Quer saber o que faz uma escola? Não vá pelos rankings
“Ele anda numa boa escola”. Qual o significado desta frase? Não tenho a menor hesitação em responder. A escola boa é a que tem poder transformador, por receber todos e levar todos por um caminho de desenvolvimento pessoal e humano, em que o conhecimento, a arte, a cultura, a cidadania e o bem-estar são o instrumento para um sucesso pleno.
A escola boa não seleciona alunos à entrada. Acolhe todos e gosta de todos. A escola boa é um lugar vivo, em que as paredes com as produções dos alunos refletem o envolvimento de todos. A escola boa é a que estimula pensamento e curiosidade, a que ajuda a saber fazer perguntas antes de procurar se as respostas estão certas. É a que estabelece relações positivas com os que chegam sem acreditar em si próprios, vestindo demasiado cedo a camisola da incapacidade. É também uma escola em que há entreajuda à frente da competição desmesurada. Em que a presença do aluno com dificuldades ou problemas sociais é vista como uma responsabilidade de todos os alunos e de todas as famílias e não como uma questão só dele.
E eis que, no ano em que se tornam mais absurdos, nos aparecem os rankings. Se acha que refletem uma avaliação clara da qualidade da escola, desengane-se.
Os rankings são o resultado de uma lista ordenada a partir dos resultados dos exames nacionais. Ponto. É mesmo só isto.
Se procura qual a escola que mais consegue prevenir o abandono de crianças ciganas, não a vai encontrar no topo da lista. É, contudo, geralmente das que mais trabalha.
Se procura qual a escola que investe na saúde mental e harmonia como instrumento para a aprendizagem, não sabemos onde está na lista.
Se procura qual a escola em que se consegue cativar pais para a valorização do saber, inclusive trazendo-os para a formação nos Centro Qualifica, também não sabemos onde está.
Se procura a escola em que os alunos mais se desenvolvem na criatividade, pela arte, pelo desenvolvimento da sensibilidade estética, continuamos sem saber onde está.
Se procura a escola que desenvolve projetos de intervenção comunitária, formando verdadeiros cidadãos participativos e esclarecidos, aquele número que aparece em frente ao nome da escola não está a dizer nada sobre isso.
Se procura uma lista que não espelhe assimetrias territoriais e socioeconómicas, também não é esta a lista certa.
Se procura saber a qualidade do trabalho desenvolvido nos Cursos Profissionais, estas listas tendem a ser omissas.
Avaliar uma escola e o seu desempenho é muito mais do que ordenar um ficheiro Excel por ordem descendente de resultados.
O Ministério da Educação tem vindo a disponibilizar um manancial de informação, presente no Infoescolas, que permite olhares muito mais abrangentes e esclarecidos. Refiro o indicador Percursos Diretos de Sucesso, que compara realidades comparáveis e mede o progresso efetivo dos alunos, não construindo avaliações que anulam o ponto de partida. Os vários estudos produzidos pela Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência, muitos deles sob a responsabilidade do Doutor João Baptista, permitem estabelecer correlações entre sucesso e qualificações, mostrar que a pobreza não é uma fatalidade, detetar assimetrias regionais, medir o desempenho dos cursos profissionais, perceber assimetrias entre escolas dentro do mesmo agrupamento, conhecer o perfil de resultados de todas as disciplinas.
Os relatórios individuais e de escola das provas de aferição dão informação detalhada, descritiva e qualitativa, sobre desempenhos e têm servido de base ao desenho de respostas em função das dificuldades específicas.
O Programa Nacional para a Promoção do Sucesso Escolar tem divulgado estudos de eficácia de estratégias pedagógicas que permitem a melhoria sustentada de resultados.
A Rede de Bibliotecas Escolares avalia e disponibiliza os dados das suas intervenções, centrando-se no impacto dos seus programas.
Todos estes instrumentos permitiram construir, ao longo dos dois últimos anos, um novo referencial para a Avaliação Externa das Escolas, que tem sido reconhecida nacional e internacionalmente como um dos fatores que tem possibilitado a melhoria do nosso sistema educativo.
