Sou uma fraude. Não há outra maneira de o dizer e, por conseguinte, digo-o como é e como sou: uma fraude. Nunca acabei o Ensino Secundário, faltou-me a disciplina de Matemática e apesar de me faltar a disciplina de Matemática, ainda hoje por fazer, entrei para a Universidade à mesma para sair da Universidade à mesma e fazer de conta que tenho um curso, que sou professor. Não sou professor. Nem sequer acabei o 12° ano de escolaridade e o exame de Matemática está ainda à espera. Vou estudar para o exame mas não sei quando é a data. Até pode ser amanhã, não sei, disseram-me que está para breve mas ninguém sabe ao certo. Eu não sei e tu também não e não há ninguém a quem possamos perguntar: está para breve e, arrepio na espinha, se calhar até já passou. Se calhar foi ontem. E como se calhar foi ontem só sei que tenho de fazer o exame o mais depressa possível antes que algo, ou alguém, descubra tudo e revele ao mundo a verdade desta mentira: não sou professor, nem sequer devia ter entrado para o curso, quando mais encontrar um emprego lá fora, fazer carreira, subir e fazer disso o grande alarido que sempre fiz. Algo me diz, no entanto, que já fui, e como já fui faltei mesmo ao teste. E se calhar deitei tudo a perder e roído pela culpa, porque a verdade vem sempre ao de cima e tudo que atiramos para o céu cedo ou tarde nos cai na cabeça, decidi vir para aqui, que ninguém nos ouve, ou lê, dizer a verdade, finalmente a verdade, toda a verdade e somente a verdade, por uma vez a verdade! Mãos ao alto, estão ao alto, acordo a suar da cabeça aos pés, o mesmo pesadelo outra e outra vez e afinal um pesadelo, não é a sério, são 3 da manhã e já não vais voltar para a cama. E se entretanto passaram 28 anos, os mesmos decorreram ao ritmo destas noites uma vez por mês e fazendo as contas já devo ter vivido este pesadelo mais ou menos 336 vezes. Até agora. E, entretanto, entrou Dezembro. Tudo por causa da professora de Matemática que nos calhou em sorte à entrada do Secundário. 10° ano e a média a contar para a faculdade. Não obstante, o João diante da turma inteira a enunciar a regra de Ruffini, mas a regra de Ruffini está mal, pelo menos de acordo com a professora, e como está mal obriga o João a repetir outra vez. E outra vez. E outra vez e outra e outra e outra vez e está sempre mal e o João, que sou eu, a gaguejar sem saber o que fazer, os colegas a rir e a professora aos berros de dedo em riste a apontar-me como o exemplo máximo da ignorância e a sala não uma sala mas o tribunal derradeiro e a professora como juiz e carrasco. A sentença: uma reunião com a minha mãe no dia seguinte e não só não aprendi a regra de Ruffini como não quero saber da regra de Ruffini ou sequer quem foi o Ruffini ou porque razão certas pessoas nascem para nos infernizar a vida. A Luísa a chorar na semana a seguir a caminho do quadro porque a Luísa já sabia ao que ia. Mas a Antónia é que não sabia, a Antónia só sabia que o avô morrera havia uma semana e portanto trabalhos de casa nem vê-los, mas “lá porque o teu avô morreu isso não é desculpa!”, grita a professora, e a Antónia, e com a Antónia toda a turma, boquiaberta e lá vai mais uma acusação, lá vai mais um julgamento e sentença. Lá vai mais um aluno perdido para a matemática. Querem que continue? Querem que continue com o sorriso sádico da professora enquanto, um a um, chamava os alunos por ordem decrescente do resultado de cada teste até à humilhação final? O sorriso com que nos entregava o juízo final à espera em casa sem fazer o mínimo esforço para disfarçar a satisfação de quem via neste exercício o coroar dos seus esforços. Ou a falta deles. Por isso é que a professora rasgou o teste ao Pedro antes mesmo de lho entregar: era a nota mais baixa, não valia a pena, e o Pedro sem saber o que dizer ao pai. Há coisas que ainda hoje me ultrapassam. Há coisas que, confesso, não compreendo. Porque a professora conhecia o pai do Pedro e se fosse hoje o pai do Pedro ia preso e a professora também por incitação à violência doméstica. Como ainda estávamos no 1° Período, não quis esperar mais. Já