No seu discurso de tomada de posse como Presidente da República, António José Seguro falou de quase tudo o que costuma caber na liturgia presidencial: coesão social, desigualdades, necessidade de diálogo político, estabilidade institucional e até a promessa solene de representar “todos os portugueses”. Foi um discurso correto, equilibrado e cuidadosamente calibrado para não criar inimigos no primeiro dia de mandato. O problema é que, no meio de tanta prudência, houve uma ausência particularmente ruidosa: a educação.
Não é que o tema tenha sido frontalmente rejeitado ou criticado. Pior do que isso. Foi tratado como se costuma tratar aquilo que toda a gente diz ser importante mas que raramente entra na lista das prioridades reais. A educação apareceu diluída na habitual enumeração de valores genéricos sobre oportunidades, futuro e desenvolvimento do país. Palavras que cabem bem em qualquer discurso institucional, mas que também servem perfeitamente para não dizer nada de concreto.
É curioso porque a escola pública portuguesa atravessa um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Falta de professores em várias regiões, envelhecimento acelerado da classe docente, precariedade persistente no ensino superior e desigualdades educativas que continuam a marcar profundamente o território. Não são problemas novos, mas são problemas cada vez mais visíveis. Ainda assim, no momento simbólico em que um novo Presidente define o tom do mandato, a educação acabou remetida para aquele espaço confortável onde vivem as ideias consensuais e politicamente inofensivas.
A tradição presidencial portuguesa ajuda a explicar esta prudência. Desde Mário Soares até Marcelo Rebelo de Sousa, passando por Aníbal Cavaco Silva, os discursos de posse raramente entram em terreno programático. O Presidente fala do país em termos amplos e deixa as políticas concretas para o Governo. É uma interpretação legítima do cargo, mas que tem um efeito curioso: a educação surge sempre como um valor moral absoluto e quase nunca como um problema político real.
O resultado é uma espécie de consenso vazio. Toda a gente concorda que a educação é fundamental. Toda a gente elogia os professores e o papel das escolas. Toda a gente afirma que o conhecimento é o futuro do país. Mas quando chega o momento de falar seriamente sobre o sistema educativo, a conversa evapora-se em abstrações.
No discurso de António José Seguro essa dinâmica repetiu-se com precisão quase académica. O Presidente apresentou um retrato geral de um país que precisa de combater desigualdades e reforçar oportunidades, mas evitou qualquer referência direta às tensões concretas do sistema educativo. Não houve uma palavra sobre a crise no recrutamento de professores, sobre o estado do ensino superior ou sobre o papel da ciência e da investigação no desenvolvimento nacional. Para um país que tantas vezes proclama que o seu maior recurso é o capital humano, a ausência é, no mínimo, curiosa.
Talvez seja apenas estratégia. Os discursos de posse são exercícios de equilíbrio e raramente momentos de confronto. Ainda assim, fica a sensação de que, numa época em que a educação deveria ocupar o centro do debate público, ela continua a ser tratada como cenário e não como protagonista.
No primeiro dia de mandato presidencial falou-se do país, da democracia, da esperança e da responsabilidade coletiva. Tudo temas importantes e respeitáveis. Mas, no meio de tantas palavras sobre o futuro, ficou a impressão de que uma das ferramentas mais decisivas para construí-lo ficou estranhamente fora da conversa.
De educação, afinal, o Presidente não falou



