas se não existirem condições para tal, o Ministério terá que por em marcha um conjunto de medidas sérias, concretas e exequíveis, no sentido de combater as desigualdades no acesso e na utilização de meios tecnológicos…
Essas desigualdades existem e sempre existiram, mas até agora estavam relativamente camufladas e, portanto, não causavam tantos “desassossegos” ao nível das “consciências”…
O E@D veio mostrar que já não é possível continuar a “assobiar para o lado” e a fazer de conta que tudo corre bem e com toda a normalidade… Apenas isso…
O regresso do ensino presencial é urgente e vem com vírus incluído.
Estarão as nossas classes dirigentes (políticos, diretores…) à altura das suas responsabilidades?
Teremos acesso a informação (infeções) credível e atempada?
Estão prontos os planos de variação dos níveis de confinamento?
Não tenho por hábito “deixar respostas” aos comentários. Não é porque não goste de trocar/partilhar/… ideias e opiniões! Antes pelo contrário!!!!
Só que a maioria das vezes falam, falam, falam, …. e nas reuniões, respostas a inquéritos das direções, etc, dizem que está tudo otimo, espetacular, as crianças estão a participar e a aprender de forma extraordinária, centram tudo no que fazem individualmente por cada coitadinho, fazem relatórios, …um horror. Fico muito desanimada com a realidade do estado da educação,….E NÓS, DOCENTES, SOMOS RESPONSÁVEIS POR MUITAS DAS COISAS MÁS.