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Rui Cardoso

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Na rua contra as Provas Globais – João André Costa

 

5 de Maio de 1994, Quinta-feira, foi, obviamente, um dia de semana e por conseguinte para poder ir a Lisboa, sabe Deus com que dinheiro (o dinheiro da mesada?, os almoços por comer e os escudos no bolso?), só depois da escola, só depois das aulas não fosse, número um, em casa saberem-me em Lisboa, número dois, saberem-me a faltar às aulas pois as consequências, igualmente óbvias, lá estariam desertas de esperar quando uma família sabe com todas as letras o valor e o sabor da educação sem esquecer a desilusão no rosto de todos a quem mais se quer.
Por estas razões, e por efectivamente ter ido para Lisboa, estou convencido, juro a pés juntos, ter ido para Lisboa por ter a tarde livre, decerto a tarde livre, não faltei às aulas, saí com o toque da uma da tarde e lesto desci o Monte em direção à Via Rápida.
Tinha 15 anos, frequentava o 10° ano de escolaridade e, tal como dezenas de milhares de jovens por todo o país, estava a semanas das tão temidas Provas Globais, inevitáveis no meu caso por ser aluno de uma escola piloto antes do alargamento das mesmas ao território nacional no ano consecutivo.
Não queria ser avaliado. Não queria ser ainda mais avaliado. Já me chegavam os testes duas vezes por período a todas as disciplinas com as épocas de avaliação às vezes intervaladas por uma semana e uma semana só de descanso como se fôssemos cavalos de corrida a quem é forçoso açoitar constantemente não vão os ditos parar.
Mas parar aonde e correr para quê? Para quê a pressa quando se tem uma média de 17 valores e o meu valor, perdoem-me o pleonasmo, mais que provado?
Por isso na rua armado somente de mãos para agitar, pernas para andar, braços para lutar e uma voz para exigir e gritar.
Fui sozinho. Por vontade própria. Ninguém me pediu ou exigiu. Fui porque quis ir à minha primeira manifestação depois de Abril e apesar de Abril quando o país ainda mal preparado, como nós quais adolescentes, ainda incerto, temeroso e com razões de sobra para se sentir revoltado. Como nós, aliás.
Sentei-me em liberdade no meio da Avenida. Porque podia. A Avenida estava cortada ao trânsito para a manifestação, os marchantes ainda por chegar ou em vias de se concentrarem no Marquês e eu sozinho a usufruir da vista, da vontade, do querer e poder sentar o traseiro no meio de não sei quantas faixas de rodagem de braços cruzados ao redor dos joelhos à espera que o mundo mude.
Mas o mundo não muda sozinho, precisa de homens e mulheres e eles aqui estão à cabeça da manif a descer a Avenida e tão surpresos como eu: “Olh’ó “cientista”!”, gritam de dedos apontados, ao mesmo tempo surpresos e alegres, e eu, qual mola, a saltar deste ponto de observação privilegiado para me juntar à delegação da minha escola na ponta da lança contra as Provas Globais!
Sim, gritámos, sim insultámos a Manuela como se a Manuela fosse a meretriz mais reles, não querendo maldizer as meretrizes tantas vezes acima de qualquer Ministro, de qualquer educação, sim, baixámos as calças para as câmaras e por causa das câmaras, sim fomos muitos e muitos, a força dos números, comitivas de centenas de alunos de cada vez a juntarem-se à marcha e a euforia total, um exército na rua pela primeira vez, a primeira de muitas para aprender o que não nos ensinam na escola, e ainda hoje não ensinam, do pensamento crítico ao exercício de direitos, do associativismo político aos debates, da luta aos movimentos cívicos, o que é defender uma causa, gritar, protestar, não aquiescer.
Aprender a não baixar os braços, ainda para mais quando o objectivo era, e é, o mesmo de sempre, cercear o acesso à universidade, à educação, ao futuro, a melhores condições de vida, a história da Humanidade, o fosso entre ricos e pobres, os que mais podem contra quem menos tem.
Hoje, por vontade própria, os jovens encerram escolas e empoleiram-se nos telhados das mesmas. Em nome do clima. Por não haver planeta B. Hoje, por vontade própria, os jovens dão de mão beijada a única arma ao seu dispor: a educação.
E os dirigentes agradecem quando se ocupa o que está mais à mão, a escola, a mesma escola cuja função como ascensor social fica inexoravelmente comprometida.
Mas numa escola onde a aprovação do aluno de ano para ano já há muito é automática em nome de estatísticas para mostrar lá fora e pouco mais, pouco mais para os professores e para as escolas, pouco mais para os alunos e a escola é apenas um grande ATL onde os filhos deste país passam 12 anos apenas porque sim e depois logo se vê, não posso senão concluir terem os jovens de hoje toda a razão no seu desprezo total e absoluto pela escola.
A escola é um instrumento, um meio, mesmo se parco, para atingir um fim. A escola, o seu espaço, é o pouco que lhes resta. E a culpa não é dos jovens tal como não era nossa quando num solarengo 5 de Maio saímos à rua com o epíteto de malcriados, alarves, estúpidos e rascas.
A culpa é de quem dirige e a luta destes jovens é a nossa quando já não há tempo para a democracia e ainda menos tempo para sobreviver.
As águas estão a subir e a escola pode esperar.

