A verdade escondida.

 

Primeiros raios de sol; levanto-me – as malditas dores de costas, fruto do acidente em serviço que tive há 18 anos, mais uma vez não me deixam dormir mais. Ouço-a, denunciando a evidência de que também acordou. Não passa uma hora para também ela estar a pé. Não usamos despertador há imensos anos. Acordamos sempre mais cedo do que devíamos. Se devido à ansiedade, às preocupações, à idade, não sei…

Aproveitamos o tempo para alinhavar qualquer coisa para o longo dia de trabalho nas escolas que se avizinha (casa de professores é assim). 7h55 hora de sair de casa, mas (como sempre) alguma coisa me atrasa mais uns minutos e lá vou eu apressado, um beijo o desejo mútuo de um bom dia (na nossa profissão, bem que precisamos) e sinto a sua preocupação nas últimas palavras que me diz antes de o elevador partir “Vai devagar e cuidado na estrada. Não te esqueças que nos tens aqui” (ela, os pequeninos (os gatinhos) e a filhota). Ela sabe tão bem como eu que esta é das poucas profissões em que andamos sempre a ser cronometrados ao minuto, senão temos falta.

Ao longo da viagem escuto no rádio a notícia da greve dos professores, mal comunicada com informação incompleta, incorreta e pejorativa. Dou por mim a falar sozinho a dizer impropérios.
O dia de escola é longo e começa assim que estaciono o carro, quando sou «abalroado» por uma encarregada de educação cujo olhar angustiado pela necessidade de falar comigo quase me faz faltar à aula. Só pude dar-lhe dois dedos de conversa, pois os alunos estão à minha espera.
No intervalo do meio da manhã não consegui comer nem ir à casa de banho. Não houve tempo, aquela mãe ainda me aguardava. O assunto importante que consumia aquele ser, um caso que parecia ainda mais importante do que a cimeira sobre a paz nuclear, nada mais era do que um pequeno desentendimento entre alunas, algo infantil, só estranho por ser atípico para alunas de 12 anos (mais uma evidência de que os alunos estão cada vez mais imaturos e superprotegidos pelos pais-helicóptero que não os deixam crescer, ser autónomos e responsáveis).

Intervalo seguinte – sou chamado a resolver um problema “grave” de agressões entre alunos da minha direção de turma (nada de invulgar nos tempos que correm em que o respeito não abunda, a começar pelo mau exemplo que passa nas televisões com energúmenos a quem é dado tempo de antena para proferir insultos; os miúdos, esses são vítimas, pois só replicam aquilo a que assistem). Uma colega tinha e falar comigo sobre um incidente na aula com a minha direção de turma, mas não havia tempo. O dia é longo, mas o tempo nunca chega para tudo.
E a ida à casa de banho teve de permanecer no topo da agenda dos assuntos a resolver, pois a prioridade era apressar-me até aos alunos que já me esperavam à porta da sala.

Um dos alunos mais incumpridores, do alto da sua autoridade, dispara à queima-roupa: “O professor está atrasado, também deveria levar falta!”
Entrámos e lá tive de explicar à turma que se por algum motivo algum professor chega uns minutos atrasado, é por estar a tratar de assuntos escolares, não está no recreio a brincar (como se não o soubessem). Tive de acrescentar que se o critério fosse o mesmo, todos os dias havia alunos com falta por motivo de atraso.
Minutos depois entra um aluno na sala e vai sentar-se. Pergunto-lhe se é assim que se entra numa sala. Responde-me – “Hã?!”. Questiono-o se é esse o modo de se responder a um professor e a turma diz-lhe “É, diga senhor professor, ou stor”. Peço-lhe que volte a sair e que entre como deve ser, batendo à porta, pedindo permissão para entrar, cumprimentando os presentes e justificando o motivo do seu atraso. Tantas vezes que já repetimos isto, mas é-lhes difícil fazê-lo.
Minutos depois, pergunta-me se pode ir à casa de banho. Logo outros pedem-me o mesmo. Relembro-os que não é permitido durante o período de aula. Alunos na pré-adolescência parecem comportar-se como criancinhas do 1º ano.