O novo referencial não descarta resultados, mas inclui vários outros domínios que se traduzem em respostas a perguntas como: Quão inclusiva é a escola? Que resultados consegue a escola na mobilidade social dos alunos? Como se estabelece a relação construtiva com as famílias? Que projetos e instrumentos se promovem para que as aprendizagens sejam perenes?
Estas são as perguntas que ajudam o sistema educativo a crescer. Muito mais do que a glória fútil de ser a número um da lista ou o olhar paternalista e desmobilizador sobre a escola do fundo da lista.
Quer saber o faz uma boa escola? Visite-a. Fale com os alunos, veja-a como um todo. Se não quer que o seu filho se transforme numa média, aposte numa educação centrada no humanismo e na valorização de todos. Porque é isso e não uma centésima o que lhe dará asas para chegar mais longe.




26 comentários
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Conversa da treta quando tudo é direcionado para os exames.
Não seja um energúmeno reducionista! Tão limitado, meu Deus!
Concordo plenamente com o texto que foi escrito. Muito bem.
Os rankings desvirtualizam completamente o trabalho desenvolvido nas escolas por este país fora.
Conversa da treta , mesmo… O SE Costa se detesta tanto os exames, porque não acaba com eles? Não rejeito que há escolas, colégios, escolas públicas, que seleccionam os alunos: sim Escolas Públicas! Não rejeito que muita desta excelência pedagógica, da escola privada, desabaria em muitas das zonas mais desfavorecidas das periferias… Agora os números são o que são! Alunos que foram testar os seus conhecimentos curriculares,: sim, conhecimentos curriculares!… e tiveram valores elevados. Não desprezem o trabalho desses alunos, dos seus professores, das escolas que os formaram … Digo mais… muitos dos arautos da escola flexível, da escola do currículo mínimo para os pobrezinhos, dos currículos que esquecem a Academia e se dedicam ao conhecimento esotérico, têm os seus filhos em colégios de élite! TODOS SEM EXCEPÇÃO! Não sejam hipócritas ao dizerem que um currículo mínimo eleva o conhecimento dos alunos: torna-os mais ignorantes e afastados da escola que forma os rebentos próprios!
Uma escola pública de qualidade tem exigência máxima, também para os filhos dos mais pobres e tenta levá-los até ao máximo das suas capacidades! Não sejam hipócritas quando criam projectos educativos com exigências curriculares mínimas, onde os alunos no 1º Ciclo nem sequer sabem ler, escrever ou contar, e vão-nos empurrando , com medidas supostamente integradoras, pela escolaridade fora com conhecimentos nulos! Afasto destes os que , apesar de estarem em zonas desfavorecidas, não estão no topo do ranking, mas não se conformam e também querem que os filhos dos mais pobres possam ter bons resultados nos exames e na vida! São esses que, para mim, contam! Não se desculpam pelos resultados miseráveis nos exames quando há escolas em zonas desfavorecidas que dão um passo em frente, melhoram, sem medo, os seus resultados! Com pouca exigência curricular, de conhecimentos, estão a aprofundar as desigualdades entre pobres e ricos…cada vez os colégios estarão mais no topo… e até podem fazer exames de salto à macaca porque eles voltarão a estar lá em cima… A desculpa de que têm resultados nos exames miseráveis nos exames porque ensinam , artes., ou porque o projecto educativo é muito moderno e aprofunda outras competências , não passa de uma desculpa! Mas acham que nos colégios não se aprende pela Arte? Que não há desporto? Que não formam integralmente as crianças? Aceito, sim, que há profissionais extraordinários, escolas públicas que não abdicam do seu trabalho em zonas muito complexas, com alunos que as privadas rejeitariam, onde parece não haver uma luz de esperança… e esses profissionais trabalham abnegados, que apesar do muito trabalho os resultados , também nos exames, foram aquém do que desejariam… Mas, apesar disso, e sobretudo por isso, não querem desenhar ”fatos curriculares” para pobrezinhos, criar uma escola com um currículo académico mínimo: que fazem da função docente a mais nobre… que lutaram muito e apesar disso falharam… Baixar o nível académico dos alunos da Escola Pública, menorizar exames, excluir provas de conhecimentos, é nivelar por baixo varrer o lixo ara debaixo do tapete … Porque podem acabar com os exames mas, sem transformar a realidade concreta, tudo continuará na mesma, num injusto e pesado engano !