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E o abismo ali tão próximo…

 

Se se concretizarem todas as malvadezas que, nas últimas semanas, têm vindo a ser preconizadas, e algumas já anunciadas, pelo Ministério da Educação, o mundo profissional que os Professores conhecem deixará de existir, muito em breve…

Desse mundo, pouco ou nada restará…

Apesar da gravidade da situação, a maior parte dos Professores não parece ter ainda tomado consciência de que o seu mundo estará prestes a ruir, a ser implodido e substituído por outro incomparavelmente pior…

Assoberbados que estão, entre outros, com indizíveis “inovações” como Domínios, Subdomínios, Temas, Ponderações, Instrumentos de Avaliação, Instrumentos de Registo, Descritores por Níveis de Desempenho em cada Domínio, Tabelas para Operacionalização dos Critérios de Avaliação em cada Domínio, Áreas de Competências, Menções Qualitativas ou Menções Quantitativas, os Professores parecem aturdidos pelo trabalho insano e pelos automatismos comportamentais…

E ainda, também, em alguns casos, para agravar a complexidade e tortuosidade do que lhes é exigido, com Tutoriais e Guiões explicativos (!) para conseguirem registar tudo o anterior, de acordo com determinados cânones, de forma a que, no fim, o respectivo significado seja praticamente inacessível e indecifrável…

Sim, o Projecto Maia conseguiu a proeza de “oficializar a loucura”, mas sempre “by the book”, “comme il fault”

E no meio de tantos desvarios que grassam dentro de muitas escolas, no exterior, o futuro dos Professores vai sendo decidido em (patéticas) rondas negociais entre o Ministério da Educação e os Sindicatos que supostamente os representam…

Começa a ser verdadeiramente confrangedor ouvir algumas declarações de dirigentes dos principais Sindicatos de Professores, à saída de cada ronda negocial com o Ministério da Educação…

Pois que saem dessas reuniões desiludidos e “desconcertados”, como recentemente parece ter acontecido (Jornal Público, em 8 de Novembro de 2022)…

Nesses concílios, ao que tudo indica, o Ministério da Educação simula que negoceia; os Sindicatos prestam-se ao papel de vítimas enganadas, vergadas às imposições tirânicas da Tutela; e, no fim, todos parecem ficar satisfeitos por terem cumprido a sua parte da actuação nonsense, do filme: “Para inglês ver”…

Mas os Sindicatos ainda acalentavam alguma ilusão?

Ou terão esquecido que, entre outros despautérios, em 2019, o 1º Ministro António Costa fez uma inadmissível chantagem, ameaçando com a demissão do Governo, se a Assembleia da República aprovasse a recuperação integral do tempo de serviço dos Professores?

