O que é o projeto Maia, uma forma de reduzir o insucesso? Será uma inovação pedagógica?
O projeto Maia está, ao promover o feedback (comunicar aos alunos, não de forma quantitativa, o seu nível de desempenho) ao trabalho realizado pelos alunos através de uma avaliação formativa, a promover uma alteração pedagógica, em relação ao que existia antes. Este elemento é positivo, mas acrescenta bastante trabalho aos professores porque em vez de o professor dar uma classificação quantitativa, tem de elaborar textos formativos com as lacunas detetadas em cada aluno, que levam entre 10 a 20 minutos, que numa turma de 25 alunos, levará 3 a 5 a mais horas de trabalho, por cada avaliação que o professor faça, além do que já tinha de fazer, como corrigir as avaliações, que passam a ser o dobro porque agora deve promover as avaliações formativas.
Ora, é preciso não esquecer que o professor está sobrecarregado de trabalho administrativo, com base na presunção de desconfiança que sobre ele paira que o obriga a tudo justificar e se neste tema até pode fazer sentido, juntando à burocracia que já existia em excesso, o trabalho fica excessivo (o grupo de trabalho para a desboracratização do trabalho dos DT é em parte o reconhecimento deste problema).
O projeto Maia ao desdobrar a avaliação em rubricas, que podem e devem ter especificidades conforme as disciplinas, também alterou a forma de avaliação, ao promover avaliações por rubricas, o que obriga os professores a variarem o tipo de avaliação, deixando o teste de ser a avaliação padrão, aparecendo o trabalho, individual ou de grupo, a oralidade (já introduzida nas línguas, mas agora estendida a qualquer disciplina), e outros (como trabalho experimental em certas disciplinas). Esta também é uma melhoria, mas deve ser aplicada com parcimónia, sendo 3 o número ideal de rubricas, para que o trabalho do professor esteja dentrodo razoável e não aumente exponencialmente. No primeiro ano de aplicação o meu departamento exagerou nas rubricas, por falta de experiência, pelo que houve um acréscimo acentuado de trabalho.
Estes dois aspetos são positivos, existindo portanto uma inovação pedagógica, desde que aplicadas com parcimónia.
O problema deste projeto é ser usado para acabar com o insucesso, ou seja, se o aluno não tem aproveitamento, é porque o professor não fez o feedback, ou não encontrou formas de avaliação que tirasse rendimento do aluno. Será assim? Não podemos passar de uma escola «capturada pelos professores» para uma escola «capturada pelos alunos», pois há alunos que não reagem aos estímulos e estão na escola porque têm de estar, devido à escolaridade obrigatória. Para os alunos interessados, a diversidade de instrumentos formativos e avaliativos introduzidos permitiu motivar mais o aluno e melhorar o seu rendimento. Para os outros é indiferente haver projeto Maia ou não.
Mas o mais grave na aplicação do projeto Maia é a regra instituída, pelo menos na minha escola, que obriga a retirar a nota mais baixa em cada rubrica aos alunos. Estamos perante um inflacionar de notas e mesmo do total alheamento da escola no terceiro período, por parte de alguns alunos, que ao terem aproveitamento no 2º período desligam completamente do trabalho escolar, aumentando a indisciplina na sala de aula. Em departamento foi pedido o fim desta norma, mas manteve-se para este ano letivo.
Concluindo, o projeto Maia introduziu inovações pedagógicas positivas, mas infelizmente está ser usado, à margem da lei, sem intervenção da IGE, como o faz nos colégios, para promover a não retenção dos alunos, a inflação de notas e a desmotivação do trabalho dos alunos no 3º período. A inflação de notas não é só um problema dos colégios particulares que agora parece estender-se ao público a coberto deste projeto e com o ME a alhear-se.