Muito bem!
Bem dito.
Ainda haverá esperança?
Concordo plenamente. Há anos que ando a pregar, mas só me ouvem os peixes…e esta é uma conversa da treta. É como aqueles diretores que desvalorizam os rankings quando a fotografia ficou mal, mas quando sobem colocam logo em destaque nas redes sociais… Só com exigência é que há mobilidade social. A flexibilidade só vai excluir os mais pobres no mercado de trabalho.
Só quero uma medida por parte de ME.
Troquem os vigilantes com escolas públicas ou obriguem os alunos das privadas a fazerem o exame na escola pública mais próxima.
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Quais as consequências dos Ranquings?…premeiam-se os melhores?….penalizam-se os piores?….ou será que os Ranquins servem apenas para deixar tudo como está?….
A mediocridade da Escola Pública fica cada vez mais evidente?…Será melhor acabar com os Rankings para esconder a mediocridade???????
Bom!…Há coisas que já não se conseguem esconder:
– Portugal, o país com uma das maiores dividas públicas do Mundo.
– Portugal, o país com maior numero de infetados e taxa de infeção por milhão de habitantes.
– Portugal, o país que está sempre de mão esticada á caridade dos países mais desenvolvidos da Europa.
– Portugal, um dos países mais pobres da União Europeia.
– Portugal, um dos países da europa com maior nivel de analfabetismo funcional.
– Portugal, o país que é um sitio perigoso para frequentar e que é colocado na lista vermelha da maioria dos países da Europa devido á COVID 19.
Acabem com os Rankings para ver se os outros países acreditam na excelência da Escola Pública. Não há nada melhor do que disfarçar a MEDIOCRIDADE. Tenham VERGONHA!…
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Tal e qual. Tudo sinais de um país atrasado.
“Quer saber o faz uma boa escola? Visite-a. Fale com os alunos, veja-a como um todo. Se não quer que o seu filho se transforme numa média, aposte numa educação centrada no humanismo e na valorização de todos. Porque é isso e não uma centésima o que lhe dará asas para chegar mais longe.”
Concordo que DEVERIA ser assim… Mas, de facto, não é…
O sistema educativo vigente está edificado sob o primado dos exames, concorde-se ou não com os mesmos… Portanto, as médias importam, as classificações obtidas nos exames importam, as classificações obtidas nas disciplinas importam e até as décimas podem importar… E tudo se traduz sempre num número…
Escusamos de ser hipócritas e ingénuos: o que realmente importa neste sistema educativo são os números, não as pessoas, não a humanização, não a valorização de todos… Ou melhor, importam, felizmente, para muitos profissionais de educação, mas não são elegíveis para as estatísticas do Ministério. Para essas, tudo o que não seja traduzível num número, não tem grande significado …
Contrariamente àquilo que nos querem fazer crer, o que realmente importa não é a avaliação é a classificação. Está na altura, de adaptar os discursos muito eloquentes à realidade do sistema educativo. Ou então, mude-se o sistema educativo…
Continuar com a dissonância e a incongruência entre os discursos e a realidade é que não faz qualquer sentido…
Lamentavelmente, é assim…
Não consegue esconder o quão ressabiado fica com uma simples folha Excel de resultados obtidos em exames nacionais.
Raiva que o leva a a atacar e a ofender escolas e profissionais de forma indiscriminada e vil.
E é na mão desta gente que está o nosso sistema de ensino.
Já não tenho paciência para estas ossanas a amanhãs que cantam, que não passam de delírios de gente que nos detesta e que está a condenar o sistema de ensino e o país à mediocridade.
Há aproximadamente 20 anos atrás , as escolas públicas estavam presentes (com peso) nos primeiros 50 lugares do ranking.
Facto: a escola pública degradou-se.
Os rankings servem para algo, nem que seja para descortinar, a má gestão, o baixo nível de formação das comunidades escolares, de um cada vez maior número de estabelecimentos de ensino.
A maioria das escolas públicas apresenta valores com médias negativas, um indicador de que algo não vai bem.
Ora bem! E quanto mais 54 e 55 produzirem para os pobrezinhos, pior será.
