A prisão de Verão – Alberto Veronesi

Há temas que regressam ciclicamente, como as marés teimosas. Um deles é o da escola que, em vez da casa de saber, se converte numa prisão de verão. Digo-o a propósito do prolongamento do calendário escolar para o pré-escolar e o 1.º ciclo até 30 de junho, essa ideia luminosa que talvez brilhe apenas à distância, lá onde o termómetro do real nunca toca o vidro da janela.
Escrevo, como sempre, a partir de quem esteve onde o quadro e a caneta se misturam com o bafo do calor. Foram mais de vinte e cinco anos ligados ao ensino, vinte deles em frente a uma turma. Há quem acredite que é fácil mitigar temperaturas quando as janelas, quando as há, não abrem, as cortinas, quando existem, não fecham e o sol de junho decide fazer da sala uma pequena estufa pedagógica. Para esses, deixo o convite. Venham experimentar uma tarde de 23 °C lá fora e 28 °C cá dentro, respirando o mesmo ar de vinte e quatro alunos. Talvez então compreendam o que é “ensinar com convicção”.
Mas admito! Compreende-se a leveza da opinião de quem fala sem o corpo presente, sem a pele no jogo. Quem nunca pisou uma sala de aula ou já dela se esqueceu tende a achar que o desconforto é detalhe. Mesmo quem mora em paragens mais frescas julga que o calor se vence com boa vontade, talvez com uma ventoinha e uma garrafa de água. O problema é que a realidade raramente se dobra à imaginação dos gabinetes.
Não falo por achismo, mesmo que queiram isso fazer entender. Há dados, estudos, evidências. Basta lê-los. O Parecer sobre organização do tempo escolar do Conselho Nacional de Educação (2017). O trabalho de Oliveira e colegas (2017) sobre condições térmicas em ambientes de ensino. Os relatórios da OCDE (Education at a Glance 2025) e o artigo de Cuartas et al. (2025) sobre o impacto do calor no desenvolvimento infantil. Até Gomes et al. (2012), no LNEC, mediram o óbvio e concluiram que o calor afeta o desempenho, a concentração, o bem-estar. Estes argumentos, para uns iluminados, é uma miséria intelectual. Para os que sofrem junho a dentro, miseráveis são os que comentam sem conhecimento de causa!
Por isso, se alguém se sente atingido por estas palavras, nada tema: é apenas porque a carapuça assentou.

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