Opinião / Eduardo Dâmaso – A vida proletária que passa na classe média

O novo proletariado da classe média, essa imensa mole profissional feita de professores, médicos, enfermeiros, advogados, polícias, psicólogos, técnicos de ciências e saberes diversos, vive sem perspectivas salariais e de carreira uma vida inteira.

 

Há quase 25 anos, Pacheco Pereira escreveu uma crónica premonitória sobre a vida que passava todos os dias na ponte 25 de Abril. Uma vida feita da soma de muitas vidas difíceis. Que passava horas a caminho do trabalho e depois a caminho de casa. Que via os rendimentos a fugir para a casa, o carro, a escola dos filhos, muitas taxas e taxinhas e um dinheirão em portagens. Pouco tempo depois, esse cansaço de vida transformou-se em cansaço com o cavaquismo e estoirou a rebelião na ponte, que acabou com o ciclo político das maiorias absolutas de Cavaco Silva.

Nesta edição da SÁBADO, Vasco Pulido Valente dá-nos uma entrevista em que alerta para um fenómeno idêntico. Já não a vida que passa pela ponte mas a dos muitos milhares de pessoas altamente qualificadas entregues a uma vida de precariedade material e social. Aquilo a que chama o proletariado da classe média, essa imensa mole profissional feita de professores, médicos, advogados, enfermeiros, polícias, psicólogos, técnicos de ciências e saberes diversos, vive sem perspectivas de progressão salarial ou de carreira uma vida inteira. Vasco Pulido Valente nota com grande lucidez a necessidade de os partidos que governam saberem dirigir-se a estes profissionais e não os abandonarem. Nota que, no PS, até agora, apenas Pedro Nuno Santos despertou para tal realidade e começou a construir um discurso sobre isso, sendo que Pulido Valente não concorda com a solução preconizada pelo dirigente socialista. Pedro Nuno Santos defende mais Estado, Vasco Pulido Valente mais mérito. Na verdade, um e outro têm razão numa coisa: este é um debate essencial para o futuro do País e da política que, diga-se em abono da verdade, tem sido um território quase exclusivo do BE e do PCP. Ou seja, os partidos mais à esquerda, de protesto, têm estado atentos, não como no passado, mas atentos, a esta questão. O chamado Bloco Central é que não e essa é uma questão essencial. Partindo do princípio de que PS e PSD nos podem governar por muitos anos, sobretudo se a geringonça se partir, o que pensam das políticas necessárias para enquadrar estes proletários da classe média? É que elas são tantas e tão complexas… e eles, se são hoje milhares, amanhã serão milhões.

(…)

Sábado – A vida proletária que passa na classe média

 

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