Há 20 anos atrás a escola pública era frequentada por todos e, os alunos com melhor apoio familiar, com reforço escolar não eram desviados para o Colégio colado logo ali ao lado da Escola Pública. Na Escola Pública os alunos que se portavam menos bem ou não tinham capacidades reprovavam e já nem a exame iam, por não terem capacidades. A Escola há 20 anos atrás era, totalmente, diferente da escola de hoje, como tal, é como comparar alhos com bugalhos.
Conheço bem a Aurélia de Sousa, outrora presença cimeira nos rankings.
Por volta de 2008 e 2009 começou a notar-se a saída em massa dos melhores alunos (os que procuravam cursos superiores com acesso mais difícil) para o privado das redondezas. Houve quem alerta-se que caso a escola não alterasse o processo de classificação dos alunos iria deixar de ser atrativa para os melhores alunos e que ajudavam a escola a subir nos rankings. Na prática, o que acontecia (e continua a acontecer) era restringir a atribuição de classificações superiores a 18 valores, naquilo a que os seus professores chamavam de “exigência”, o resultado está à vista: sem os alunos mais ambiciosos a frequentarem o secundário, a escola tem vindo a cair ano após ano. No lugar desses alunos mais ambiciosos entraram miúdos vindos das periferias cujas ambições são menores, e aos quais os professores da Aurélia continuam a aplicar a mesma receita de “exigência”.
Nesta caso a culpa não é (foi) do Ministério.
3 coisas para os rankings valerem alguma coisa:
1° os alunos das escolas privadas irem fazer os exames na pública mais próximo
2° as privadas serem obrigadas a aceitar todo tipo de alunos. Tenham ou não dinheiro.
3° Acabarem com as adaptações e flexibilizações (54 55) no ensino público.
Depois falamos da qualidade do ensino e dos professores…
Assino por baixo!
Como é q se pode acreditar num Ranking viciado em q uma Escola do Porto deu 20 valores a um aluno de E Fisica…nem a Nadja Comanechy conseguiria? Acontece q esta escola estÁ SEMPRE no Ranking da INFLACÇÃO DAS NOTAS…Porq baixaram as notas ao saberem q estavam a ser investigadas????
No ano anterior, a minha escola estava muito mal posicionada. Mas após ter sido colocada, melhorou imenso, subindo dezenas de lugares. Sinto-me tão orgulhosa!
Sim foi como eu.
A partir do momento que comecei a dar lá aulas subiu logo para as primeiras 20 do ranking.
Há mesmo profs que fazem a diferença… Obrigada a todos.
Uiiiiii a escola do regime e da tele-escola está na posição 467 a nível nacional no 3 ciclo… Alcanena…
É agora que o SE vai desmaiar.
Um grande aplauso para o Sr. Secretário. A prova do que afirma está no facto de tanto ele como a Sra. Secretária Leitão teren os seus filhos matriculados numa TEIP daquelas que aparecem nos últimos lugares do ranking.
Claro que o contexto social tem importância, mas não me parece que para os frequentadores de colégios privados esse contexto se tenha alguma vez alterado. Já as posições desses colégios nos “ranking” sim, nos primeiros anos em que foram publicados as primeiras escolas eram públicas. Depois, de um ano para o outro, passaram a ser os privados a ocupar o “top”. Alteração súbita e significativa de métodos pedagógicos? Uma selecção mais rigorosa dos frequentadores? Ou será que o facto dos exames serem efectuados nesses estabelecimentos privados, vigiados pelos seus professores, tem alguma coisa a ver com isso? Essas escolas não competem só com as públicas, competem também entre si. Na mesma área geográfica os melhores classificados terão mais procura, poderão seleccionar os melhores alunos para si, garantindo assim uma maior facilidade em obter melhores resultados e, eventualmente, podendo cobrar maiores propinas.
No tempo da “outra senhora”, os alunos dos colégios privados iam realizar os exames nas escolas públicas. Porque não voltar a essa prática? Aqui também se aplica o ditado, à mulher de César não basta ser honesta, também tem de o parecer…
Uma escola capaz de acabar com o abandono dos jovens ciganos?
Cadê?
Ensino privado !
No atual contexto, de contestação social , contra atitudes e costumes racistas , não haverá também aqui comportamentos racistas , elitistas e tudo o possa fazer tremer os valores que sustentam uma democracia !