Ao longo da aula as interrupções são constantes por falta de respeito mútuo entre os alunos e de dificuldade no cumprimento de regras tão básicas como pedir a palavra levantando o dedo ou não interrompendo colegas ou o professor quando estão a falar. Lá está, se a educação viesse de onde deveria vir – de casa – poupava-se muito tempo durante as aulas com estas constantes interrupções e chamadas de atenção.

No fim da aula saio aflito para ir à casa de banho e sou travado por um assistente operacional que me diz ter uma encarregada de educação ao telefone. Tem impreterivelmente de falar comigo ainda hoje. Como tenho reunião ao fim do dia, vou atendê-la, pois diz não poder faltar ao trabalho com receio de perder o emprego. Então, finalmente, lá consigo chegar à casa de banho.
Almoço junto com o “clube da marmita” e dizemos que ninguém fala de trabalho, mas torna-se impossível, pois daí a pouco ninguém fala de outra coisa a não ser dos problemas dos alunos, dos pais…

Fim da tarde, reunião geral.
No fim, exausto, ia disparado a caminho do carro para me ir embora quando sou interpelado por aquela mãe que havia combinado reunir comigo (já nem me lembrava dela!).
Pouco depois do dever cumprido, chegado ao carro, agradeço a mim mesmo a minha bendita paranoia de deixá-lo sempre direcionado para a estrada e com as rodas já viradas em direção ao meu caminho de regresso para não perder tempo.

A anoitecer cheguei a casa. No estacionamento não estava o carro dela (para quem trabalha longe e sem alternativas de transportes públicos, ter viatura própria é uma necessidade para poder trabalhar; neste caso, duas, com despesas a dobrar). Abri a porta e só os 2 gatinhos me esperavam. Instantes depois chega a esposa com um ar cansado e apressado. Notei logo que, se o meu dia não fora fácil, o dela não devia ter sido melhor. Decidimos fazer um batido de fruta para irmos bebendo enquanto se despachava o trabalho que trouxemos para casa. Entretanto, como é comum em casa de professores, o tema da conversa invariavelmente recaiu sobre a escola, as dúvidas e os problemas dos alunos que, sem darmos por isso, acabámos por levar connosco para casa, como se fosse aquele cheiro de tabaco que não nos larga denunciando que estivemos perto de um fumador.
O atraso dela deveu-se à reunião que tivera na escola e da qual me havia esquecido completamente. Desabafou o caso do dia na escola – fora preciso chamar as autoridades, porque um familiar de um aluno estivera na escola a ameaçar os professores. Costumo ser eu (de longe) o mais falador e na minha escola tinha havido vários incidentes, mas estranhamente mantive-me calado para não a stressar mais porque, tenso como eu estava, certamente não ia ajudar em nada.

Sem nos darmos conta, estamos os dois em frente ao computador a terminar papelada. Os gatinhos miam-nos estranhando o nosso olhar hipnótico na direção daqueles retângulos luminosos. Desvio por um segundo os olhos para a Yuki que me observa com um olhar tristonho e quando volto a olhar para o ecrã tenho uma bola de pelo ronronante a esfregar-se no meu rosto – o Mochi queria festinhas (anos antes, mesmo sem querer, do mesmo modo acabámos por sacrificar um pouco do tempo de qualidade com a nossa filha para estar a tratar de assuntos relativos aos filhos dos outros. Ah, se o tempo pudesse voltar para trás…!).
No ecrã estavam múltiplas janelas abertas e um sfgkljwinnnnnnn no documento… o teclado estava ali para ser pisado… pelo gatinho. “Que se lixe a escola!” foi o grito mudo de rebelião momentânea que nos levou a ir brincar pouco com eles, porque o trabalho escolar parece que nunca acaba.