me chegava ter uma professora de matemática cujo cumprimento matinal versava sobre como enquanto dependesse dela nunca seríamos ninguém na vida. Todos os dias. Todos os dias a memorizar-nos entre piadas, insultos, mais humilhações e as reuniões com os pais no calendário da parede para todos verem. E o que ninguém via eram os testes-surpresa, três ao todo e por isso as notas de quem ninguém estava à espera. Mas, dizia eu, querendo ser alguém na vida e a ver o desastre a aproximar-se à velocidade da luz, pedi para mudar de turma, preterindo os amigos de anos em função da entrada para a universidade e nunca mais olhei para trás. Até porque a verdade foi a de muitos terem ficado retidos findo o 12° à procura de um melhor resultado no exame de matemática. E se hoje a memória e as estruturas do ego fizeram o seu trabalho no sentido de esquecer o nome da malfadada professora, o que é certo é a sua visita todos os meses, pelo menos uma vez por mês e quando estou menos à espera. Nos sonhos nunca estamos à espera. Nos sonhos todos temos um teste-surpresa. Por isso a escrita, uma tentativa de catarse, quem sabe a salvação. Mas não. Os professores têm o poder imenso de nos mudar a vida. São guias, educadores, amigos, pais. Dependemos deles e neles depositamos todas as fragilidades e esperanças e a nossa confiança é infinita. Só assim se explica o porquê desta cicatriz ainda presente. Ainda hoje acordo a suar.




12 comentários
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A sociedade portuguesa está assim… Quase toda a gente a desempenhar funções muito mal preparadas para as mesmas. Gente sem vocação ou inclinação para as mesmas. Há anos que o sistema de ensino público passou a ser um sistema de ensino nivelado por baixo para formar os senhores doctores … depois vêem dizer que nunca tivemos tanta gente licenciada em Portugal… pudera, com tanta facilitação até os cábulas viram a vida facilitada e se tem formado muitíssima gente sem saber ler ou escrever a condizer com o estatuto de sr. doctore
E o que vemos a acontecer quotidianamente na sociedade portuguesa? Viramos para onde viramos, nos deparamos com imensa incompetencia!
Ensino nivelado por baixo, de exigência mínima: sociedade de serviços mínimos!
Viva ao ensino “democrático”…. Viva à “democracia”!
APRESSADAMENTE A CAMINHO DO ABISMO
Mirtha
Infelizmente, é verdade o que diz. Os casos são “mais que muitos”. Insuportavelmente abundantes -lamento dizer.
No Brasil é igual ou pior, seja ou não brasileira (o) .Mas isso é irrelevante : ” com o mal dos outros posso eu”, como soe dizer-se. Lamentavelmente ,aí chegamos. Chega!
(“ensino nivelado por baixo”- verdade !; consequentemente, gente muito impreparada a desempenhar toda e qualquer função : professor, deputado, ministro , presidente de câmara, sei lá – verdade! ; “facilitação”- sem saber ler nem escrever, pode ser licenciado! .Então nos politécnicos que – vergonhosamente podem outorgar títulos académicos (!! )pertença exclusiva da Universidade em qualquer país do mundo – équié!
A grande maioria dos professores não corresponde nem correspondia ao perfil documentado nesta história de vida. “Uma andorinha não faz a primavera”.
Que tal contar as histórias de professores que o marcaram positivamente?
É uma história de vida que não prova nem adianta nada às comunidade porque um professor como o descrito existe mas não é representativo.
Por isso é que há tantos alunos e encarregados de educação a queixarem-se dos professores aqui em Portugal . E outros tantos com imensos problemas disciplinares com os seus alunos. Estou a seis anos de me aposentar e até hoje apenas tive um caso indisciplinar no meu currículo e esto foi no meu país, por culpa minha!!! Sempre fui de opinião que para se entrar para esta carreia havia de haver uma seleção apretada, pois nem todos têm aptidão ou vocação para esta carreira fulcral num país.
“Apretada”? Dever ser espanhola ou …?
Ó minha senhora, diga-me por onde andou, que eu dou-lhe já uma listazinha onde pode ir mostrar toda a sua suficiência enquanto professora e disciplinadora.
