O poder das “home visits” – João André Costa

 

Não, não é um estrangeirismo ou manias de quem agora é mais que os outros só porque fala em inglês, é mesmo inglês ou não acordasse, vivesse e dormisse em inglês e portanto inevitável o uso de duas línguas numa só frase.
Por já sonhar em inglês e não se perde uma língua, ganha-se outra e a vida mais preenchida.
São 19 horas, o sol, o sol que não se vê, nunca se vê, pôs-se há mais de 3 horas, agora chego à escola às 5 da manhã e portanto depois de 14 horas estou “in two minds”, que é como quem diz não saber se grite ou se agradeça a sorte de apenas bater à porta e receber o mundo em troca.
Acontece a uma segunda-feira ou a uma sexta e sempre quando já todos estão em casa onde não chove e não estão -5 graus centígrados. Pode acontecer a um sábado e já aconteceu a um sábado e não há mais ninguém disponível. Nunca há. E a responsabilidade é sempre nossa.
Por ninguém saber dos miúdos dias a fio e de casa ninguém atender ou os telemóveis sempre desligados.
E por conseguinte aqui vou eu depois de 14 horas de trabalho fazer pelo menos 10 quilómetros de bicicleta numa cidade onde o trânsito impossível explica o porquê de me calhar sempre a fava.
Sim, mais ninguém se desloca de velocípede.
Ziguezagueando, fujo às filas intermináveis e incapazes e em 20 minutos estou à porta de qualquer um dos nossos alunos.
Nunca estão à minha espera. Já há muito que é noite cerrada e bater à porta a esta hora é o equivalente às 11 da noite portuguesas, ou seja a hora de jantar.
Estou a brincar. Ou talvez não.
E abandonados por tudo e todos, ouço as suas arengas e lamentos, histórias de vida mas também crianças à porta curiosas e alegres, casas onde nada falta e casas onde nada há senão colchões, crianças e fome e portanto mais pedidos de ajuda, mais contactos com os serviços sociais, já tive de pagar a electricidade de um contador a moedas diante do pranto de uma mãe e lá na escola ninguém nunca sequer imaginou ou imagina.
A falta de um obrigado ainda hoje explica a vergonha de nada ter.
Mas por norma agradecem ter alguém a quem recorrer, alguém que ouça, alguém com tempo, alguém.
Porque até agora nem a polícia, nem os serviços sociais, nem os médicos enclausurados em centros de saúde ainda fechados depois da pandemia e famílias inteiras sem terem quem lhes acuda e a sociedade basilar inexistente, distante, ausente e altiva a olhar de lado para quem tanto precisa.
Quando parto, parto sempre com mais mil pedidos a juntar aos mil à espera do dia anterior e os mil de amanhã.
Por isso esta vontade de gritar. Mas também a certeza de ter uma porta sempre aberta, mais uma e já são tantas.
E não sei se é da idade mas não grito. Registo, não me esqueço das horas e dos números, contabilizo e volto para casa.
Eventualmente, volto para casa onde já não está ninguém à espera, os miúdos na cama, todos na cama e a vida a passar-me ao lado.
Amanhã é outro dia.

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2 comentários

    • Luluzinha! on 6 de Fevereiro de 2023 at 14:24
    • Responder

    Mais uma publicação pseudoliterária absolutamente irrelevante.

    • Sofia on 6 de Fevereiro de 2023 at 17:39
    • Responder

    O colega pode ser bom para a família dos outros mas não deve esquecer a sua. E não se esqueça de algo: não conseguimos ajudar quem não se ajuda a si próprio..

    De qualquer modo, obrigada pelo seu espírito missionário.

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