Em 2022, o 1º Ministro é o mesmo, com a agravante de o actual Governo ser suportado por uma maioria absoluta em termos parlamentares, o que lhe dá uma margem de manobra significativamente superior…

O que esperavam os Sindicatos?

Ou terão esquecido que, em 2010, cederam a um ruinoso acordo, alegadamente selado com pizzas, com a então Ministra da Educação Isabel Alçada, desbaratando toda a força e união, alcançadas em 2008, pela maior Manifestação de Professores alguma vez ocorrida em Portugal?

Ou terão esquecido que durante os seis anos de Governo pela “Geringonça”, suportado pelo PS, BE e CDU, a sua própria postura se pautou pela bonomia e pela aceitação, fazendo de conta que reivindicavam e que reclamavam, mas mostrando-se incapazes de encetar acções efectivamente consequentes ou de ruptura, plausivelmente dominados por determinadas agendas partidárias que, na verdade, não pretendiam afrontar a dita governança?

Esperariam, agora, ser levados em muita consideração e muito a sério, quando a sua postura nos últimos anos foi dominada, ou pela cedência, ou pela inércia, expressa por “pactos de não-agressão” face às políticas educativas da Tutela, pelo menos em termos tácitos?

Enfermeiros, Médicos ou Técnicos Superiores, todos parecem conseguir alcançar alguma coisa do Governo… Parece que há Sindicatos que não costumam ir no “engodo de pizzas” e que conseguem fazer-se respeitar…

A Classe Docente, tão numerosa e qualificada em termos académicos, não tem Sindicatos capazes de a conseguir mobilizar e parte do seu conformismo também resulta disso…

O discurso da “cassete” do Velho Sindicalismo está gasto, decrépito, é completamente previsível e já não encoraja, nem convence ninguém…

“Fazer prova de vida”, partindo uns pratos “para a fotografia”, não chega como forma de reivindicação ou de protesto…

No momento actual, parecem existir apenas duas opções:

– Ou os Sindicatos se renovam fortemente, o mais rápido possível (“ontem, já era tarde”);

– Ou os Professores têm que encontrar formas alternativas de mobilização, independentes dos Sindicatos…

Se não o fizerem, correrão o risco de se deixar aniquilar de vez, permitindo que o comando lunático e perverso dos destinos da Educação os atire para o mais profundo dos abismos…

Perante todas as iniquidades que se prenunciam, e que a todos afectarão, ficar a “olhar de fora”, quase numa perspectiva voyeurista, ou permanecer na zona de conforto proporcionada pela atitude “pode arder, desde que não seja comigo” deixarão de ser possíveis…

Assim como todas as justificações, quaisquer que sejam, para a inacção e para o silêncio…

Face It Alone”, é o que me ocorre, para ilustrar o anterior…

(Tributo aos Queen, maior Banda Musical de todos os tempos, liderada por um Génio inigualável, que nunca morrerá: Freddie Mercury. E, já agora, quando se ouve “Bohemian Rhapsody” tudo melhora…).

(Paula Dias)

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Os novos 23 QZP serão estes…

 

Já tinha posto esta hipótese e o Ministro confirmou hoje. Os novos QZP serão alinhados com as CIM.

 

 

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Nota Informativa – Licenças sem vencimento/Licenças sem remuneração

 

 

Nota Informativa: Licenças sem vencimento/Licenças sem remuneração 2022/23

 

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A Pró-Ordem REUNIU COM MINISTRO E SECRETÁRIO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO

 A Pró-Ordem e a Federação Portuguesa de   Professores reuniram hoje com o Ministro da Educação, João Costa e com o Secretário de Estado da Educação, António Leite.

 Após as intervenções iniciais dos dois membros do Governo presentes, como nenhum deles se referiu à greve nacional de docentes do dia 2 do corrente, começámos por colocar duas perguntas ao Sr. Ministro:

1ª Pergunta: Recebeu o nosso Pré-Aviso de Greve?

2.ª Pergunta: – Leu o conjunto de reivindicações nele elencado e que implicações desta greve para a negociação coletiva?

