O 1º ciclo, em conjunto com o pré-escolar, sempre teve uma especificidade única, a monodocência.
Ao longo de décadas os professores do 1º ciclo lecionaram, em regime de professor único. Faziam-no a turmas com um número elevadíssimo de alunos e na maior parte das vezes com os quatro anos de escolaridade na mesma sala, uns heróis… hoje, não tenho relatos de que tal aconteça, mas não vai há muito tempo, há meia dúzia, ou menos anos, isto era frequente.
Mas a monodocência é um “bicho” em extinção. Desde 2007 que ouço rumores de que estão a decorrer estudos e experiências nesse sentido. Começou por se falar em alargar este ciclo de estudos para seis anos, como acontece noutros países da Europa. Mas nesse caso a mesma não se extinguiria, os professores passariam a lecionar todas as disciplinas, Português, Matemática, Geografia, História, Ciências da Natureza e tudo o que viesse. Seriam conhecidos como os “superdocentes”, o vencimento,… duvido se seria assim tão “super”.
As experiências têm sido muitas, mas o modelo mantém-se até hoje, na generalidade das escolas. Já se experimentou a “especialização” de professores, um dá matemática outro dá português… Experimenta-se introduzir docentes das áreas de Expressões lecionando Expressão plástica, Expressão Musical e Expressão Físico Motora enquanto o professor titular se desloca para outra sala de aula para dar apoio educativo. E, ainda há a monodocência coadjuvada, onde professores de áreas específicas apoiam o professor titular nessas áreas. Mas será isto o fim da monodocência?
Ela tem as suas vantagens, tem, mas são os professores que sofrem com a excessiva carga de trabalho a que são expostos. Elas são, a meu ver, para as crianças, começando pela relação afetiva entre alunos e professor que proporciona um melhor relacionamento e reconhecimento, por parte do mesmo, das suas dificuldades. Um professor consegue gerir o tempo de forma muito mais eficaz articulando mais facilmente os saberes entre disciplinas. E na sociedade atual, é cada vez mais importante, pois os alunos têm de ter um adulto de referência. As crianças estão a crescer, a desenvolverem-se afetivamente, e têm necessidade de um acompanhamento próximo.
É claro que as vozes que vão de encontro ao que é pretendido pelo MEC se têm levantado e feito ouvir, pelo Dr. Filinto Lima, dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Dr.ª Paula Carqueja, presidente da Associação Nacional dos Professores (ANP) e até o Dr. Mário Nogueira da Federação Nacional dos Professores (FENPROF). Onde estão as vozes que defendem a monodocência? Não têm direito a tempo de antena? Não interessa dar-lhes audiência…
Os professores do 1º ciclo estarão de certeza à altura, venha lá o que vier, ou até nem venha… mais uma vez.





22 comentários
1 ping
Passar directamente para o formulário dos comentários,
“É claro que as vozes que vão de encontro ao que é pretendido pelo MEC”.
E magoou-se? Não será antes “ao” em vez “de”:
“É claro que as vozes que vão ao encontro ao que é pretendido pelo MEC”
E lá vem mais um vendido do MEC ou ao MEC que passa os dias sentado num dos seus gabinetes falar de semântica… Vê-se que o autor incomoda pelas ideias e não pelo estilo de escrita…
É também por causa de erros como este que um só professor pode não ser o melhor para os alunos, mas em frente… Qual é o problema da pluralidade, da diversidade de professores?
E, sinceramente, digam-me: como é que querem redução letiva sem o fim da tal “sagrada” monodocência?
Neste caso seria “É claro que as vozes que vão ao encontro DO que é pretendido pelo MEC” 😉
Já que gosta de corrigir, corrija bem! 😉
A reforma aos 66 anos( a caminhar a passos largos para os 67) é uma violência para qualquer grupo de docência.É certo que o 1ºciclo trabalha mais horas por semana mas, por outro lado, os colegas dos outros graus de ensino têm várias turmas.Penso que não vale a pena andarmos a atirar pedras uns aos outros. Estamos todos no mesmo barco, cansados e desanimados.
Excelente post. A monodocência, em meu entender, merecia um debate amplo e bem alargado, pois penso não ser um assunto pacífico, dado a diversidades de opiniões sobre este tema.