Ele há cada burgesso a pôr-se em bicos de pés! Cambadas de vampes narcísicas!
Sou professora de Matemática e não me reconheço nesta história. Os professores não são assim, na atualidade.
Por isso é que a grande maioria dos processos disciplinares, levantados aos professores, são originados por más colegas. Por norma, más professoras também são más colegas! Más em tudo, até na sua vida pessoal…
São pessoas amargas que gostam de amargurar a vidados outros. Tem toda a razão.
Vou admitir que a história é verdadeira. E, terá sido há uns 30 anos atrás, no tempo em que, dizem os tugas, os professores eram bons. Andava no sistema educativo e nunca conheci nenhuma professora como essa. E, hoje, ainda menos. O mal destas histórias, é que despoleta uns mirthas quaisquer a considerar que quase todos os professores são assim, quando antigamente o eram raramente, e hoje nem o conseguem ser, mesmo que dentro deles estivesse uma professora assim. Enfim, o autor apresenta o seu trauma, os tugas comentam como se todos fossem assim. Cambada de…
Os professores de Matemática esmagaram os meus sonhos. Não tinham, de um modo geral, a mínima paciência para alunos fracos. Ignoravam-nos e dava-lhes gozo. Ensinavam para os eleitos da primeira fila.
Também tenho sonhos repetidos como esse e sobretudo com estar na Universidade a contragosto, pois não segui o curso que ambicionava, pois era preciso Matemática – para entrar, que depois já não fazia falta e entretanto até deixou de ser preciso, mas para mim veio tarde demais.
Repeti vários anos a Matemática, a estudar e a trabalhar e já no Ensino Superior. Sem sucesso. Chegámos a chumbar a escola inteira a Matemática. E os professores de Matemática realizadíssimos, luzidios de satisfação, trocando piadas. Um dia em beleza, vamos todos almoçar e celebrar.
Onde estiver agora, o professor Matos, que fazia com que os gráficos da Álgebra soletrassem “SCP”, deve estar feliz. Ele e os outros todos que viam em mim uma piada excelente para contar aos colegas, de um gajo tão burro que nem era capaz de resolver uma simples equação de 3º grau.
Ainda hoje, vejo números e dá-me vómitos. Procuro estar o mais longe deles possível. Não sei quanto dinheiro tenho no banco (o saldo deve ser negativo, aliás). Nunca fiz a média de consumo do carro. Nunca preenchi o IRS, pago para mo fazerem. Odeio Matemática.
Lamento dizer que não lhes noto grande diferença hoje em dia. Sempre aquela convicção de que são os super-professores, da única disciplina que interessa, porque é a que mais sonhos destrói. Ásperos, secos, desapiedados, desprovidos de empatia, sádicos, arrogantes, auto-obcecados. E decerto realizados com este testemunho.
A culpa não é só deles, note-se! Em todo o mundo, gerações de alunos têm resultados miseráveis a Matemática. E nem os respectivos professores, nem os governos, nem os especialistas, se questionam porquê. Será que os programas estão fora do alcance das inteligências médias, ou serão milhões de alunos, geração após geração, uns preguiçosos selectivos que embirram com a disciplina?
Gostaria ainda de acrescentar que o inefável professor Matos, com o seu pullover verde, o seu bigode bem aparado e o seu cabelo bem penteado (parecia o António Sala) ainda me fez a seguinte atenção:
Inscrevi-me a Matemática, numa última tentativa de fazer o 12º ano da área que pretendia. Só que, como já estava na Universidade, não conseguia comparecer às aulas todas. Estava finalmente a tirar positivas e podia ir ao exame final com uma boa margem para ter média positiva.
No entanto, o professor Matos (de maneiras suaves, simpático para os bons alunos e ignorando totalmente os que tinham dificuldades) fez o favor de não aceitar os documentos justificativos de faltas. Na opinião dele, eu tinha que escolher entre fazer pela vida no Ensino Superior, ou dedicar a minha vida a ter Matemática com ele.
Claro que a seguir a isto, desisti de vez. E nem nunca me passou pela cabeça recorrer à Justiça ou sequer confrontá-lo pessoalmente, sem testemunhas, quiçá enfiar-lhe a carga de porrada que, reconheço agora ao escrever isto, ele merecia.