 O Sr. Ministro mudou literalmente de assunto e não respondeu àquilo que interessa aos muitos milhares de docentes que, de Norte a Sul do País, de forma solidária abdicaram do seu magro salário (já que grande parte é retido na fonte para impostos) e fizeram esta justa Greve Nacional.

 De seguida colocámos a questão da ruptura de paridade entre a carreira docente e a carreira técnica superior, ou seja o Governo vai aumentar esta em 102€ e, em sede de Proposta de Orçamento de Estado, propõe apenas um aumento de 52€ para aquela. A resposta que recebemos foi de molde a deixar-nos ainda mais preocupados. Talvez se tivéssemos alguém com mais peso político em sede de Conselho de Ministros esta ruptura de paridade, que vigora há dezenas de anos, não seria deixada cair com tanta facilidade…

Quanto à contagem do tempo de serviço, aposentação, quotas e vagas não vimos abertura negocial, excepto para se equacionar a dispensa de vaga para o 5º e 7º escalão a quem tenha “habilitações mais avançadas” (será mestrado, doutoramento?…)

 Parece haver abertura para a contagem do tempo de serviço em creche e a consideração da questão dos técnicos especializados da António Arroio e da Soares dos Reis.

 Em matéria de concursos acolhe-se a reivindicação do movimento sindical docente de reduzir a dimensão territorial dos QZP, passando dos atuais 10 para 23. Mas o concurso interno passaria a ter uma validade quinquenal, em vez dos atuais quatro anos. Sendo que não parece haver grande pressa no finalizar deste processo negocial, pois o concurso geral não será em 2023, mas apenas em 2024.

  projeto do Ministério, aparentemente, parece ainda estar apenas em embrião; pelo menos à nossa Federação ainda nada foi entregue por escrito. Mas, uma coisa é certa, será instituído um designado Conselho Local de Diretores de Agrupamento de Escola, para escolher “alguns” professores. Se e esses “alguns” serão 1/4, 1/3 ou mais, só o futuro o dirá…

 

Lisboa, 7 de Novembro de 2022

Pela Direção Nacional

O Presidente da Direção

Filipe do Paulo

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2401, este é o número de docentes aposentados durante 2022

 

Mais de 400 aposentações abaixo das previsões feitas por um dos anteriores governos, 2826.

O número final de docentes a conseguirem a aposentação, durante este ano civil, fixou-se nos 2401.

O dia 1 de dezembro será o dia em que passam ao “estado” de jubilados mais 26 Educadoras, 196 Professoras e 72 Professores, num total de 294 docentes. É, também, o mês de2022 em que o maior número de docentes passa à aposentação.

Amanhã apresentaremos as contas com mais pormenor.

 

 

 

 

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Fenprof assegura que é falso que mais de metade dos professores ganhe mais de 2.250 euros

 

“O salário recebido pelos docentes da educação pré-escolar, do ensino básico e do ensino secundário – ou seja, o salário líquido – nunca atinge os dois mil euros”, assegura a Fenprof, contrariando o que foi noticiado com base em dados do Ministério da Educação que não contemplam os professores com contratados a termo.

Fenprof assegura que é falso que mais de metade dos professores ganhe mais de 2.250 euros

 

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Educação inclusiva: O grande desafio e um decreto irreal

De vez em quando, ficamos com a ideia de que quem legisla sobre educação nunca esteve numa sala de aula a ensinar…