Como o Rui refere, os dirigentes da ENDAEP, ANP e FENPROF têm a sua opinião desfavorável à monodecência e, se não estou estou em erro, alguns deles nunca deram aulas ou nunca trabalharam em sala de aula no 1.º ciclo. Os principais protagonistas do 1.º ciclo são os professores deste nível de ensino e eram esses que deveriam ter voz e ser ouvidos, pois são eles que no seu quotidiano sentem os problemas do 1.º ciclo.
Já agora, a minha opinião sobre este tema. Subscrevo inteiramente o antepenúltimo parágrafo do autor deste post.
A monodocência também tem algumas desvantagens, embora sejam aqui sonegadas. “Ela”, de facto, promove uma excessiva carga de trabalho aos professores do grupo 110, por isso acabe-se com essa prática retrógrada.
As relações afetivas podem e devem perfeitamente manter-se com a pluridocência e, por inerência, todos os benefícios que daí advêm. Tem de ser o “professorzinho da primária” a ser o detentor do monopólio dessas relações? É-o na realidade, fora da escola? Não!! Então, sigamos em frente e não percamos tempo com argumentos menores!
Agora, a gestão do tempo e dos programas das disciplinas, essa sim, deve mudar… Deve ser democrática, (com)partilhada, discutida, coresponsabilizada e isso, os professores do 1º ciclo não estão habituados a verdadeiramente fazê-lo. Há colegas que se julgam “donos” de alguma coisa e não a querem partilhar… No mundo atual, as crianças vivem a pluralidade, a diversidade, a diferença e queremos nós que na escola vivam a monodocência, com um só professor, uma só mundivisão…
Mas concordo com o colega: de facto, “as crianças estão a crescer, a desenvolverem-se afetivamente, e têm necessidade de um acompanhamento próximo”, mas tal não tem de vir, necessariamente, de um só professor, não é?
Trabalho no 1º Ciclo e tomara eu que acabassem com a monodocência de uma vez por todas. Já agora, também com as 28h letivas, com os PTTs, que mais parecem teses de doutoramento, os extensos e minuciosos mapas de leite e de fruta que é preciso entregar todos os 15 dias, as planificações e o “controle” das AECs, a correção das provas dos 2º e 4º anos com as respetivas deslocações para formação,… etc. Eu já trabalhei no 3º, no 2º e agora estou no 1ºCiclo e digo-vos uma coisa, meus caros, é de longe o nível de ensino mais trabalhoso, não tenham dúvidas!
Alguém que me compreende…
Após a leitura de alguns comentários anteriores, só lamento que alguns colegas ainda pensem no prof. de 1º ciclo desta forma.
Desafio quem nos considera “o professorzinho da primária” a ir para uma sala, digamos…3 dias! E arcar com toda a responsabilidade que é receber 26 garotos de 6 anos e ensiná-los a ler, a escrever- ou melhor- a desenhar as letras, a operar, a pensar…E sem horas de redução, com UM INTERVALO de 15 minutos em CINCO HORAS e operacionalizar tudo e mais alguma coisa que os pensadores do C. Pedagógico remetem para as “escolinhas” porque temos de UNIFORMIZAR procedimentos – palavra maldita e malfadada….
Caros colegas, apesar de todo o trabalho, canseira e horas dadas do meu tempo, adoro, amo aquilo que faço e não o trocava por qualquer outro nível. É que eu orgulho-me (trabalho muito. muito para isso!!!) de ser uma referência para os meus alunos, dou beijos, abraços, rio-me muito – também já chorei muito…- com eles e NUNCA, MAS NUNCA serei mais uma que vai picar o ponto, e ter dias de folga e sair à hora. Porque eu, “professorzinha da primária”, ainda posso fazer a diferença, mesmo saindo-me do coiro…
Luísa, eu sou professor do primeiro ciclo e eu lamento que lamente a minha crítica (porque foi isso mesmo, uma crítica). Partilho algumas ideias suas, mas essa do “trabalho muito, muito” (como se os outros estivessem de férias nas escolas e só a Luísa é que trabalhasse), que não será “mais uma” (como se os outros o fossem) e que, “professorzinha da primária”, ainda faz a diferença (como se os outros não tivessem essa capacidade) é que me deixa triste e a pensar que merecemos a classe que temos.
Então lamento que nos reduza a “professorzinhos da primária”… e não, não trabalho mais que os outros;mas trabalho muito, muito, e esforço-me e articulo com todos os colegas/técnicos que integram a escola e partilho opiniões, trabalhos, projetos… E digo-lhe frontalmente que serei das primeiras a assinar por baixo se a pluridocência se tornar realidade.