Hoje estava previsto falarmos pelo Skype com a nossa filha (já adulta), mas já se fazia tarde. No fim de semana não fomos vê-la porque estivemos a corrigir testes e trabalhos, no próximo também não vai dar, porque ambos temos de preparar a interminável papelada das nossas direções de turma e no fim de semana seguinte é a filha que está de serviço. Amanhã falamos com ela, tem de ser… e depois combinamos ir vê-la antes do fim do mês… esperamos nós. São sempre as obrigações da escola a prejudicar a nossa vida. A burocracia esmaga-nos, o trabalho tem de ser feito, e ninguém se interessa como nem sacrificando o quê. É revoltante!
Ainda havia uns detalhes para terminar, mas ficam para o dia seguinte ao amanhecer.

Fomos para a cama e, como sempre, não fomos logo dormir, porque recusamo-nos a admitir sermos escravos do trabalho (como se muitas vezes assim não acabasse por ser). Ligámos o televisor. Estava a dar o noticiário das 23h onde se noticiava a greve dos professores com informação incompleta e errada sobre aquilo que nos mobiliza. A nós tudo nos é exigido e apontado, mas àqueles jornalistas tudo é permitido, desde dizer asneiras a desinformar sem cumprirem a sua função com competência. Desabafámos – “É uma vergonhosa campanha para nos deixar malvistos perante a opinião pública! E fartamo-nos nós de trabalhar para isto…!”
Tentei reconfortá-la aludindo que na minha escola está uma colega com quase a mesma idade que nós, a viver num quarto alugado como se de uma estudante se tratasse, a 200km do marido e dos 2 filhos que deixou para trás, ganhando apenas para pagar as suas despesas. Ambos fizemos de conta que isso nos serviria de consolo, não por ficarmos felizes com a desgraça alheia, mas porque nos estávamos a queixar e havia quem estivesse pior. Engolimos em silêncio o ultraje que esta justificação representava para a nossa dignidade, pois com meio século de idade, ambos professores do quadro de escola, um de nós estar com horário-zero e o outro a trabalhar a 42km de casa com um futuro incerto, era desmotivante.

Depois só me lembro de acordar e me levantar para desligar a televisão. Ela despertou e disse-me para esperar. Estava a passar um debate sobre os professores. Ficámos estupefactos (ou talvez não, por já não ser novidade) pois não havia ali nenhum professor com o direito ao contraditório no painel de comentadores que se revezavam como uma matilha de cães raivosos atacando uma presa indefesa, alternando com insultos e mentiras sobre os docentes – que trabalhavam pouco, tinham muitos privilégios e progrediam na carreira muito mais depressa do que outros trabalhadores. Com 25 anos de carreira, há 13 anos no 3º escalão, a receber menos 10% de vencimento do que nessa altura e somos obrigados a ouvir aquelas barbaridades a invadir-nos a casa?! Então o que sentirão aqueles colegas que com uma idade semelhante ainda são contratados e andam com a casa às costas? Que povo ingrato o nosso!
Desligámos e tentámos dormir. Havia que levantar cedo para um novo dia. Os gatinhos saltaram para a cama e aconchegaram-se a nós e, por momentos, esquecemo-nos que a vida não é nem deve ser só escola.

Antes de adormecer ainda pensei para comigo que nem tudo era mau. Ainda vai havendo o apreço de alunos que gostariam que continuássemos a ser seus professores, uma palavra de consideração de pais que reconhecem o enorme trabalho que fazemos na escola a ajudar e apoiar os seus filhos naquilo que podemos, ou colegas e direções que nos dão aquela palmada nas costas pelo trabalho que realizamos.
Mas já não sou capaz de dizer que gosto da minha profissão como há uns anos atrás. É-me impossível ser politicamente correto e mentir, porque há dias em ser professor se torna extenuante, penoso e invasivo do bem-estar da nossa vida familiar. Os alunos estão muito mais difíceis, indisciplinados e muitos mal-educados, abundam pais ingratos e por vezes até ameaçadores e violentos e a tutela trata-nos abaixo de cão com um ódio visceral.
Mas não me iludo, pois sei que, com mais ou menos trabalho, uns dias melhores, outros piores, É MAIS OU MENOS ASSIM A VIDA DE QUALQUER PROFESSOR… A QUAL NÃO É NOTÍCIA, não abre telejornais nem gera nenhum debate na sociedade, a não ser que sirva de pretexto para falar mal.

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