Educação inclusiva: O grande desafio e um decreto irreal

Pelo que tem sido possível constatar ao longo destes quatro anos, aumentou de forma significativa o intenso trabalho dos incansáveis professores de educação inclusiva (vulgo educação especial, como antes eram apelidados), enquanto os conselhos de turma, na sua generalidade, se têm limitado a preencher a extensa documentação cuja vantagem consideram, no mínimo, duvidosa. Primeiro, porque os professores sempre diferenciaram as suas práticas pedagógicas de acordo com a singularidade do seu público (dentro dos limites da razoabilidade, como veremos a seguir) e, depois, porque nunca conseguiram encontrar qualquer causa-efeito destes extensos documentos exigidos na melhoria das aprendizagens dos alunos; por último, e não menos importante, porque se o Decreto-Lei Nº 54/2018 pretendesse deveras uma verdadeira educação inclusiva, teria vindo acompanhado de um outro decreto que reduzisse, de uma vez por todas, o número de alunos por turma, o número de horas letivas e não letivas dos docentes e de uma formação específica que fosse uma mais valia prática, dada por formadores no terreno, e não uma sobrecarga teórica transmitida por pedagogos de secretária aos fins de semana. Sem ovos é difícil fazer omeletas. Contudo, as nossas políticas educativas continuam a querer obrigar os docentes a cozinhá-las assim. E as escolas, por sua vez, não conseguem fazer verdadeiro uso da sua autonomia porque, para se ser autónomo e gerir uma escola dessa forma, são necessários recursos financeiros inexistentes que o Ministério da Educação não faculta. Ou seja, estamos perante uma pescadinha de rabo na boca.

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Conselho Local de Diretores de Escolas? (para escolher “alguns” Professores)

 

Nas declarações do Presidente do S.TO.P ouvimo-lo referir que uma das propostas do ME é a da escolha de alguns Professores por um Conselho Local de Diretores.

Até me arrepiei.

O que acontecerá nos muitos Concelhos deste país que só têm um Agrupamento de Escolas? O Diretor reunirá em frente a um espelho e decidirá, com o seu reflexo, que Professores escolher?

Já para não falar do tal perfil…

 

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O que recebo e o que “ganho”. Luís Sottomaior Braga

 

O que significa “ganhar”, num título de 1ª página?

É diferente de “receber”.

Se um restaurante serve refeições estragadas, eu deixo de lá ir e a ASAE fecha a tasca.

A notícia do Correio da Manhã sobre salários docentes de hoje é um peixe podre e mal cheiroso que dá ganas de se ser como o Obélix.

Mas vai passar como grande verdade e animar muitas conversas de tasca e esplanada. Quem terá pachorra para ver as tabelas verdadeiras? (abaixo)

Além disso, a preguiça jornalistica não se compadece de tantos números e conceitos complicados como IRS diferente conforme o número de filhos e se se é solteiro ou casado.

O jornal fala do bruto e o leitor pouco esclarecido compara com o líquido. E com o seu líquido, que entre salários mínimos e salários um pouco mais altos não é proporcional.

O Correio da Manhã fez um excelente serviço à IL ao mostrar, de forma bacoca, um dos efeitos numéricos da progressividade fiscal na comparação de salários.

E a literacia matemática não é um dos fortes do país.

Realmente, se não houvesse progressividade podiam comparar salários brutos de forma linear.
Mas quem ganha 2000 euros brutos, paga maior proporção do seu salário do que quem ganha 1500. Por isso, há escalões de IRS.

Como os impostos são progressivos (e bem) e a ADSE é proporcional ao salário bruto (e bem), quem ganha menos que os professores não percebe, num texto assim, o spin e manipulação pró-governo e anti-professsores. E a ERC não nos valerá.

Mas o autor do título também prestou um belo serviço ao Chega, além do frete imediato ao Governo.

Quer porque notícias assim fazem com que muitos professores sintam a raiva da injustiça e vão ouvir o venturoso de outra forma, quer porque tudo o que seja mentira e falsidade serve o interesse de quem se alimenta da desinformação.

Declaração de interesses: ao fim de 27 anos de serviço, recebo 1350 euros líquidos.
Estou no 4º escalão e preso pelas vagas e antes dos 66, a reforma, não chegarei ao 10º escalão (o tal que, líquido, vale uns 2000 euros).

Como subdiretor, recebo mais 200 euros mensais (12 meses) líquidos. O bruto são 2350 (por ser dirigente) dos quais desconto 800 em média mensal para receber os 1550 euros líquidos.

O que “ganho” não é o que “recebo”. E não me venham dizer que é comparável ou aceitável fazer contas dessas. Mas serve ao governo numa guerra salarial.

E é isto.

 

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