Já o seu comentário e a distorção que fez das minhas palavras são tão pequeninos e redutores…mas, felizmente, sem terem eco na nossa classe!
Eu não distorci nada, apenas interpretei. Se não trabalha mais do que os outros, nem é a “special one”, qual é a necessidade de vir para aqui falar disso? E essa obsessão de conjugar os verbos na 1ª pessoa do singular? Parece que no plural é mais difícil…
Se faz o que diz fazer: parabéns! “chapeau”!… mas a maioria de nós ainda não o faz verdadeiramente. E, por último, apenas reduzo a “professorzinhos da primária” aqueles que o querem ser, aos que defendem a monodocência. (Re)leia, por favor, a frase que escrevi. Era uma crítica aos apologistas de tal prática.
Tenho de lhe dizer isto… lamento que não conheça a minha escola, onde TODOS – nós todos- trabalhamos muito, muito.
Não há cá “specil ones” nenhuns, caro colega! Fazemos mesmo o que relatei, apenas porque sim!
Sem ressentimentos, desejo-lhe uma noite descansada!
Lá está, a sua escola…No seu discurso, impera o uso da primeira pessoa, por isso fico-me por aqui.
E sem ressentimentos, obviamente! Se as minhas preocupações fossem estas…
Um comentário lúcido, desempoeirado e sensato! O seu comentário avivou-me a ideia que tento ter sempre presente que uma andorinha não representa toda a primavera. É que é absolutamente lamentável os comentários em que, explicita ou implicitamente, dão a entender que os “outros” são uns calões, uns privilegiados porque não estão todo o dia a lecionar, etc. É ofensivo, pois não fazem ideia de como todos os outros professores vivem, também eles, assoberbados em trabalho. Se as nossas tardes fossem realmente “livres”, como muitos lhes chamam pejorativamente, não havia necessidade de abdicarmos de forma quase constante de fins de semana em família (descanso a que todos os trabalhadores devem ter direito). E isso não acontece porquê? Porque as tardes a que chamam “livres” não chegam em horas para dar vazão ao volume absurdo de trabalho a fazer! Às vezes dá vontade de dizer “Não faço!”, mas a nossa profissão força-nos a um comprometimento ético, intelectual e emocional para com aqueles que servimos: os nossos alunos. É com eles o nosso compromisso. E não saímos facilmente daqui…
Muito bem, MR!
Boa tarde Rui cardoso
Quem foi que lhe disse que já devem existir em Portugal salas com 4 níveis de ensino em Portugal? Eu conheço algumas no concelho de Coimbra a meia dúzia de quilómetros do centro da cidade. Provávelmente ainda existem dezenas de escola s a funcionar com um docente a lecionar 4 anos de escolaridade na mesma turma!
Eu mesma… 4 níveis de ensino, fora as especificidades dentro de cada ano… preparação para exames (4º ano), testes intermédios (2º ano), ensinar a ler e escrever (1º ano), tudo dentro da mesma sala e a acontecer ao mesmo tempo… fora toda a burocracia: mapas de faltas, de almoços, do leite,…
CORREÇÃO: Já NÃO devem existir. Claro que existem dezenas de escolas com turma única de 4 níveis de ensino.
Tópico para discussão :
Nos sistemas de ensino mais eficazes qual é o regime de docência no 1.° ciclo?
Não conhecia o Blog do Rui e acho-o muito interessante! Sobre este último tema (monodocência), que com grande oportunidade e lucidez decidiu submeter à discussão pública, considero-o de grande pertinência. Há muito que a monodocência (no 1.º CEB) é questionada mas, até ao momento, nunca apareceram alternativas (teóricas e práticas) credíveis. Considero, aliás, que, para a faixa etária dos 6 aos 10 anos de idade, é o modelo organizacional que melhor se ajusta ao desenvolvimento global da criança. A abordagem integrada do currículo é a mais adequada para este nível de ensino. A abordagem por áreas disciplinares ajusta-se melhor ao 2.º CEB e a disciplinar ao 3.º CEB e secundário. Por isso, a tentativa de formar professores para os primeiros seis anos de escolaridade abortou… Como irão abortar outros modelos organizacionais que violentem a monodocência…
[…] http://www.arlindovsky.net/2015/03/especificidades-monodocencia/#disqus_thread […]